— Antes de a gente começar a entrevista, deixa eu colocar a minha armadura de guardião — pede Paulo França, 60 anos, sem camisa e pés descalços enquanto se enrola na bandeira de Torres, sua terra natal, onde vive até hoje.
O item complementa o visual que conta ainda com um chapéu estilo bucket, típico de pescador, repleto de fitinhas do Nosso Senhor do Bonfim enroladas e um bottom dizendo "toca Raul". Usando uma pá, que de longe parece um cajado, Paulo é praticamente uma versão litorânea do Velho do Rio, personagem clássico da novela Pantanal (1990 e 2022).
No último domingo (18), pela manhã, o céu estava cinza, ventava bastante e chovia fraco na Praia da Guarita. Nada que pudesse impedir Paulo de cumprir a rotina diária de "Guardião de Torres", uma espécie de combatente pela preservação da natureza, que completa 30 anos em 2026.
Ele sempre chega cedo e começa a trabalhar em uma mandala gigante na areia. No encontro com a reportagem de Zero Hora, ele precisava retocar os desenhos que fizera na semana anterior, mas que foram parcialmente apagados pela chuva.
A arte em questão apresentava um enorme polvo com seus tentáculos abertos acompanhado de um cação e de um filhote de cachalote – preenchido com lixo que Paulo juntou na beira do mar, como garrafas de energético, latas de cerveja e sacolas.
As representações dos animais estão acompanhadas pela frase "Preserve Torres", mensagem amplamente conhecida pelos moradores da cidade e seus visitantes.
Desta vez fiz o polvo, que tem oito tentáculos, porque pensei: "Diante de tanto lixo, pô, haja braço!
PAULO FRANÇA
"Guardião" de Torres
Habitante do mar
Marisqueiro de origem, Paulo sempre viveu entre a areia e o mar. Por isso, em 1996, ao perceber que o público visitava a praia e deixava sujeira espalhada por todos os cantos quando ia embora, decidiu registrar no solo a frase que usa até hoje em seu trabalho.
Verão 2026
Fez para chamar a atenção de quem subia nas formações rochosas da Praia da Guarita e olhava para baixo. Passou a mensagem, mas entendeu que precisava ir além das palavras.
— Antes, era só a frase. Daí comecei a fazer desenho, limpar a praia. Depois fui para a mandala e não parei mais. Era curioso, porque as pessoas perguntavam: "Quem fez isso? Foi E.T.?", porque eu fazia e não aparecia (risos). Na real, naquele tempo nem se falava tanto em defesa da natureza — recorda Paulo.

Autodidata, o artista se especializou ao longo dos anos no conceito de land art – obras desenvolvidas diretamente na paisagem, usando materiais naturais.
Para tal, ele utiliza como "pincéis" a pá, um ancinho e os próprios pés. A mensagem fica na beira da praia, entre os banhistas, que frequentemente param para tirar fotos e agradecer ao artista pela dedicação.
— Ficou bem legal o desenho! Meus parabéns — disse um frequentador da Guarita que parou bem no meio da obra com a família e fez um retrato do grupo utilizando um drone.
A obra dura o tempo que a natureza permitir. Se a maré sobe e a apaga, cabe a Paulo recomeçar do zero. Para isso, leva cerca de três horas.
De marisqueiro a vendedor e até guarda-vidas, Paulo hoje sobrevive apenas da arte. Fica pela praia e, a quem lhe oferece uma contribuição espontânea, agradece e ainda declama um de seus poemas de militância pela preservação ambiental.
— Eu nunca quis enriquecer. Então, qual é a necessidade que vou ter disso agora que já estou com 60 anos? Tudo o que eu peço não é para mim, é pela natureza. É pelo patrimônio de todos. Eu amo essa cidade — destaca.
Legado
Além dos pedidos de socorro pela natureza torrense, Paulo teme que o crescimento imobiliário da cidade acabe com a paisagem natural do Parque da Guarita.
Eu luto contra o saque do horizonte, a grilagem da paisagem. Esse legado que estou construindo nos últimos 30 anos ninguém vai poder tirar
PAULO FRANÇA
"Guardião" de Torres

Hoje, ele enxerga nos seus descendentes a semente para a continuidade do trabalho.
O filho Willian Torres França, 31 anos – o Torres é segundo nome, não sobrenome, em homenagem à cidade –, é guarda-vidas na Praia da Guarita e acompanha de perto a dedicação ao projeto Preserve Torres.
— Tenho um orgulho enorme do nome que carrego e do meu pai. O trabalho que ele faz é especial. Dedicou a vida inteira para a natureza. Aqui na cidade não veem ele como um personagem, mas sim um grande artista local, o "Guardião de Torres" — diz Willian.
Para reforçar a mensagem, Paulo promoverá um abraço coletivo na Praia da Guarita em fevereiro. A ideia é fazer no dia 22. As informações serão atualizadas na rede social @preservetorres.














