
Não são ruas ou carros que esses moradores veem ao olhar pela janela. Eles enxergam o quebrar das ondas e os guarda-sóis povoando a praia. A vida de quem mora à beira-mar na Praia da Cal, em Torres, carrega um ar diferente.
— A gente vive como se estivesse de férias sempre — descreve a policial civil aposentada Lilia Barth, 60 anos.
Apenas um calçadão, onde não há trânsito de veículos, separa a casa dela da faixa de areia. Lilia mora com o marido, André Osório, e o pet Yellow.
Da cidade grande para a beira da praia
Lilia adquiriu o imóvel em 2018, quando já estava aposentada. Ela havia morado em Canoas, na Região Metropolitana, depois foi a Cidreira, no Litoral Norte, e também passou um ano morando no centro de Torres.
A casa na Praia da Cal tinha sido vista à venda por Lilia anos antes, quando ela sequer imaginava que um dia moraria ali. Quando surgiu a oportunidade, ela agarrou.
A paisagem é o que mais encanta a aposentada. Aliás, ela já viu até visitas de baleias durante o inverno.
— É essa vista maravilhosa, essa brisa. Eu acordo, minha janela está sempre aberta, enxergando o mar. Levanto para tomar água, às vezes de madrugada, e me deparo com aquele amanhecer lindo. Eu me arrepio só de falar — explica.
Por outro lado, a maresia é desafiadora, corroendo os eletrodomésticos com rapidez. Mas a tranquilidade e a leveza do dia a dia na praia parecem compensar o problema. Outra vantagem, segundo a moradora, é o passe livre para ir ao mar.
Há oito anos no endereço, Lilia nota que a principal diferença não se deu na faixa de areia, mas no entorno. Segundo ela, as antigas casas e comércios foram transformados em prédios.
— O que eu noto é isso: onde há casas mais antigas, estão derrubando e, inclusive, aqui estiveram várias vezes, assediando a gente: "quer vender?" "Não, não quero vender" — relata.
Quem pôde ver as mudanças no cenário ainda mais ao longo do tempo foram os vizinhos de Lilia, o casal Clovis Zander e Zaira de Oliveira Zander, 91 anos, que moram pelo menos desde a virada do século no endereço atual.
Recordações de um litoral transformado

Ainda que se percam nas contas, foi por volta dos anos 1960 ou 1970 que Clovis e Zaira construíram a residência na Praia da Cal. Hoje, o local é moradia. Naquela época, porém, servia de veraneio para a família.
— Isso aqui era um cômoro de areia. Não tinha calçada, não tinha nada. Nós tínhamos que entrar de carro por lá. Quando a maré estava alta, tu não conseguia entrar. Foi uma época muito difícil. E outra coisa interessante: naquela época, aqui na Praia da Cal, tu contava, no máximo, 20 pessoas no mar. Eram todos moradores daqui — lembra Clovis, sobre um passado distante e distinto da atualidade, que tem a praia lotada de veranistas.
Segundo ele, algumas das casas vizinhas que hoje são de alvenaria eram chalés de madeira. No início, também não havia energia elétrica e o escuro favorecia arrombamentos e furtos. Quando a maré estava alta, a água entrava em parte da casa.

Clovis é casado com Zaira há 64 anos. Os dois se conheceram em Pelotas, no sul do Estado. Depois, chegaram a morar em Porto Alegre também.
— De ruim, não tem nada, mas de bom tem aqui o mar na nossa frente. Eu adoro o mar, sempre gostei, e o meu sonho sempre foi morar na frente do mar — destaca Zaira.
O casal já havia residido no litoral, em Stella Maris, no sul do Estado, mas a casa ficava distante do mar.
Como explica Clovis, os dois tinham o costume de ir a camping na Praia da Guarita e repetiam que um dia morariam na beira da praia. Dito e feito.
Para o casal, o "ar puro da praia" é um dos benefícios da escolha. E a paisagem também parece ser: quem passa em frente à residência logo percebe que não há muro.
— Ele não aceita — afirma uma das filhas, Erica Zander Neves, 61 anos, sobre a resistência do pai a qualquer obstáculo que impeça a vista do mar.
Clovis garante que não irá vender a casa e reforça o desejo de viver pelo menos até os cem anos.
Para ele, a Praia da Cal é um "paraíso perdido em Torres", onde se divide espaço com a natureza.
— Todo mundo que mora na beira-mar aqui da Praia da Cal tem praticamente o mesmo pensamento. Nós somos uma turma muito unida em matéria de preservação do ambiente, fiscalização e tudo. Mas o mundo evolui. Chega um ponto em que aqui também haverá edifício. Mas eu não vou estar vivo até lá — completa.
