
As mulheres representam menos de 5% do total de guarda-vidas no Rio Grande do Sul. Conforme o Corpo de Bombeiros, os números mudam ao longo da temporada, mas até a semana passada, pelo menos 812 guarda-vidas atuavam no litoral gaúcho – entre civis, bombeiros e policiais militares. Apenas 35 profissionais são mulheres.
Uma das quatro guarda-vidas que atuam em Torres é Mariana dos Santos Fortes, 27 anos. Ela conta que, por vezes, tem de encarar situações de preconceito por ser mulher, mas destaca que há também apoio.
— As pessoas reconhecem muito. Tu vai caminhar e as mulheres estão dando sempre incentivo: "Nossa, que legal, continue". E nós somos minoria. Então, espero que estejamos abrindo caminhos e dando incentivo para que outras mulheres tenham coragem de se desafiar. Nós temos a diferença fisiológica do homem, porém fazemos o mesmo treinamento, temos a mesma técnica — destaca a soldado Fortes.
Mariana é bombeira militar desde 2022. Já naquele ano, os primeiros meses de trabalho foram como guarda-vidas. No dia a dia, ela não nega que existam questionamentos do básico. Por exemplo, se ela sabe nadar:
— A mulher já está em minoria em várias situações na vida, então causa estranheza a figura da mulher na guarita, mas, ao mesmo tempo, eu me senti muito abraçada nesses anos de operação. Há muito incentivo, querem tirar foto. É algo bem legal. As crianças adoram — acrescenta.
A fala de Mariana foi vista em prática momentos depois, ainda durante a entrevista à Zero Hora, quando uma família se aproximou para pedir foto.
A rotina de uma guarda-vidas
Desde pequena, Mariana esteve ligada a esportes como corrida e natação. O sonho dela, para a vida adulta, era fazer concurso para carreira militar.
— Eu não imaginava ser bombeira, porque prestei vários concursos na área militar e o do Corpo de Bombeiros foi o último. Eu pedi para Deus me dar um sinal, que desse certo se fosse para ser (risos). E, no fim, deu certo — conta.
Durante a formação de bombeira, surgiu a oportunidade de se especializar em salvamento aquático. E Mariana aproveitou. Desde 2022, em todos os anos, ela atua como guarda-vidas em Torres. A escala de trabalho varia, mas a rotina inclui verificar as condições do mar, as correntes de retorno e a orientação do vento.
A soldado também coloca as bandeiras que demarcam as áreas de banho, monta o morrinho em frente à guarita e sinaliza áreas perigosas no mar. O principal, como destaca, é a orientação aos banhistas — que, segundo ela, têm perguntado mais sobre os motivos de tantos apitos.
O apito é um dos itens que ficam no kit da guarda-vidas, assim como boia e nadadeiras. Mariana explica que vai para o trabalho já pronta: com blusa de proteção solar, sunquini, top, chapéu ou boné e chinelo. A roupa precisa ser trocada a cada entrada no mar. Nesta temporada guarda-vidas fez um salvamento, ocorrido na Praia Grande.
Verão 2026
De atleta a militar

A história de outra guarda-vidas também passa pela natação. Naiany Canabarro Cielo, 29 anos, foi atleta no Grêmio Náutico União (GNU), em Porto Alegre, até chegar a época do vestibular e da faculdade.
A paixão pela área da saúde e por ajudar as pessoas, junto à experiência de atleta, fez com que ela fosse atrás do que muitos já lhe diziam: tornar-se guarda‑vidas. Em 2015, ela se candidatou como civil. Desde então, já são 10 temporadas como guarda-vidas.
— Eu era guarda-vidas civil durante o verão e, durante o ano, eu fazia faculdade de Farmácia. Em 2017, abriu o concurso para ser bombeira militar. Um colega, na época, em Imbé, me perguntou por que eu não fazia o concurso. Eu nem sabia direito como funcionava, falei que fazia faculdade de Farmácia e que queria ser farmacêutica. Ele me incentivou e disse que, se eu não gostasse, eu saía depois. E aí estou aqui até hoje (risos) — lembra a segundo-sargento.
Após passar no concurso, ela foi chamada em 2020, fez a formação como bombeira e, desde então, passou a atuar como guarda-vidas militar no verão. Ela esclarece que, para isso, é necessário se candidatar a cada ano e fazer testes para demonstrar que está preparada. Ela também participa das formações de novos colegas.
Poder servir de inspiração para outras mulheres é algo que a motiva. Na família de Naiany, não houve bombeiros antes dela, mas uma prima decidiu se dedicar à carreira depois.
— Quanto mais meninas vêm, mais querem vir. Acredito que é um efeito manada, de conseguir ver o exemplo e seguir também — pontua.
Durante a atuação como guarda-vidas, Naiany confessa já ter ouvido comentários de que não gostou:
— Já recebi muitas perguntas do tipo: "Mas tu consegue mesmo salvar?". Sim, somos uma instituição que tem todo um crédito e toda uma preparação por trás. Então, se eu estou aqui, não é porque alguém me colocou aqui de graça, nem eu nem as outras mulheres.
Nesta temporada, ela fez três salvamentos, todos na Praia Grande. Mas, nas 10 temporadas de atuação, já perdeu as contas.
— Focamos bastante na questão da prevenção, mas, em algum momento, acontece salvamento e é, para isso, que estamos aqui também — ressalta.
Como ser guarda-vidas civil
- O Corpo de Bombeiros Militar lança editais de processo seletivo meses antes de iniciar a temporada, no site bombeiros.rs.gov.br
- Os selecionados passam por curso de capacitação ou de recertificação (caso a pessoa já tenha atuado como guarda-vidas civil temporário)
- O trabalho é remunerado. No caso da Operação Verão 2025/2026, o valor foi de R$ 4.240












