
Não eram nem 6h deste domingo (1º), com o sol começando a despertar, quando caiaques deslizavam do Rio Mampituba em direção a um mar que parecia um espelho, na Praia dos Molhes, em Torres, no litoral norte gaúcho. O destino era o Refúgio de Vida Silvestre (Revis) da Ilha dos Lobos, que voltou a receber visitas em outubro de 2025, depois de sete anos.
A agradável temperatura de 20ºC da manhã deixava o dia favorável para a aventura, que exige força nos braços para remar por 2,2 quilômetros, no trajeto mais seguro – em linha reta, da Praia Grande, a distância é de 1,8 quilômetro. A expedição, realizada em duplas, foi liderada por Diego Marcelino Cardoso, 36 anos, idealizador do projeto Caiaque Torres, que conduz os turistas ao local.
— Com a liberação, comecei a ajustar a minha frota para que eu possa, cada vez, mais investir nessa atividade de levar os visitantes até a Ilha dos Lobos. É algo que sacia essa necessidade que as pessoas têm de explorar o mar, de vencer as ondas. E essa operação de travessia de caiaque possibilita vivenciar uma aventura imersiva na natureza — conta Cardoso.
Foram cerca de 30 minutos de remadas em um mar tranquilo e, na ocasião, cristalino. A equipe de reportagem de Zero Hora estava de coletes salva-vidas e seguindo as orientações de segurança do coordenador da expedição marítima. A jornada só teve início depois de Cardoso se certificar das condições favoráveis do tempo e das ondas, minutos antes da partida.
Com a pequena embarcação, é possível chegar ao lado da Ilha dos Lobos, sem limite de distância. Porém, é proibido descer e caminhar no espaço. O passeio é contemplativo e prioriza os animais ali presentes – no domingo, um leão marinho estava confortável em cima de uma pedra, recepcionando os convidados, como um rei em seu castelo, cercado por aves marinhas.
— Vocês deram muita sorte porque, nesta época do ano, estes animais, os pinípedes, como leões e lobos marinhos, já não estão mais aqui. Eles vêm anualmente, mas quase sempre no inverno e na primavera. Depois, retornam para suas colônias reprodutivas no Uruguai e na Argentina. Pouquíssimos ficam, seja por idade avançada ou por preferência de estar na região — explica o biólogo Rodrigo De Rose da Silva, fundador do projeto de educação ambiental Oceanos: A Corrente da Vida.
Segundo o especialista em biologia marinha, os animais viajam até o RS atrás da grande disponibilidade alimentar que existe no Estado. E o entorno da unidade de conservação, que é a única ilha marítima do Estado, conta com uma alta produtividade biológica, atraindo os pinípedes.
No caso de um macho adulto, o leão marinho pode pesar cerca de 350 quilos. Em determinado momento, ele pulou na água, provavelmente para aproveitar a abundância alimentar da região. Pouco depois, voltou para a ilha e reassumiu seu lugar no alto da pedra.
Refúgio protegido
O refúgio de vida silvestre é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e ficou sem receber turistas por sete anos. No período, foram desenvolvidos estudos e regramentos com o objetivo de preservar o local, os animais e garantir a segurança dos visitantes.
— A gente compreende que este tipo de liberação tem vários benefícios: sociais, econômicos e, também, para conservação, porque quando você traz uma atividade regrada para a unidade, você diminui as atividades que ocorrem sem regras. E você traz as pessoas para apoiar a conservação. Então, no nosso entendimento, vai melhorar as condições de conservação da fauna da Ilha dos Lobos — explica o analista ambiental Juliano Oliveira, 56, chefe do Revis da Ilha dos Lobos.
Um dos primeiros a visitar a Ilha dos Lobos de caiaque após a liberação do ICMBio, também em expedição liderada por Diego Marcelino, foi o corretor de imóveis David Almeida Macedo. Ao chegar no local, foi recepcionado por um habitante silvestre e isso foi o suficiente para que marcasse uma segunda ida à unidade.
— Tive a sorte de ver um lobo marinho, o que deixou a experiência ainda mais marcante. Foi algo muito especial e realmente inesquecível. Vejo a reabertura da Ilha dos Lobos para visitação como algo muito positivo, que valoriza a nossa cidade, fortalece o turismo e mostra ainda mais a beleza natural que Torres tem a oferecer — diz Macedo.
Para visitar a Ilha dos Lobos é necessário realizar agendamento, por meio de formulário do ICMBio. O procedimento deve ser realizado com, pelo menos, um dia de antecedência da visita. No processo, ainda há um termo de conhecimento de riscos, com regras e orientações que chegam por e-mail, junto com a confirmação do passeio.
A reabertura foi baseada no estudo Como Virar Torres para o Mar, feito entre 2024 e 2025, que concluiu que o impacto das atividades regradas é mínimo para os animais. Para garantir que o planejamento ocorra corretamente, o ICMBio fiscaliza a unidade de conservação com drones e embarcação de monitoramento. Em casos de infrações ambientais, os responsáveis poderão ser multados e responder judicialmente.
As visitas com caiaque ou stand up paddle são gratuitas, mas é preciso levar o próprio equipamento. Nas próximas semanas, uma empresa de embarcação comercial, que cumpriu os requisitos estipulados pelo ICMBio, deve conquistar autorização para se aproximar da ilha, podendo ficar a 100 metros de distância.




