
A comodidade e a privacidade podem ser a preferência de alguns na hora de escolher onde se hospedar em uma viagem. Mas há quem goste de estar mais próximo à natureza e até mesmo junto de desconhecidos: os campistas, pessoas que ficam em campings.
Em Torres, no Litoral Norte, há apenas três campings formalizados junto à prefeitura. Em um deles, a estudante de Medicina Veterinária Roberta Vieira Toniello, 20 anos, de Novo Hamburgo, vive a experiência do campismo pela primeira vez. Ela e o namorado optaram pela estadia por conta da economia, mas não só:
— Pensamos que seria uma experiência divertida e mais em conta. Quisemos acampar, quisemos essa experiência de estar ao ar livre, porque não íamos ficar muito tempo aqui, então só queríamos um lugar para dormir, mas que fosse mais prático.
Já para uma família de Santa Cruz do Sul, a sensação de sair da rotina de estar "sempre trancado dentro de casa" é a que predomina.
— Nos sentimos mais livres, mais confortáveis — conta a diarista Daniela Silveira, 34 anos.

Ela passou a ter o costume de ficar em campings depois de casar com o mecânico Anderson Karnopp, 35 anos, com quem está há 16 anos.
— O meu pai sempre vai acampar na beira do rio, tanto que ele até acabou comprando um terreno para eu poder ficar acampado lá nos finais de semana — relata Anderson.
Agora, eles passam adiante a experiência, para a filha de 12 anos.
"Kombi home" e as amizades
Há dois meses, o mecânico Ricardo Geremias, 53 anos, fez de um camping uma casa temporária. O catarinense de Florianópolis, mas morador de Cachoeirinha, decidiu mudar após chegar a um ponto de grande estresse no trabalho. No camping, porém, ele não fica parado: passou a trabalhar, ajudando na recepção e organização.
— Eu fico até o dia 1º de março. Aí acho que, depois, vou tirar mais uns 15 dias de férias — brinca.

O "quarto" de Ricardo é dentro de uma Kombi ano 2008, onde tem colchão, frigobar, ventilador e itens de dia a dia. O veículo foi comprado em 2020 e, aos poucos, adaptado. No camping, ele utiliza cozinha e banheiro compartilhados. Embora hoje esteja com a Kombi, conta que era da barraca.
— No primeiro acampamento que fiz, eu tinha 16 anos. Foi eu e um amigo meu lá para Gramado e Canela, de mochilão. Levava panela, comida, levava tudo. E aí entrou na veia o negócio, então, sempre que eu posso, acampo — lembra.
Com essa bagagem de anos, Ricardo bem sabe que o maior desafio é quando se está mal equipado:
— Se pegar uma barraquinha de 100 pila e chover, vai encher tudo de água. Então o que eu recomendo é que, quando for acampar, mesmo que seja pela primeira vez, compre uma lona para pôr por cima. Não esqueça a lona.

Além da sensação de deixar a rotina para trás, para ele, o lado bom de ficar em campings é a simplicidade e a troca com as pessoas. Se no primeiro dia, ninguém se conhece, no seguinte, todos já estão fazendo refeições juntos:
— O lance da cozinha é uma das coisas mais legais. De noite, por exemplo, todo mundo chega da praia cansado e vai para a janta. Eu aprendi a fazer nhoque de uma forma com uns argentinos na semana passada. Eu sou meio metido a querer cozinhar, mas aí um pessoal da Argentina cozinhava tão bem e, nessa troca, eu aprendi a fazer uma receita que eu fazia de um jeito e eles me ensinaram de outro, que é coisa gourmet e simples — exemplifica.
Verão 2026
A rotina na barraca

A bordo de um Voyage, uma moradora de Porto Alegre carrega tudo de que necessita para acampar e mais dois parceiros: o cachorro Fiapo e a cadela Frida. Os três dormem juntos na barraca. A escolha por se hospedar em campings se dá, em parte, para os pets poderem ficar mais a vontade.
— E é mais barato e eu posso ir para qualquer lugar. Até já pensei em comprar casa (na praia), mas assim tu vai para qualquer lugar. Eu venho para Torres, vou para Cidreira, vou para Pinhal, vou para a Serra — acrescenta a funcionária pública Maria Alice Matusiak, 64 anos.
Ela conta que já foi até São Francisco do Sul, em Santa Catarina, acampando pelo caminho. A campista lembra que o pai já tinha esse costume. Depois, um familiar comprou casa na praia e o hábito se perdeu. Maria retomou a experiência nos últimos anos.
Na avaliação dela, o que costuma ser desafiador é a estrutura compartilhada, como os banheiros, que podem não estar tão limpos quanto o desejado.
A barraca que Maria usa para períodos mais longos de estadia tem algo como uma pequena varanda. Ali, ela guarda os itens de cozinha. Quando acorda, usa o fogão elétrico e a chaleira elétrica para fazer o café da manhã.
Em uma caixa, ela reúne os utensílios, como um balde, uma bacia e um escorredor de massa retráteis. Uma das aquisições mais recentes, como mostra, é um kit com três panelas que se encaixam uma dentro da outra, onde também ficam dois copos e dois pratos.
— Eu tenho uma lista de campings em que eu já fui e onde quero ir. Um lá em São Francisco de Paula, tem um lá em Viamão, que é muito bom. Mas tem que ser pelo menos três dias para montar tudo isso aqui... E eu já comprei esse carro porque eu não vou tirar (os itens de acampamento) de dentro do carro, porque eu não tenho elevador, aí é "tira, bota, tira, bota". Então isso aqui fica dentro do carro — resume.
Um camping com mais de 40 anos

Um dos três campings formalizados em Torres é o Camping Cabanas Guarita, que já tem 40 anos. O proprietário, o engenheiro civil Marco Antônio Saraiva Collares, 69 anos, lembra que o planejamento para o negócio começou ainda em 1979.
O local onde fica a matriz do camping, era antigamente uma duna. Marco ressalta que, anos atrás, a legislação era distinta, o que explica o empreendimento ter surgido na região.
— Eu estava ali na Praia da Guarita, surfei de manhã, vim com os amigos e subimos na duna. Perguntei para mim mesmo o que poderíamos fazer de uma duna de areia, naquela época. Eu disse: "olha, vamos transformar num camping" — lembra.
O início oficial do camping ocorreu em 1985. O espaço é como se fosse um refúgio de natureza em meio à cidade. Segundo Marco, há 135 árvores no local, que tem espaço para barracas, mas também conta com estrutura de cabanas e quitinetes. Há banheiros e cozinha compartilhados.
Ao longo dos 40 anos de negócio, Marco diz ter visto empreendimentos parecidos na cidade fecharem. Nesse período, a clientela também foi mudando. Na opinião do empresário, os trailers, vans e motorhomes se proliferaram mais nos últimos anos.
Em uma média, Marco diz receber cerca de 12 mil hóspedes por ano. Apenas em 2026, ele estima que o número já tenha passado de mil.











