
Os vestígios de um antigo cemitério ao lado da Igreja Matriz São Domingos das Torres, no Litoral Norte, podem revelar os primeiros registros da cidade de Torres. A existência do que seria o primeiro cemitério da região inicial das Torres, no Morro do Farol, foi identificada pelo jornalista e historiador Nelson Adams Filho, em conjunto com uma equipe de colegas.
Em 2020, durante uma pesquisa sobre a Festa de São Domingos, ele teve acesso ao primeiro livro de óbitos da Capela de São Domingos das Torres, atual igreja do município. O documento reúne registros de 258 pessoas sepultadas no cemitério da capela entre 1826 e 1859. Conforme explica o historiador, o primeiro óbito é o de Jexissima, uma menina de seis anos que morreu por conta de “mal da terra”, isto é, verminose. Segundo ele, a maioria dos casos refere-se a mortes de crianças pela doença, em sua maior parte de baixa classe social.
Com base em outros relatos e na indicação de que haveria um segundo livro de óbitos, não localizado, Nelson não descarta que tenham ocorrido mais sepultamentos no local. Após reunir os dados, buscou ajuda para localizar o possível cemitério onde existia a capela.
— Conversando com amigos, eu tinha um amigo que já faleceu, Bento Barcelos da Silva, que cuidava da estação de meteorologia. Ele não era historiador, mas era um prático, gostava de história. O Bento me disse que, na época de 1980, foram cavar ali do lado da casa número 1 (considerada uma das primeiras edificações do núcleo urbano de Torres) e começou a saltar osso para tudo que é lado e o pessoal se "mandou" — relata Nelson.
Com o auxílio de uma arqueóloga, ele encontrou ossos em uma propriedade particular — hoje encoberta por vegetação e lixo — ao lado da igreja. O maior deles foi analisado por um médico ortopedista, que constatou tratar-se possivelmente de uma tíbia pertencente a um homem de cerca de 40 anos, conforme registrou Nelson no livro História Torres – Aspectos – Volume IV.
Ele relata ainda que o achado foi comunicado ao Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (Comphac) de Torres, ao Ministério Público Estadual (MPE) e Federal (MPF) e ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae). Desde então, segundo Nelson, há a necessidade de um trabalho arqueológico no local.
Procurado pela reportagem de Zero Hora, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) informou que também foi comunicado sobre a descoberta dos vestígios ósseos, feita em 2020. A instituição esclareceu que, a partir desse processo, em conjunto com o MPF e o Iphae, definiu que eventuais obras no polígono do entorno da igreja, tombada em nível estadual, devem ser precedidas de pesquisa arqueológica.
Zero Hora tentou contato ainda com a prefeitura de Torres para saber se há algum plano de escavação arqueológica na região, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. Leia no fim do texto o posicionamento do Iphae.
Celebração dos 200 anos
Ao lado do terreno que hoje aparenta abandono, impõe-se a estrutura bicentenária da Igreja Matriz São Domingos das Torres. O prédio começou a ser construído em 1819 e foi inaugurado em 1824. Dois anos depois, tornou-se uma capela curada, passando a contar com a presença fixa de um padre (cura), responsável por atender às necessidades religiosas da comunidade.
Segundo o padre Leonir Alves, 54 anos, responsável pela paróquia há 11 anos, a igreja foi tombada como patrimônio histórico e cultural do Estado em 1983. O nome faz referência a São Domingos, frei dominicano fundador de uma ordem religiosa que se destacou pela pregação durante a Idade Média.
Já a expressão “das Torres” remete à história dos tropeiros que passavam pela região e, ao observarem a geografia local, passaram a se referir ao lugar como “as torres”, conforme explica o historiador Nelson.
No início de sua atuação na paróquia, padre Leonir recorreu a Nelson para descobrir há quantos anos a festa do padroeiro São Domingos era celebrada na comunidade. Em 2026, a festividade completa 200 anos – uma festa que pode ser uma missa ou alguma outra atividade que celebre o santo, como esclarece o padre.
Neste ano, a comunidade planeja fazer ações como caminhada, passeio ciclístico e jantar.
Segundo o padre Leonir, a igreja registra grande procura para a realização de casamentos na região. Os batizados ocorrem duas vezes por mês. A missa de domingo também costuma ficar lotada, como observado pela reportagem de Zero Hora no último fim de semana, por volta das 18h.
A última grande reforma foi inaugurada em 2017, após o prédio ter sido interditado pela Defesa Civil em 2008. Mas o pároco constata que o prédio necessita de restauro, principalmente nas paredes, e que a intervenção está em fase de projeto.
O que diz o Iphae
O Iphae teve conhecimento sobre a descoberta de vestígios ósseos ao lado da Igreja Matriz São Domingos das Torres, no Litoral Norte do RS, em 2020. Mas, tendo em vista que não possui autorização legal para tratar de assuntos relacionados à arqueologia do local, a fiscalização e o acompanhamento dessa situação passou a ser feito pelo Iphan.
O Iphae, por sua vez, passou a estudar o caso através do processo administrativo 20/1100-0000591-9, com o qual foi publicada a PORTARIA SEDAC Nº 58/2021. O documento determina que intervenções em subsuperfície relacionadas a obras no interior da poligonal do tombamento estadual, que corresponde ao núcleo urbano mais antigo de Torres, sejam precedidas de pesquisa arqueológica aprovada pelo Iphan.
A legislação também garante a possível identificação de elementos relacionados ao antigo e desaparecido Forte de São Diogo das Torres/Baluarte Ipiranga, ao(s) cemitério(s) ali existentes e demais elementos arqueológicos potencialmente existentes relacionados às ocupações dos séculos XVIII e XIX. Ao mesmo tempo, a portaria determina que qualquer intervenção dentro da área da poligonal do bem tombado, deve ter prévia aprovação e autorização do Iphae, visando a preservação da visibilidade, ambiência do bem e contexto urbano no qual está inserido.





