O som forte da água corrente, que rompe o silêncio da mata, anuncia o trecho final da trilha e parece reanimar quem se aventura a subir até o topo da Cascata da Pedra Branca, em Três Forquilhas, no Litoral Norte, a cerca de 175 quilômetros de Porto Alegre. A recompensa, depois de quase uma hora de trajeto, é uma piscina natural de borda infinita.
O espelho de água fria e cristalina fica suspenso sobre o vale e se forma antes de a cascata escorrer com força por um penhasco de aproximadamente 120 metros, que encanta quem visita o local. Lá de cima, ao deixar o interior da floresta, após um último trecho escorregadio – por causa da terra úmida –, descortina-se uma vista ampla da natureza preservada entre imponentes paredões rochosos.
— É a segunda vez que venho aqui. Sair da rotina do dia a dia, aquela correria, do estresse do trabalho, e vir para o meio da natureza, descansar, relaxar, deixa o dia prazeroso. Dá um pouco de medo, por estar muito perto da queda d’água, mas chegar aqui e ter esse contato com a natureza, faz com que a gente se sinta em paz — diz Jaqueline Maciel, 34 anos, técnica em segurança do trabalho de Osório, que visitava a cascata na companhia de amigos.
Quem está pelo Litoral Norte veraneando, seja partindo de Torres ou de Capão da Canoa, leva cerca de 1h20min até o local, utilizando a RS-486 como rota no trecho final. Cerca de 30 minutos da viagem ocorrem em estrada de chão batido, com trechos repletos de pedras, o que exige cautela dos motoristas.
Importância do guia
A trilha que rasga o costão da mata não começa exatamente na base da queda, mas alguns metros abaixo, demarcada por um pórtico de madeira à beira da estrada, com duas placas: “Borda Infinita – 1,4 km” e “1 hora de subida íngreme”. O caminho se estreita pela floresta, com subidas em terreno irregular, pedras soltas e raízes expostas.
Para chegar à piscina natural, a trilha apresenta cerca de 400 metros de desnível, o que exige bom condicionamento físico para encarar a aventura. No trajeto, podem ser vistas imponentes figueiras, xaxins e uma grande diversidade de plantas. No entanto, também é preciso redobrar a atenção com animais peçonhentos.
Por isso, a recomendação, inclusive da Secretaria de Turismo, Cultura e Desporto de Três Forquilhas, é que a subida seja feita com o acompanhamento de um guia experiente, que conheça bem o local.
Um dos profissionais que oferecem esse tipo de serviço na região é Rodrigo Ribeiro Aresi, conhecido como Guia Rodriguera, 45 anos, da Itati Explorer. Além de ser habituado à trilha, ele também orienta sobre as vestimentas e os equipamentos de proteção necessários para a subida até a piscina natural.
— Muitos se arriscam e vão por conta própria, mas o ideal é ter alguém acompanhando para que, caso aconteça alguma coisa, algum acidente, exista amparo. Essa subida é uma das mais difíceis da região. Então, o começo de tudo para encará-la é ter um bom tênis, adequado para trilha, porque o terreno é bem escorregadio. Também recomendo que as pessoas façam a trilha de manhã, quando ainda não está tão quente. Se deixar para a tarde, pode acabar pegando a noite na descida, o que é perigoso — explica Aresi.
"Puxadinha"
Joberthan Santos, 42 anos, bancário de Osório, já é experiente em trilhas e, mesmo assim, reforça que a da Cascata da Pedra Branca é, sim, uma das mais “desafiadoras” que já encarou. Embora seja um trajeto que exige bastante do corpo, ele já o percorreu três vezes com amigos. Segundo ele, nesta última vez, o tempo de subida foi de 45 minutos e, ao chegar ao topo, tudo valeu a pena:
— É uma paz inexplicável. Vemos a imensidão, todo o vale, toda a costa. É legal demais. Conhecemos bastante, porque gostamos muito de visitar cascatas. Então, ter esses lugares abertos ao público, com o mínimo de infraestrutura para que possamos chegar até eles, é muito importante para o turismo e para o desenvolvimento da cidade.
Este é um ponto curioso: segundo o secretário de Turismo de Três Forquilhas, Oli Sparremberger, a Cascata da Pedra Branca, apesar de ser um grande atrativo para a cidade – reunindo, por temporada, cerca de três mil visitantes –, não pertence ao poder público.
— A cascata fica dentro de uma propriedade privada, mas o proprietário permite as visitas sem cobrar nada. Vários governos da cidade já tentaram comprar a área, mas ele não vende. Por isso, não podemos fazer mais investimentos. O dono das terras é parceiro da Prefeitura de Três Forquilhas e estamos sempre em contato. A única coisa que ele pede é que não deixem sujeira, para preservar o local — conta o secretário, que afirma não poder revelar quem é o proprietário.
Linda nas duas pontas
E, caso o visitante não queira encarar a trilha montanha acima, apenas a parte inferior da Cascata da Pedra Branca já é um espetáculo por si só. Rodeado por rochas, o poço onde a queda d’água desemboca tem partes mais fundas, mas, em boa parte, dá pé – o ideal, porém, é ir com um calçado, por conta das pedras no fundo, que podem machucar.
No entorno, há bastante área verde e espaço para levar, por exemplo, uma churrasqueira portátil e até mesmo barracas para acampar. O carro ou a moto chegam bem perto da queda d’água, o que facilita a logística. É um local para passar o dia com a família e amigos.
Foi o que fez Joelma da Luz, 43 anos, vendedora de Capão da Canoa, que foi conhecer a cascata ao lado do filho, Vinícius da Luz Lima, 21, auxiliar de jardinagem, e do companheiro, Paulo Barbosa, 32, comprador. O trio, que costuma escolher seus destinos por meio de vídeos na internet, estava carregando um cooler e aproveitou a água fresca por horas.
— Nunca tinha vindo aqui. É muito lindo, maravilhoso. E, para mim, assim que entro na água, tenho que ir para baixo da cascata. A água geladinha caindo no corpo é incrível. Dá uma sensação muito boa de liberdade. E sempre respeitamos o local. Só fazemos o que é seguro. Também recolhemos todo o lixo, sem fazer nada que prejudique o ambiente. Queremos preservar — conta Joelma.
Uma das cenas que representa essa atmosfera foi a de Manoel Rodrigues Martins, 20 anos, auxiliar de produção de Praia Grande, em Santa Catarina. Ele, acompanhado de um grupo de amigos, foi até a parte de trás da queda d’água e, em um momento de conexão com o ambiente, ergueu os braços e ficou por alguns minutos se reenergizando na cascata.
— A cabeça esvazia na hora. Tu é a natureza. Tu olha para esse lugar e é tudo verde. Não tenho palavras — relata o jovem, que já planeja voltar.





