Mesmo com as transformações estruturais que proporcionaram melhorias de qualidade de vida no Litoral nas últimas décadas, o tratamento do esgoto não acompanhou essa evolução.
Mais de 212 mil domicílios seguem sem conexão com a rede de esgoto, o que representa 71% dos 296.714 imóveis sob cobertura da Corsan/Aegea, responsável pelo levantamento a que Zero Hora teve acesso.
Isso significa dizer que, a cada 10 imóveis do Litoral, apenas três estão conectados à rede de esgoto. Os dados se referem a dezembro de 2025.
Ainda segundo os dados, apenas Torres e Capão da Canoa possuem área de cobertura superior a 50% (veja no gráfico abaixo).
Além das principais praias do Litoral Norte, o balanço enviado a Zero Hora inclui municípios do chamado Litoral Médio, como Mostardas, Tavares, Capivari do Sul e Palmares do Sul, e aqueles que não possuem ligação costeira, como Glorinha, Santo Antônio da Patrulha e Três Cachoeiras.
É importante destacar que só é possível tratar esgoto que faça o caminho que se inicia na casa do usuário ou empresas e segue até uma estação de tratamento, denominada ETE.
Investimentos de R$ 100 milhões em 2025
A ampliação da rede de esgoto no Litoral é um dos principais desafios da Aegea, concessionária que assumiu a Corsan há dois anos e meio.
De julho de 2023 até dezembro de 2025, conforme a companhia, a cobertura passou de 24% para 36%. Em comparação ao fim de 2024, o aumento foi de cinco pontos percentuais em 2025.
A meta, prevista no Marco Legal do Saneamento, é garantir esgoto tratado a 90% da população até 2033. Atualmente, municípios do litoral gaúcho como Balneário Pinhal, Arroio do Sal e Terra de Areia não possuem nenhum acesso à rede.

Segundo o diretor-executivo da Corsan/Aegea, Vitor Hugo Vieira, foram investidos em 2025 R$ 100 milhões apenas no esgotamento sanitário do Litoral, incluindo construções e expansões em estações de tratamento em Imbé, Cidreira, Torres e Capão da Canoa, melhorias no sistema de bombeamento e a execução de 50 quilômetros de rede.
Responsabilidade pelo tratamento
Atualmente, 13% dos imóveis que possuem acesso à rede de esgoto no Litoral não estão conectados. Vieira explica que é responsabilidade do consumidor providenciar essa ligação depois da entrega da infraestrutura:
— É de responsabilidade nossa a execução da rede até a caixa de inspeção, que é onde o cliente conecta o sistema. Uma vez que a gente finaliza o investimento na rede, o cliente é notificado para saber que nós passamos ali e o prazo que ele tem para que consiga conectar a nossa rede.

Investimento em fiscalização
Para o engenheiro ambiental Bento Perrone, o desafio em resolver as falhas no sistema de esgotamento vai muito além da simples expansão da rede.
— É importante entender que ampliar a cobertura de saneamento e tratamento é diferente de ampliar coleta de rede. Uma coisa é o objetivo de atender a população com saneamento, outra muito diferente é o modo de fazer — destaca.
Ele acrescenta que as soluções podem partir de investimento em fiscalização e programas de melhorias em locais sem interesse ou necessidade de rede, nos quais é possível manter o uso de fossas, por exemplo, e integrá-las a estações de tratamento.
Arroio com cheiro ruim
Na Praia do Barco, em Capão da Canoa, moradores e veranistas reclamam do cheiro ruim vindo do arroio que corta o bairro. O curso d'água também chega ao mar.
— Esses dejetos vão ao mar. O pessoal pensa assim: "Vamos ver para que lado vai a maré para a gente poder tomar banho", e eles vão para o outro lado (do arroio). Então, tudo é calculado para tomar um banho de mar — afirma a estilista Isabel Cristina Leonardi, de Porto Alegre.
Para atestar a qualidade da água, um grupo de moradores chegou a contratar um laboratório para analisar a qualidade da água do arroio.
— Fizemos duas análises, uma na temporada e outra fora da temporada de verão, e constatamos que foram identificados coliformes fecais e a presença de bactérias muito acima do valor tolerável — conta o professor de informática Sadí Schossler.
O que dizem a Aegea e a prefeitura
A Corsan/Aegea afirma que não tem responsabilidade pela situação por se tratar de um trecho sem rede de esgoto. A empresa diz, ainda, que o problema pode se agravar devido à falta de manutenção de fossas nas residências — o recurso serve como filtro dos efluentes em áreas sem cobertura de esgotamento.
Já a prefeitura de Capão da Canoa afirma que, até o momento, não foi identificado nenhum indício de esgoto bruto no arroio. No entanto, no dia 8 de janeiro, fiscais da prefeitura estiveram no local e constataram três imóveis com tubulações direcionadas ao arroio, indicando suspeita de descarte irregular.
No momento da inspeção, não havia lançamento em curso. Os proprietários foram notificados para prestar esclarecimentos.
Sobre o resultado da análise de água, o Executivo diz que "a presença de coliformes fecais pode decorrer de outros fatores, como o acúmulo de matéria orgânica trazida pela água da chuva e ligações irregulares".
Entendendo o saneamento
- Esgoto é o nome que se dá à água após ter sido utilizada em banhos, descargas de vasos sanitários, pias e outros fins
- Aqueles originados nas residências formam os esgotos domésticos (cloacal), os despejados pelas fábricas recebem o nome de esgotos industriais e os formados pelas águas das chuvas são os esgotos pluviais
- O esgoto cloacal é captado das residências por intermédio de tubulações (canos), que constituem um sistema (rede) coletor de esgoto
- Após pode ser conduzido, por meio de bombas ou por gravidade, às Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). Somente depois de tratado pode ser lançado em rios ou no mar
- O esgoto quando não tratado, pode contaminar os alimentos, os animais, o solo e os mananciais hídricos (fontes de abastecimento de água para a população)
Fonte: Dmae



