
A Praia do Cassino, em Rio Grande, registrou presença expressiva de caravelas-portuguesas durante o feriado de Nossa Senhora dos Navegantes, tanto na água quanto na faixa de areia. Os animais de coloração azulada oferecem risco elevado para os humanos, podendo causar desde lesões de pele até intoxicações graves.
Conforme as equipes de salvamento da região, na segunda-feira (2), foram realizados 576 atendimentos de banhistas feridos após contato com cnidários, entre águas-vivas e caravelas. Entretanto, segundo o 1º Sargento Vilela, Comandante do Pelotão de Guarda-Vidas do Cassino, o número de atendimentos apresentou queda entre terça (3) e o final da manhã desta quarta-feira (4).
Também não houve indícios de permanência das caravelas na localidade após a presença registrada na segunda-feira, o que indica provável migração da espécie.
De acordo com o professor Renato Nagata, do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), é possível que as caravelas cheguem às praias Litoral Norte nos próximos dias.
O especialista explica que a situação deste veraneio é atípica, sobretudo pela presença desses animais na costa gaúcha. Segundo ele, as caravelas habitam o alto mar, em áreas tropicais e subtropicais, sendo mais comuns no Norte e Nordeste do Brasil. Contudo, embora a situação exija atenção, é cedo para falar em infestação, diz Nagata.
O professor da Furg explica que a chegada das caravelas ao Rio Grande do Sul tem relação com a corrente marítima e os ventos, que ajudam a trazer as populações de áreas tropicais para o Sul, além de "empurrá-las" para a costa. As mudanças climáticas também entram na equação.
— Devido ao aquecimento dos oceanos, espécies de áreas quentes têm aparecido com mais frequência em regiões mais frias como a nossa, que também sofre os efeitos do aquecimento — destaca.

O que é a caravela-portuguesa?
Diferentemente do que popularmente se pensa, a caravela-portuguesa não é uma água-viva — ainda que pertença ao grupo dos cnidários.
Enquanto a água-viva é um organismo individual, a caravela é uma colônia de vários organismos que vivem juntos e desempenham funções diferentes, como flutuação, alimentação e defesa.
— O componente de mais fácil identificação é o pneumatóforo, aquele flutuador azulado que parece uma bexiga e mantém o animal na superfície. Outros organismos formam os tentáculos, que são longos e perigosos — descreve o professor.
Esses tentáculos podem atingir até 50 metros de comprimento e abrigam organelas chamadas de nematocistos. São pequenas cápsulas que funcionam como "micro-arpões" e injetam toxinas na pele. É a partir do contato com esses elementos que as lesões acontecem.
Conforme Nagata, o toque pode ocorrer tanto na água (onde há maior chance de quadros graves, devido à possibilidade de o banhista ser enrolado pelos tentáculos da caravela) quanto na areia. Ou seja, mesmo quando o animal está encalhado, há perigo.
Quais os riscos à saúde?
O contato com os tentáculos da caravela-portuguesa provoca sintomas por ação química. Nagata esclarece que não se trata de uma "queimadura", embora o termo seja popularmente usado para descrever os ferimentos causados por cnidários.
— Tecnicamente, uma queimadura é causado por calor. No caso dos cnidários, o que ocorre é um envenenamento. As caravelas têm um veneno que entra na corrente sanguínea e é capaz de desencadear diferentes quadros neurotóxicos — ressalta.
Conforme o especialista, os riscos à saúde humana são significativos e podem incluir:
- Dor intensa e marcas vermelhas lineares características, nos casos mais leves
- Cãibras, náuseas, confusão mental, dificuldade respiratória, choque anafilático, arritmias e parada cardíaca, nos casos mais graves
O que fazer em caso de contato?
A primeira orientação é sair da água, dado o risco de nova intoxicação ou afogamento, ocasionado por cãibras, e buscar ajuda na guarita de salva-vidas. É importante observar o aparecimento de sintomas que indiquem um quadro grave, como dificuldade para respirar e arritmia cardíaca. Nesses casos, deve-se procurar atendimento médico com urgência.
Para tratamento das lesões de pele, o especialista orienta:
- Lave a região atingida com água do mar, a fim de remover os tentáculos
- Aplique vinagre, pois o ácido acético ajuda a desativar as toxinas que ainda não penetraram na pele
- Use compressas de água do mar gelada ou gelo artificial, sempre envolto em panos, para aliviar a dor
Nagata orienta, ainda, sobre o que NÃO fazer nessas situações:
- Nunca use água doce para a lavagem das lesões, pois isso pode causar a dispersão dos nematocistos e amentar o envenenamento
- Não esfregue o local e evite o contato com a areia, pois o atrito pode fazer com que mais veneno seja injetado
- Não utilize urina, álcool ou refrigerante. As substâncias não têm eficácia e podem piorar a situação

