Empunhando o violão e enfileirando diversos hits do pop rock nacional no microfone, o músico Beto Rosa, 32 anos, movimenta a noite de Torres, no litoral norte gaúcho. Seja em bares ou em restaurantes, o artista canta feliz para o público que, depois de horas dentro do mar, vai em busca de uma cervejinha e de forrar o estômago para arrematar o dia.
Só que enquanto os turistas vão para casas, hotéis e pousadas após a apresentação, Beto coloca o instrumento no case, pega caixa e mesa de som e entra em seu carro, um Peugeot 208 ano 2016. Mas não para ir embora. É ali que vai passar a noite.
Esta é a segunda vez que Beto decide deixar Lajeado, no Vale do Taquari, onde mora, para viver de sua música sem ter um destino certo ou um pouso definido. O roteiro é inspirado na música Infinita Highway, de Humberto Gessinger, a qual diz: "Mas não precisamos saber pra onde vamos, nós só precisamos ir".
Verão 2026
Para isso, removeu os bancos do carro, deixando apenas o do motorista, e colocou atravessado um colchão de 1,87m – o músico, por sua vez, mede 1,91m.
– Na primeira vez, saí só com R$ 200 no bolso, um tanque cheio e um sonho. Comecei a chegar nos lugares e perguntar se podia tocar. E foi dando certo. Passei boa parte de 2025 na estrada. Neste ano, já vim mais organizado, com um colchão melhor e lugares com as portas abertas para voltar – explica Beto.
Mas, por exemplo, onde o artista toma banho? Geralmente, ele estaciona em postos de gasolina 24 horas e encontra banheiros com chuveiro. Ou então faz alguns pacotes rápidos em academias, malha um pouco e já aproveita para usar a estrutura.
Para comer, vai nos restaurantes que oferecem descontos. Mas também carrega um filtro para passar café e alguns potes de suplemento alimentar, visto que, no ano anterior, retornou para casa mais magro após a aventura litorânea.
– Não estou vivendo o meu sonho. Acho que não é o sonho de ninguém morar em um carro que não seja apropriado para fazer isso. O meu carro não é. Só que se eu ficasse na minha cidade não iria alcançar meu sonho, que é chegar em um lugar e meu violão já estar lá. Só chegar e tocar – explica Beto, vislumbrando ser um artista com uma equipe e estrutura.
O objetivo neste momento é tocar no máximo de lugares que conseguir e conhecer o maior número de pessoas possível.
Daqui a pouco aparece alguém e diz: "Vamos apostar, gravar uma música, fazer um negócio, ver se dá certo". Se eu não acreditar no meu trabalho, quem é que vai, né?
BETO ROSA
Músico
Além de carregar um repertório com Armandinho, Paralamas do Sucesso e, claro, Engenheiros do Hawaii, o artista inseriu músicas autorias. Escreveu mais de uma dezena de canções, muitas contando as suas vivências na estrada, inspirações e desilusões amorosas:
– Chorei horrores nessas viagens, mas também já dei muitas risadas. Tem que aprender a ser desapegado. No final das contas, vale a pena. Tanto é que voltei para a estrada.
De Santa Maria para o Litoral
Durante o verão em Santa Maria, quem passa pela Praça Saldanha Marinho estranha a ausência da estátua viva que está sempre por lá. Isso porque há 20 anos o intérprete do personagem, Márcio da Silva, de 47 anos, pega a família e se muda para Torres.
O ponto de trabalho no litoral é entre as avenidas Silva Jardim e Barão do Rio Branco, bem ao lado da praça XV de Novembro. Por ali, é atração que encanta crianças e adultos.
Vestindo terno, chapéu e todo pintado de prateado, segura uma rosa. Assim que alguém faz uma contribuição espontânea, Márcio coloca a mão no bolso, tira um papelzinho com uma mensagem de incentivo, dá um beijinho e presenteia o benfeitor.
Ele assume o posto assim que o sol começa a baixar e fica em pé por cerca de quatro horas. Durante o dia, aproveita para vender maçã do amor e algodão doce na beira da praia.
Esse esforço todo vale a pena, garante. Pois consegue bancar a estadia acompanhado da esposa e da filha de oito anos, além de ajudar a compor a renda no restante do ano:
– Nessas duas décadas como estátua viva, já consegui montar a minha casinha de material em Santa Maria. Tenho as minhas coisinhas. Não posso reclamar. Para nós, artistas, é gratificante ver as pessoas parando e prestigiando. O legal é que o interesse vem aumentando ano após ano. E o público é muito carinhoso. Volta e meia, colocam R$ 100 na caixinha. Ajuda muito (risos).
Sonhos de carreta
Se Beto e Márcio viajaram de outras cidades do Estado para usar Torres como palco de suas apresentações, tem gente que se deslocou de ainda mais longe. É o caso de Matheus Oliveira Ferreira das Virgens, 18 anos, que é de Ribas do Rio Pardo, em Mato Grosso do Sul, a quase 1,5 mil quilômetros de distância da cidade litorânea.
O jovem veio de tão longe porque está trabalhando pela primeira vez na Carreta da Alegria de Torres, aquele veículo todo iluminado que circula pelas ruas com música, festa e animadores vestidos como personagens famosos.
No caso de Matheus, a fantasia é do Chaves. Durante 40 minutos em um percurso de nove quilômetros da carreta, o dançarino sobe e desce do veículo, faz uma "bagunça controlada" pelas ruas e agita os veranistas. O trajeto é repetido seis vezes por noite, das 18h às 23h30min.
Fazer parte de uma trupe como a de Torres era desejo de infância. Desde pequeno, Matheus se encantava com vídeos na internet das carretas pelo Brasil todo.
Hoje, passa por um período de teste para se tornar membro fixo da equipe. Decidido a seguir na profissão, reconhece o trabalho puxado, mas também destaca que há uma mensagem a passa.
Em um mundo tão caótico, ser personagem é algo que leva alegria às pessoas, ajuda de alguma forma. Não me arrependo de ter entrado neste mundo, mas também acredito que se tivesse alguma opção melhor de vida pensaria duas vezes antes de começar
MATHEUS OLIVEIRA FERREIRA DAS VIRGENS
Dançarino
O dinheiro que o animador recebe é investido em roupas, calçados e tatuagens. Como passa a maior parte do tempo viajando no motorhome da empresa, gasta com bens materiais para satisfação imediata. No meio de tanta correria em uma cidade estranha, quer viver da melhor maneira que pode.
– É claro que sempre que alguém da minha família precisa de ajuda, se eu tiver condições, está na mão. O que eu puder fazer, faço. Porém, acredito que tenho que começar a cuidar de mim desde cedo. Como a gente não tem tempo de aproveitar muito, gostamos de, pelo menos, andar bem vestidos – diz Matheus, que não sabe qual o seu destino depois de Torres.










