
Apesar das críticas ao mar gaúcho, há quem diga que em Torres, no Litoral Norte, estão as melhores ondas para surfar no Brasil. Alguns dos praticantes do esporte ousam dizer que as ondulações no entorno da Ilha dos Lobos estariam entre as mais perfeitas do mundo — comparando com Teahupo'o, no Taiti, local escolhido para as provas de surfe nas Olimpíadas de 2024.
A Ilha dos Lobos foi descoberta pelos surfistas no final da década de 1980. Esta parte do mar conquistou os praticantes do esporte pelas ondas altas e consistentes que, em condições especiais, se formam com um tubo tão perfeito que fica fácil entender a sua fama no meio do surfe. Os mais veteranos recordam com nostalgia:
— Essas ondas são muito desejadas. As melhores do Brasil e uma das melhores do mundo. Queremos dar visibilidade para o surfe na Ilha dos Lobos para todos saberem do diamante que nós temos aqui, não só de ondas, como de uma reserva que pode proporcionar muita coisa para a cidade — afirma o surfista Giuliano Homem, vice-presidente da Associação dos Surfistas de Torres (AST).
Contudo, essas ondas quebram praticamente sozinhas há 23 anos. A prática de surfe no entorno da Ilha dos Lobos está proibida desde 2003 (entenda abaixo). O lugar, a 1,8 quilômetros da costa de Torres, é um refúgio para lobos e leões-marinhos, além de outras espécies como focas e elefantes-marinhos.
A área é protegida pelo Refúgio de Vida Silvestre da Ilha dos Lobos (Revis), uma unidade de conservação federal gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Para alegria dos surfistas, o ICMBio disse à reportagem de Zero Hora que iniciará estudos que podem liberar a prática de esportes no local (entenda abaixo).
Por que não é permitido surfar na Ilha dos Lobos?

Em 2003, após expedição de surfistas à Ilha dos Lobos, que rendeu uma reportagem no programa Fantástico, da TV Globo, o local passou a receber muitos turistas. Isso fez com que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), órgão que geria a unidade de conservação na época, interditasse a prática do surfe e demais atividades no local.
A pequena ilha — que é a única no Rio Grande do Sul — recebe a visita de animais conhecidos como pinípedes: mamíferos aquáticos como lobos, leões e elefantes-marinhos, além de focas.
Esses animais frequentam todos os anos a costa brasileira, concentrando-se em apenas dois locais do Rio Grande do Sul: o Refúgio de Vida Silvestre da Ilha dos Lobos, no litoral norte gaúcho, e o Refúgio de Vida Silvestre do Molhe Leste, no litoral sul do Estado.
Segundo o ICMBio, em julho, lobos e leões-marinhos saem de suas colônias na Argentina e no Uruguai rumo ao Brasil, aproveitando a corrente de águas frias das Malvinas. Os animais fazem uma parada de repouso no Molhe Leste ou seguem direto para a Ilha dos Lobos.
Após permanecerem por lá em grande número até outubro, retornam para suas colônias reprodutivas.
No ano passado, ICMBio liberou passeios no mar em volta da Ilha dos Lobos, que estavam proibidos desde 2018. A permissão é para passeios individuais em caiaque e stand up paddle. O desembarque de pessoas na ilha segue restrito. Barcos só podem se aproximar do local em até 500 metros.
Estudos começam depois do Verão
O ICMBio diz que iniciará após o Verão estudos que podem liberar o local para o surfe. Em abril de 2023, o governo federal aprovou o plano de manejo do Revis, que serve para disciplinar as atividades que podem ou não ser realizadas.
"Nossa equipe técnica está organizando um estudo sobre a viabilidade da prática do surf na ilha. Será necessário avaliar a segurança para os visitantes, mas também o impacto que a atividade terá na biodiversidade do local", diz o ICMBio em nota.
A metodologia da pesquisa não foi informada à reportagem de Zero Hora.
Ainda de acordo com o instituto, não há previsão de quando esses serão concluídos.
O processo também recebe o auxilio da Associação dos Surfistas de Torres (AST). Segundo o vice-presidente da entidade, Giuliano Homem, surfistas locais farão excursões até à ilha nos próximos três anos acompanhados de pesquisadores do ICMBio.
— Caso a prática seja aprovada futuramente, será criado um regramento dentro do conselho do ICMBio mostrando pontos de como isso será feito. Essa experiência que teremos nos próximos três anos será usada como base para no futuro criarmos esse regramento — diz o vice-presidente da associação.
— Somos amantes da natureza. É uma oportunidade para mostrarmos a Ilha dos Lobos e a sua importância para o mundo e porque ela deve ser preservada — completa.
Ondas pesadas e de "consequência"
Para chegar até as ondas de até cinco metros de altura no entorno da Ilha dos Lobos, é preciso percorrer quase dois quilômetros em alto mar. No passado, os surfistas mais esforçados iam a nado. Outros pegavam barcos de pesca.
Durante os estudos da ilha, será permitido que os surfistas se desloquem de moto aquática (jet ski) no mar — desde que os veículos estejam autorizados e acompanhados de uma equipe do ICMBio.
Morador de Torres, o surfista Pedro Gross recorda que na adolescência ele e outros parceiros de surfe iam até a Ilha dos Lobos para pegar ondas mais altas.
— É uma onda pesada e de consequência. Vem do fundo e de repente entra em uma bancada muito rasa de pedra e vira com muita violência. Ela vem oca — descreve.
Além do risco de bater na pedra, Gross lembra da convivência com animais no entorno. Além dos lobos e leões-marinhos, o surfista disse que já viu até tubarão na região.
— Mas ainda vale a pena. É onde estão as melhores ondas.

