
Há pouco mais de uma semana, um morador de Capão da Canoa, no Litoral Norte, levou um susto ao passar de moto entre as Avenidas Chile e Peru, na zona norte da cidade. O vigilante Gustavo Roberto Rodrigues, de 27 anos, não notou um fio atravessado na rua e cortou o pescoço e o dedo.
— Eu estava descendo com a moto pela avenida e tinha fio pendurado. Acabei cortando o pescoço e machucando o dedo. Quase bati em um carro e quase atropelei um senhor — relembra Rodrigues, que mora perto da região.
O caso repercutiu nas redes sociais após ele mesmo registrar imagens dos ferimentos e fazer um desabafo aos prantos.
A prefeitura de Capão da Canoa diz que teve conhecimento do episódio e fez uma limpeza na região. A CEEE Equatorial lamentou o ocorrido e informou que o risco gerado pelos cabos de telefonia e telecom naquele local foi eliminado.
A situação não é isolada. Conforme a Secretaria Municipal de Obras, dois funcionários percorrem os bairros diariamente fazendo os cortes onde há risco iminente a pedestres e condutores de veículos. A iniciativa, porém, é considerada paliativa e emergencial.
A pasta estima ter recolhido cerca de 10 toneladas de fios de energia, telefonia e internet caídos no município desde o dia 8 de dezembro do ano passado.

Na Justiça e no Ministério Público
Uma nova lei municipal, que entrou em vigor em janeiro deste ano e está em processo de adequação, pretende multar, a partir de julho, as empresas que não atenderem os pedidos de manutenção em Capão da Canoa.
— Estava havendo acidentes com animais e pessoas. Agora, a partir dessa nova lei, a gente espera que as operadoras se adequem e a gente consiga ficar mais só na parte de fiscalização — salienta a fiscal da Secretaria de Obras Márcia Azevedo.
Márcia explica que até março as empresas serão notificadas sobre cenários de risco e deverão regularizar a situação dentro do prazo estipulado. Atualmente, a prefeitura calcula que 98% dos cabos encontrados fora do lugar são de telefonia e internet, com 25 empresas atuando na região.
— Em caso de descumprimento, a gente emite a multa que pode ir de R$ 160 mil a R$ 16 milhões — explica.

No âmbito judicial, o Executivo ainda obteve decisão liminar favorável em uma ação civil pública contra a CEEE Equatorial e as principais operadoras de telefonia e internet do Estado no início de fevereiro.
A determinação da 2ª Vara Cível da Comarca de Capão da Canoa prevê ajustes pelas empresas em até 60 dias para adequação da fiação com pena de multa diária de R$ 5 mil por descumprimento e atraso.
De acordo com a prefeitura, as operadoras devem regularizar ou remover fios e equipamentos em situação de risco ou abandono, eliminando fiações soltas, emaranhadas ou em desacordo com as normas.
Verão 2026
A decisão também estabelece que as empresas façam a imediata correção de qualquer risco estrutural aos postes ou à rede, incluindo sobrepeso e possibilidade de colapso.
O Ministério Público (MP) do Rio Grande do Sul acompanha a situação e salienta que a Promotoria de Justiça de Capão da Canoa mantém acompanhamento permanente das condições da infraestrutura urbana, incluindo rede elétrica e compartilhamento de postes.

Outros municípios do Litoral também registram problemas
O MP diz ainda que instaurou procedimentos para apurar problemas relacionados à fiação irregular em outros municípios do Litoral Norte.
Em Tramandaí, a prefeitura também conseguiu uma liminar na Justiça, no fim de janeiro, para que a CEEE Equatorial adotasse medidas imediatas para manutenção na fiação (veja posicionamento da empresa abaixo). Além disso, afirma que desempenha ações preventivas para corte de fios caídos e soltos.
A Promotoria de Justiça de Torres instaurou, em novembro de 2025, um inquérito civil para apurar a poluição ambiental estética causada pelo excesso de fios e cabos de energia elétrica e de telefonia na área urbana.
Conforme o MP, são investigados o município de Torres, a CEEE Equatorial e companhias de telefonia móvel. Em 9 de fevereiro, a prefeitura foi cobrada para o envio de informações pendentes. A reportagem entrou em contato com a gestão municipal, mas não obteve retorno aos questionamentos até o fechamento desta reportagem.
O que dizem as empresas

A CEEE Equatorial reitera que todos os procedimentos internos seguem estritamente o que está previsto na legislação e regulamentação do setor elétrico.
Com relação ao caso de Tramandaí, a concessionária diz que a "decisão judicial em questão reconhece a responsabilidade também das companhias de telefonia e Telecom acerca da necessidade de adequação e manutenção de suas próprias estruturas".
As prestadoras de serviços de telecomunicações associadas à Conexis Brasil Digital (Algar, Claro, TIM, Vivo e Sercomtel) afirmam que seguem os padrões estabelecidos em regulamentos e normas técnicas para a instalação de fios e cabos nos postes e que mantêm equipes de prontidão para manutenção permanente e atendimento de emergências.
A InternetSul, associação sem fins lucrativos que representa os provedores associados de internet do RS, disse que lamenta quaisquer ocorrências deste gênero e reitera que a sua posição tem sido de promover a limpeza e organização dos cabos nos postes.
Ressalta que mantém há dois anos a Campanha Poste Limpo, "uma iniciativa que propõe a participação de todos os entes envolvidos na utilização de postes para prestação de serviços de Internet e Telecom, desde prefeituras a concessionárias, além dos ocupantes dos postes, para que todos atuem na organização e limpeza dos mesmos, mantendo um ambiente de cabeamento que ofereça segurança, favoreça a prestação dos serviços e combata a poluição visual".
A empresa Oi afirma que "não tem fiação no local".










