
Em Torres, no Litoral Norte, pequenos edifícios e estabelecimentos comerciais situados no centro têm dado lugar a novos projetos imobiliários. Em muitos casos, mesmo com operações em pleno funcionamento, os imóveis são vendidos a construtoras e demolidos para a incorporação de torres significativamente maiores nos mesmos terrenos.
Esse é o caso do prédio onde, no térreo, funcionava uma padaria aberta em 2023. A nova construção terá vista para o mar — atrativo mais procurado por clientes que buscam ter um apartamento na praia. Com a situação se repetindo em diversos pontos da cidade, trava-se, assim, uma verdadeira disputa pela melhor paisagem do oceano.
O atual plano diretor impõe limites de altura em terrenos localizados nas duas primeiras quadras da chamada "zona 8", que abrange da Praia Grande até os Molhes. Hoje, esses territórios só podem receber edificações de até quatro andares para que se evite sombreamento na faixa de areia, a exemplo do que acontece em praias catarinenses. Contudo, a atual gestão estuda atualizar o regramento.
— É um processo que demanda tempo e energia para fazer de forma assertiva. A ideia é discutir antes com a comunidade. Não é só chegar e construir prédios e prédios. É feito todo um trabalho de ressignificação dos bairros. Nossa ideia não é mexer por mexer — afirma o secretário municipal do Meio Ambiente, Douglas Gomes.
A prefeitura não dá previsão de quando pretende apresentar uma proposta de alteração do plano diretor na Câmara de Vereadores de Torres. A última atualização do regramento ocorreu em 2024, mantendo normas de altura estabelecidas ainda na década de 1990.
Enquanto não se permite construir mais alto, terrenos que estão nas mãos de construtoras ficam parados. Neles, não há ativações temporárias — como quadras de beach tennis ou restaurantes —, assim como fazem incorporadoras de Porto Alegre em seus lançamentos.
Novos prédios
Algumas construtoras não pretendem aguardar uma atualização do plano diretor para utilizar seus terrenos na Avenida Beira Mar.
Maior empresa de Torres no segmento, a R Dimer iniciou a obra de um edifício de alto padrão na esquina com a Rua Firmino Paim. Terá os quatro andares permitidos, com áreas comuns para os futuros moradores. A partir do segundo piso se tem vista para o mar.
— Na beira-mar, por tu poder construir pouco, a cota-terreno é muito cara. Teremos 18 apartamentos ali. Duas suítes de 130 metros quadrados estão à venda por R$ 3,5 milhões — conta Rodrigo Dimer, dono da construtora.
A R Dimer também adquiriu outras áreas de frente para a praia. Uma delas é a do famoso Hotel De Rose, que ainda recebe clientes em seu último verão aberto. A estrutura será demolida até a metade do ano, adianta a construtora.
De altíssimo padrão, a incorporadora Design comprou uma área ainda maior perto da Praia dos Molhes. São sete terrenos no total, que unidos receberão um edifício baixo, mas com grandes apartamentos com vista para o mar.
— A primeira coisa que o cliente me pede é um apartamento com vista para o mar. Neste empreendimento teremos alguns dos maiores apartamentos do Estado. Residências de 550 a quase mil metros quadrados privativos. Todos terão piscina privativa, elevadores e guarita blindada — revela o dono da Design, Juliano Justo.
Mercado aquecido e fechado
O historiador Nelson Adams lembra que a atuação do setor de construção civil em Torres começou de forma tímida na década de 1950. Na época, quem dominava eram as construtoras de Porto Alegre, com projetos do famoso engenheiro e incorporador Ivo Rizzo.
Aos poucos, Torres foi ganhando edificações maiores. Hoje, quem manda neste mercado são as construtoras locais. As forasteiras que se arriscam em abocanhar parte deste público desistem depois do primeiro lançamento.
— Os corretores são muito fiéis às construtoras daqui. Hoje temos mais de mil profissionais trabalhando na cidade — conta Rodrigo Dimer.
Segundo a Associação dos Construtores de Torres (Actor), hoje há mais de 70 prédios em obras ao mesmo tempo na cidade. Entre eles, está uma das três torres que serão as mais altas do litoral gaúcho, com 100 metros de altura.

Diretor do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS), Eraclides Maggi reforça que a vocação de Torres no mercado é para prédios verticais, ao contrário dos condomínios de casas presentes em cidades como Xangri-Lá e Osório. Sendo assim, Torres é mais adensada.
— As obras em Torres hoje têm um diferencial de qualidade que não se perde para nenhum lugar do país. Estamos investindo em diferenciais arquitetônicos. São obras diferenciadas e isso agrega bastante. São construtoras "caseiras", mas sólidas e com o pé no chão — diz Maggi.
O diretor do Sinduscon-RS, que também é proprietário da construtora VCA Maggi, lembra que há diferenciais ao se construir em uma cidade litorânea, onde há maresia:
— Tu não consegue usar esquadrias em aço. Tem que ser alumínio, madeira ou PVC. Se não, corrói. Por exemplo, em prédios "pastilhados", precisa usar um rejunte compatível com área de beira-mar. Não é o mesmo que se usa em Porto Alegre ou Caxias do Sul. É um rejunte mais resistente, mais caro, porque ele resiste mais à maresia — completa o incorporador.
Urbanismo
Segundo o Censo de 2022, o último feito pelo IBGE, a população de Torres chegou a 41.751 pessoas, o que representa um aumento de 10,29% em comparação com o Censo de 2010, quando a cidade tinha 37.855 habitantes.
A prefeitura de Torres contesta o dado e diz que a cidade conta com uma população que passa dos 65 mil habitantes. Durante o verão, o número de pessoas circulando na cidade passa de 200 mil.
— Ganhamos mais de 10 mil novos habitantes desde a pandemia. Torres é a segunda cidade de muitas pessoas. Na pandemia, muita gente veio para passar alguns dias, ficou um mês, dois meses. E depois acabou ficando por aqui. O home office ajudou nesse processo. Na enchente veio mais gente ainda — conta o prefeito Delci Dimer.

Apesar do crescimento populacional, o prefeito diz que 80% dos imóveis que estão sendo construídos em Torres são para pessoas que vão veranear. Ou seja, milhares de apartamentos ficam desocupados de março a novembro. Mas os que compram para morar aproveitam da estrutura disponível no ano todo.
Grande parte dos novos edifícios de Torres vem com fachada ativa, jargão utilizado na construção civil para prédios com lojas no primeiro piso. Não é uma novidade do mercado. Foi um hábito resgatado de construções do passado e que se perdeu nas últimas décadas. O atrativo tem agradado moradores, já que o comércio na rua atrai mais gente e aumenta a sensação de segurança.
O arquiteto e urbanista Leonardo Müller Garateguy é um entusiasta da fachada ativa, mas pede mais atenção das construtoras em relação ao desenho de novos prédios.
— O planejamento urbano é multifatorial. Tem a lente do crescimento econômico, dos aspectos sociais, das questões ambientais. O bom planejamento tenta achar um equilíbrio nessas variáveis e fazer construções bonitas. Ainda mais em uma cidade turística como Torres. As pessoas querem estar em um lugar agradável — diz Garateguy.
Sobre a possível liberação de mais pavimentos em prédios na zona 8, o professor faz uma ponderação:
— Não sou contra prédios altos. Alguns lugares da cidade precisam ganhar densidade para bancar a infraestrutura de outras áreas. A questão é como e quanto se liberar. Torres tem um patrimônio de paisagens que são notáveis. Isso jamais pode ser mexido.



