
A fama do município de Torres, no Litoral Norte, de ter um público que quer apenas calmaria e descanso muda o tom em alguns lugares. Música, dança, drinks e lanches embalam uma vida noturna simples e restrita, com frequentadores que gostariam de ver a cidade ganhar mais opções não só no veraneio, mas no ano inteiro.
— Gosto de sair, mas acaba que não saio tanto por faltar variedade de coisas para fazer, para diferentes tipos de público — opina a professora Alessandra Duarte Soares, 22 anos, que mora no município.
A estudante e fotógrafa Erika Hendler, 21, também moradora da cidade, tem uma opinião parecida:
— Encontramos alguns lugares de festinha, para comer, mas é que nem (a história do) sapatinho da Cinderela: deu meia-noite, acabou (o movimento).
Na avaliação do próprio secretário de Turismo de Torres, Gabriel de Mello, o cotidiano da cidade tende a explorar "muito mais o dia":
— A nossa característica, desde formação geológica e tudo mais, favorece que se explore o turismo de endorfina, em que as pessoas vão a um determinado lugar para levar uma vida saudável e praticar hábitos diurnos principalmente, não tão noturnos.
Points da cidade
Há quem diga, porém, que o município satisfaz o desejo do turista que busca alternativa de lazer à noite, como a expedidora de indústria Jocélia Braga, 47, que veraneia há 30 anos em Torres.
— A noite de Torres é muito boa. Tem coisas diferentes, mudando. Algumas já mudaram inclusive para melhor — opina.
Um dos pontos que reúnem o público até próximo da meia-noite é o A Fonte Beer Park, que surgiu em 2016 e ganhou a configuração atual cinco anos depois.
O local tem música ao vivo e conta com hamburgueria, pizzaria, restaurante de comida mexicana e choperia. No último sábado (7), quando Zero Hora foi conhecer a casa, uma banda tocava rock nacional e internacional.
Um dos proprietários do estabelecimento, Guilherme Pinto de Almeida, 38 anos, explica que a variedade ajuda a fazer o empreendimento ficar aberto o ano inteiro:
— A nossa persona (o perfil do cliente) é do zero aos 80 anos. Para sobreviver no inverno e no verão, foi essa característica que resolvemos ter.
Para quem quer adentrar a madrugada, uma das opções é o Lounge 365 Gastropub, que também alia gastronomia e música. O ponto já era conhecido pelas festas, mas ganhou um novo negócio em 2025.
Conforme detalha um dos proprietários, Leão Filipe Martins Lucas, 32 anos, o público mais frequente é acima dos 30 anos. No sábado (7), uma banda de pagode animava os clientes.
— Normalmente, quem chega aqui pela primeira vez volta duas, três, quatro noites seguidas para conhecer, principalmente pela parte dos drinks que temos — comenta.
Um público ainda mais jovem frequenta o Garden Bar, que funciona até as 5h em sextas e sábados. A casa noturna surgiu há 11 anos por amigos que não encontravam opções à noite na cidade, conforme Pedro Moraes Marques, 34 anos, um dos proprietários.
O som da rua, o descanso e a valorização
Zero Hora encontrou ainda um samba em uma praça na Praia da Cal que faz parte do projeto Orla Viva, promovido pelo Sistema Fiergs.
Quem entoava a música era a cantora Iasmini Lages dos Santos, 38 anos. Na descrição dela, a vida noturna na cidade é formada por músicos que precisam se adaptar a cachês baixos e a limitações de barulho.
— Há muito tempo tem sido assim, de fazer som muito baixo, terminar muito cedo. Meia-noite não tem mais nada, porque há reclamações de moradores. Mas eu e os outros artistas lutamos para que as pessoas entendam que estamos em um lugar de veraneio, para descanso, mas também para aproveitar — alega.

Segundo o secretário de Turismo de Torres Gabriel de Mello, o foco da administração municipal tem sido atrair shows nacionais. Mesmo assim, considera que alguns costumes ficaram para trás entre os empresários.
— A casa noturna fechada, como um modelo que dizemos "antigo", não faz mais sentido em Torres. Embora eu pessoalmente sinta falta, é um modelo de negócio que não se sustenta financeiramente. Desde a pandemia não se tem mais esse formato funcionando — sinaliza.


