
Os veranistas que chegam a Torres, no Litoral Norte, são atraídos pelo mar cristalino e a paisagem impressionante do alto das falésias. Só que também existe um grupo, bem mais restrito, que prefere estar entre os dois pontos citados, ou seja, habitando os paredões rochosos que dão o nome à cidade. São os escaladores.
Na manhã de segunda-feira (2), o guia e instrutor de escalada Rafael Caon, 50 anos, levou uma dupla de alunos para descer e, depois, subir em dois trechos diferentes no Morro das Furnas, no Parque da Guarita.
– O mar é o diferencial daqui. Lugar assim, para escalada na costa, existe na Inglaterra, na Austrália, na Nova Zelândia, mas é raro encontrar este tipo de penhasco à beira-mar. No Rio Grande do Sul, nós temos. E é aqui em Torres. Por isso, vira o nosso point no verão. Até viemos no inverno, mas menos, porque é muito frio (risos) – diz Caon, que é proprietário da Grimper Montanhismo.
Porém, antes de começar o sobe e desce em um paredão, o instrutor realiza um curso básico em sala de aula. Os ensinamentos são para que os novatos aprendam desde como utilizar os equipamentos de segurança até as noções principais de como realizar este tipo de atividade. Somente depois deste treinamento é possível ir a campo.
Desafios maiores
Os alunos Carlos Delano, 30, estudante, e Geverson Vianna, 34, policial civil, são iniciantes, mas possuem bom condicionamento físico e uma ânsia por desafios. Por isso, encararam duas rotas de escalada que exigem um pouco mais de habilidade.
Essas rotas são alternativas de trajeto para superar uma via, medidos por graus de dificuldade de 1 a 10.
Na via Chitara, de 20 metros (grau 4), o desafio é escalar uma fenda e dura cerca de 20 minutos. Na Golpe de Vista, de 25 metros (grau 6), a dificuldade aumenta pois há rochas inclinadas para frente e partes úmidas, que necessitam de pó de magnésio em dobro para secar as mãos.
– Gosto de esportes radicais. E a escalada é mais um para colocar na lista. Essa é a primeira vez em Torres e achei muito legal por causa da natureza. A questão do mar estar ali embaixo, fazendo barulho, dá uma sensação diferente. Eu me senti muito bem – relata Vianna.
Já Delano tinha subido as mesmas vias no ano passado. Desta vez, sentiu-se mais seguro em praticar o esporte no local:
– Tu tens que confiar totalmente na pessoa que está fazendo a tua segurança, ou seja, que vai controlando a corda. Por isso, não tenho medo das quedas, que é quando tu se soltas das paredes. Sei que, se eu cair, o Rafael (instrutor) vai estar me segurando. Mas na verdade tu nem pensas muito nisso. Na parede, com o mar embaixo, é muito massa. Dá vontade de parar e ficar olhando.
A dupla já pensa em desafios maiores, como o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, e as montanhas de El Chaltén, na Patagônia argentina.
Por isso, escolheram as orientações de Caon, único gaúcho que é profissional certificado da Associação Brasileira de Guias de Montanha (ABGM), presidente de 2011 a 2024 da Associação Gaúcha de Montanhismo (AGM) e que também deixou a sua marca em Torres.
– Comecei a frequentar Torres por volta de 1992 e fui um dos pioneiros na abertura das vias aqui das falésias. O conquistador da via batiza ela. E eu batizei algumas, como a Haole e a Bicuíra. Na escalada, buscamos sempre a superação – destaca.
Regulamentação
Ainda que a prática do esporte seja incentivada pelo poder público do município, existem regras que devem ser cumpridas para garantir a segurança dos aventureiros, dos veranistas e também do meio ambiente.
É necessário solicitar uma autorização oficial para a realização da escalada junto à Secretaria de Turismo de Torres.
Após a emissão do documento, ele tem validade de um ano. Mas não permite que as atividades tenham fins comerciais. Ou seja, é vetada qualquer cobrança de valores para a prática no local.
De acordo com o secretário de Turismo, Gabriel de Mello, este tipo de atividade é importante para a cidade, que pretende ser reconhecida pelos esportes ao ar livre:
– A escalada tem atenção do poder municipal dentro do contexto de turismo de endorfina. Torres quer, cada vez mais, se posicionar não só como a capital nacional do balonismo, mas também como a praia onde se pratica múltiplos esportes, todos ligados à natureza e ao bem-estar físico e mental. Queremos uma cidade com mais qualidade de vida.


