
Por fora, parece uma coisa. Dentro, é outra. Quem atravessa pela primeira vez a porta da Fruteira do Pelé, na Estrada do Mar, em Torres, talvez não encontre exatamente frutas. Poderá beber um "suco infinito", comer um pastel de carne "que é de camarão" e até levar um susto de uma cobra.
Em troca, dificilmente sairá de lá sem levar uma lembrança marcante para o resto da viagem. Pois no estabelecimento de José Fernando Monteiro, o Pelé, ter bom humor é requisito básico para aproveitar a experiência, seja do lado de cá ou de lá do balcão.
Verão 2026
Monteiro em nada aparenta o estilo do patrão tradicional. É figura presente no dia a dia da lancheria com seu cavanhaque, cabelo grisalho topetudo e correntinha de ouro no pescoço. Nas horas vagas, também é "mágico".
– Eu consigo adivinhar a idade ou o número que a pessoa tem na cabeça. Está tudo nas cartas. Se eu não acertar, o cliente ganha a comida de graça. Até hoje ninguém saiu daqui sem pagar – garante.
Nascido em Torres, o empresário de 57 anos começou a trabalhar vendendo bergamotas que colhia no mato, há cerca de 40 anos.
Mais tarde incorporou butiá, abacaxi, banana e abóbora, o que originou a tal Fruteira do Pelé nos anos 1990. O apelido, porém, veio bem antes de o negócio prosperar. Foi escolhido ainda na juventude
– Eu gostava muito de futebol, mas não jogava tudo isso. O pessoal chega aqui perguntando pelo Pelé e se surpreende quando me vê. Acho que ficam decepcionados – ri Monteiro.
A caixa misteriosa
As pegadinhas e brincadeiras que hoje são parte da identidade do local surgiram de forma espontânea e foram sendo incorporadas à rotina. Atualmente, integram até o treinamento dos funcionários.
Na Fruteira do Pelé, é comum ouvir assobios, gritos e bandejas vazias despencando no chão após a equipe de funcionários cantar parabéns no aniversário de clientes.
Os que já conhecem a casa e suas brincadeiras pedem para ver a caixa misteriosa. O próprio Pelé traz o objeto e conta a história de uma cobra que estaria presa dentro dela.
Não dá nem tempo para o cliente ficar entediado. No meio da fala, ele puxa uma gavetinha e sai dali o animal feito de madeira, que toca o braço de quem está próximo da mesa e assusta os desavisados.
Fartura e suco infinito
Contrariando o que o nome do estabelecimento sugere, frutas não são bem o forte do lugar. Hoje, estão longe de explicar por que os mais de 200 lugares costumam ficar ocupados — e não raro disputados — na maior parte da semana.
Entre os carros-chefe do cardápio, os pastéis e o misto quente colonial chamam atenção pelo recheio generoso.
– Nosso pastel não estraga seu penteado. Ele não tem vento, é bem recheado – rima Pelé.
Mas o encantamento do público começa antes mesmo da primeira mordida, quando chega à mesa a degustação: um prato de salame e queijo colonial cortados em cubinhos, cortesia da casa.
Os sucos, todos naturais, levam pouca água e muita fruta. São raríssimos os clientes que optam por outra bebida. Por R$ 17,40, o cliente garante um copo com direito ao famoso "chorinho", expressão que na Fruteira do Pelé significa "suco infinito".
Não é exagero. Enquanto houver gente sentada à mesa e copos pela metade, sempre aparecerá um garçom disposto a completá-los.
Segundo Monteiro, o cardápio surgiu a partir dos pedidos dos próprios clientes. A maioria está de passagem, indo ou voltando de Torres ou de Santa Catarina.
Até famosos já fizeram uma paradinha no local, como o jogador do Grêmio Martin Braithwaite e o lutador de MMA Fabricio Werdum.













