Era 2012 quando João Batista dos Santos, conhecido como Tita, fisgou uma miraguaia de 35kg e 1m35cm de comprimento. Foi a última vez que ele pescou este tipo de peixe, o qual logo se tornou uma raridade nas praias de Torres, no Litoral Norte. Por isso, mandou ampliar e plastificar a foto que tem com o animal. Virou um troféu que carrega consigo como prova de sua façanha.
Aos 69 anos, Santos é uma entidade entre os torrenses, já que a pesca comercial deixou de ser base para o sustento das famílias. O mar, na percepção de Tita, está mais raso próximo da praia e dificulta a aproximação de peixes maiores.
Com esta autoridade, o pescador narra suas aventuras e passa adiante as lendas que ouvia. A maioria delas no Morro nas Furnas – ou Torre do Meio –, dentro do Parque Estadual da Guarita José Lutzenberger.
Verão 2026
Uma das histórias ocorreu justamente com Tita. Na adolescência, enquanto pescava à noite, avistou uma bola de fogo flutuando no morro. Não conseguiu dimensionar tamanho ou entender do que se tratava. Só deu no pé.
— Larguei tudo e corri morro abaixo. Deixei minhas linhas na água com tudo. Nem olhei para trás. No dia seguinte, voltei com os meus primos para buscar. Demorei muito para pescar sozinho à noite de novo. Ainda hoje, quando venho aqui em cima, me lembro daquela cena. Não tem como esquecer — recorda.
Uma lenda que está no repertório de Tita remonta a séculos atrás, quando piratas ainda saqueavam e escondiam tesouros.
As furnas – cavidades profundas que se formam nas encostas das rochas e dão nome ao morro – seriam os pontos ideais para fazer a ocultação da pilhagem.
Muitos pescadores, então, exploraram as cavernas naturais esculpidas pelo mar atrás das riquezas, conta o pescador. Se alguém encontrou, nunca disse nada.
— Nas furnas, tinha gente que levava e explodia dinamite para ver se encontrava alguma coisa dos piratas. Também tinha muita gente que sonhava e vinha cavar em cima do morro. Isso aqui era cheio de buracos. Tudo em busca de um ouro que seria dos padres jesuítas — relata, com um sotaque que mescla o catarinense e o gaúcho.
O padre e a ganância
Por falar nos sacerdotes, a provável lenda mais conhecida do Morro das Furnas é a do homem que teria encontrado um padre à noite — que poderia ou não ter cabeça, visto que a história diverge dependendo de quem conta.
Esta figura misteriosa, parada ao lado de um tesouro, teria feito uma oferta irrecusável ao pescador: pegar todo o ouro que pudesse e ir embora sem olhar para trás.
– Ele pegou o que pôde, encheu as mãos e os bolsos, mas levou até um pedaço. Deixou no mato e voltou para buscar mais, pura ganância. Quando retornou aonde o padre estava, não tinha mais ouro. E o que ele tinha escondido, também não estava mais lá. Enlouqueceu e não saía mais de cima do morro. Era um compadre da minha mãe – discursa o pescador Osvaldino Teixeira, 74 anos.
O próprio Osvaldino, que é conhecido como Vardo, também viveu uma história que virou sucesso entre os locais: enquanto pescava, caiu de cima da Furna do Diamante, a uma altura de aproximadamente 12 metros.
Quebrou cinco costelas e a bacia. Foi retirado da água por amigos. Levou dois anos para se recuperar e se reaproximar do mar. Depois, sofreu três infartos no Morro das Furnas. E segue lá todos os dias atrás dos peixes ao lado da esposa, Fátima Teixeira, 57. Uma lenda viva.
O canto da sereia

Se Vardo caiu de cima da Furna do Diamante, dentro dela vive algo que até hoje assombra os pescadores. Durante as noites na encosta, eles dizem ouvir sons muito semelhantes ao canto de uma mulher.
Para alguns, é Iara, uma sereia que vive na caverna e, durante a lua cheia, atrai homens para seu recinto com a promessa de entregar a eles um diamante.
– A guardiã desse tesouro viria aqui no alto do morro e pedia um pente, por exemplo, já que é muito vaidosa. Se a pessoa entrega o objeto, é levada pela mão até as profundezas. Só que a pessoa nunca mais é avistada. As sereias seriam alguns dos seres encantados que habitam essas furnas – conta Leonardo Gedeon, historiador, professor, pesquisador e presidente do Centro de Estudos Históricos de Torres e Região.
Gedeon, inclusive, conta um pouco destas histórias no documentário Os Mistérios das Furnas, que foi lançado neste ano e está disponível gratuitamente no YouTube.
Porém, nem na produção audiovisual nem durante esta reportagem algum ser místico foi avistado. Já a paisagem de Torres em cima do Morro das Furnas, essa sim, é sobrenatural.












