
Logo na entrada de Torres, uma cena é comum para quem costuma veranear na cidade do Litoral Norte, mas curiosa aos desavisados: carros nas calçadas ou no acostamento com o porta-malas aberto, o proprietário ao lado e uma placa com número de telefone e a frase: "Alugo a minha casa".
Esse negócio informal durante o veraneio funciona em regime de plantão, para fisgar quem chegou na cidade de última hora.
É "contrato" fechado no ato, de olho no olho e aperto de mão como "assinatura" – uma espécie de "Airbnb analógico".
A grande questão é: se a pessoa coloca a própria casa para alugar, onde ela irá morar nesse período?
Bem, cada um tem sua tática. Sentado em uma cadeira de praia ao lado do carro e com uma Bíblia nas mãos, Júlio de Mesquita Bernardino, 59 anos, conta que arruma as malas, junta a esposa, os dois filhos e o cunhado e vai para a igreja:
– Estamos morando dentro da igreja. Já faz alguns anos que ficamos lá no verão. Sou da igreja evangélica. Para dormir, é em um cantinho do salão. Para almoçar e essas coisas, tem um espacinho fora. Mas quero ver se no ano que vem faço uma pecinha. A mulher está me cobrando muito.
Pescador por muitos anos, o hoje diácono Júlio tira o sustento em "uma obra aqui, uma reforma ali". Mas o aluguel de beira de estrada é tradição de família. Os irmãos mais velhos, por exemplo, já faziam a mesma coisa cinco décadas atrás.
Verão 2026
De pai para filha
Paulo Sérgio Maia de Jesus, 61, mora em Torres há mais de 40 anos. Antes mesmo de a filha Isadora nascer, ele já estacionava o carro na entrada da cidade com a famosa plaquinha.
Em seu terreno, Paulo tem duas casas e mais uma peça para onde se muda quando fecha negócio no veraneio. Assim, mantém o endereço e só precisa trocar de residência.
– Tem movimento aqui o tempo inteiro. E é um público variado. Alguns só passam a noite. Outros é dois, três dias. Algumas vezes alugamos por 15 dias. Quando vem um cliente é bom. Quando não vem, começa a dar uma agonia, porque a gente fica amarrado aqui esperando – relata.

Hoje aos 22 anos, Isadora acompanhou a cada verão a atividade do pai que rendia dinheiro extra à família. Já está na segunda temporada em que coloca a própria moradia à disposição dos veranistas.
– No primeiro verão que coloquei a casa para alugar, consegui mobiliar e comprei uma máquina de bordar. No ano passado, comprei uma moto e o restante investi na casa da minha avó – diz Isadora, que trabalha como costureira e se muda para a casa da sogra ou da avó quando fecha negócio. – Eu me mudo para onde der (risos).
Os argentinos
Pela memória dos donos de imóveis, os argentinos negociaram mais que os brasileiros na beira da estrada em busca de um lugar para se hospedar na temporada passada.
Para abocanhar os hermanos, o motorista Valdir Boff Selau, 55, utiliza duas placas, uma em português e outra em espanhol. Ele já usa a tática há cerca de 20 anos.
– O problema é que hoje em dia eles (argentinos) estão mais de passagem, indo para Santa Catarina. Então, muitas vezes é só por uma noite. No dia seguinte já volto aqui para a estrada – explica.

Na "casinha de boneca"
Lourdes Altnetter, 68, é professora aposentada e passou a alugar a casa que herdou do pai após sua morte, em 2023. Mas vai atrás dos clientes em anúncios no Facebook.
Para não precisar deixar o terreno, utiliza uma peça de seis metros quadrados que fica no fundo do pátio como moradia temporária.
No espaço, conseguiu colocar uma cama de casal, uma televisão, um frigobar, um pequeno roupeiro de duas portas e um fogão, assim como eletrodomésticos portáteis. A casinha tem uma janela e uma porta. O banheiro fica no lado de fora.
Minha neta só quer saber da minicasa. Diz ela que é uma casinha de boneca
LOURDES ALTNETTER
Professora aposentada

Mas ela se incomoda em ficar num lugar tão pequeno? Não muito. Usa também a área externa para tomar chimarrão e cuidar das árvores frutíferas.
– Os inquilinos que não são muito simpáticos, nem me enxergam. Nem sabem que estou aqui. Fico quietinha, saio pela garagem. Agora, se chegam umas pessoas legais e me chamam, vou lá. Gosto de conversar e de tratar bem. Às vezes, faço até bolo para eles – diz Lourdes.
O que diz a prefeitura
De acordo com o prefeito de Torres, Delci Dimer, a prática de oferecer as próprias casas para aluguel na beira da estrada é totalmente legal.
O que não pode é negociar bens de terceiros. Conforme Dimer explica, nesses casos é necessário registro no Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci).












