
Era a Semana Nacional dos Museus de 2022 e, em vez de ser um momento de celebrar a cultura e a preservação de sua história, o Museu Histórico, Antropológico, Arqueológico e Oceanográfico de Torres teve suas portas fechadas. Foi no dia 18 de maio e, de lá para cá, quase quatro anos se passaram, tornando a memória daquele espaço cada vez mais distante.
Localizado na Rua Júlio de Castilhos, no centro de Torres, o prédio contava com uma vasta coleção de objetos históricos. As peças remontavam à origem da civilização do território e as primeiras fundações do que, hoje, é uma cidade ainda em crescimento – especialmente, vertical, com grandes prédios ocupando a paisagem.
Além disso, o museu servia como ponto de encontro do Cineclube Torres – grupo que se reúne para a exibição de produções em audiovisual e para exposições itinerantes de artistas do município. Agora, a comunidade não tem um espaço público fechado para este tipo de atividade. Manifestações culturais, atualmente, apenas em locais abertos ou em instituições privadas.
Mas, afinal, o que houve com o Museu Histórico? Membros da sociedade civil que defendem a cultura na cidade explicam que, desde 2018, o prédio, que data de 1951 e foi sede da prefeitura da cidade naquela época, já sofria com infiltrações. Com a falta de uma reforma adequada, em 2022, o poder público decidiu que o prédio seria fechado para reparos – algo que nunca houve desde então.
Hoje, ao chegar na frente de onde deveria haver exposições, encontram-se janelas quebradas, pichações, pintura descascada, manchas causadas pela umidade e as portas trancadas. Ao adentrar no espaço – com autorização da Secretaria Municipal da Cultura e do Esporte –, foi possível ver um edifício praticamente vazio, ainda mais degradado do que do lado de fora, com parte do teto do segundo andar desabado devido a infiltrações e algumas paredes apodrecidas.
As peças que deveriam estar no edifício ou foram retiradas e guardadas em depósitos do Poder Executivo, o que é ruim para a população, que não tem acesso a elas; ou pior ainda, foram saqueadas por invasores. Uma placa de bronze instalada na entrada em comemoração à inauguração do prédio, em 1951, nunca foi encontrada.
— A gente estima que cerca de 30% do acervo se perdeu na invasão de maio de 2025. O restante, foi levado para o Gibal (Ginásio do Balonismo). Mas não sabemos o que sobrou. Inclusive, têm os livros da biblioteca pública. São cerca de 20 mil exemplares. A gente fez um pedido de informação junto à secretaria, mas não conseguimos fazer uma vistoria — diz Leonardo Gedeon, historiador, professor, pesquisador e presidente do Centro de Estudos Históricos de Torres e Região.
A preocupação da sociedade civil e dos artistas torrenses é que a conservação dos itens não seja a adequada, devido à fragilidade das peças. Além disso, parte dos documentos históricos do município seguem em uma das salas do prédio do museu – incluindo, registros da construção da histórica Igreja São Domingos de Torres –, empilhados e estocados em caixas, sem a devida acomodação. O edifício conta com um zelador, que mantém o espaço varrido e tenta conservar o que pode.
— A gente tinha a coleção arqueológica proveniente dos sambaquis locais, que é um acervo muito importante, pois são sítios arqueológicos daqui da região litorânea. E são itens frágeis, como cerâmicas, rochas esculpidas, flechas, quebra-coquinho. Enfim, peças datadas de muito tempo, inclusive, instrumentos do primeiro médico daqui e acervo têxtil, que é muito delicado. Esse é um museu da comunidade, construído, principalmente, por doações de pessoas de diversas áreas — diz Luana Bassa, museóloga que atuava no museu até o seu fechamento.
Em busca de uma solução, moradores que lutam pelo restauro do museu submeteram, ainda em julho de 2022, uma denúncia ao Ministério Público. O caso avançou para um Inquérito Civil. Atualmente, o órgão segue na coleta de provas e diligências investigativas, sob a supervisão do seu Conselho Superior.
—E uma coisa que temos que lembrar é que existe o crime de abandono de patrimônio público. Então, está sendo cometido um crime em deixar o museu neste estado — destaca Luana, reforçando que o museu, que é registrado no Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), segue com o status de "aberto" no cadastro nacional, mesmo estando fechado desde 2022.
Mesmo que o fechamento do museu tenha ocorrido há quase quatro anos, o processo de degradação já vinha ocorrendo anteriormente, segundo o artista plástico e membro do Fórum Livre e Permanente de Cultura de Torres, Jorge Herrmann, 66:
— A atual gestão pegou uma batata quente. Isso a gente tem que ressaltar. Esta falta de investimento vem de bem antes. A goteira já estava lá bem antes de 2022. Não foi por falta de aviso. Foram oito anos de dilapidação, sem nada de recursos, até o fechamento do museu.
O que diz a prefeitura
A comunidade cultural da cidade enxerga a situação do museu como uma corrida contra o tempo, visto que, a cada dia sem restauro, a situação do prédio piora. O telhado danificado permite que a água entre e estrague a estrutura da edificação. Para estancar o problema, consertando o telhado, pintando as paredes e reformando as aberturas, a Secretaria Municipal da Cultura e do Esporte estima que seria necessário montante de R$ 1 milhão.
— Deste valor, já temos cerca de 70%, ou seja, uns R$ 700 mil. Cerca de R$ 500 mil são de recursos próprios e outros R$ 200 da Lei Aldir Blanc. O problema é que abrimos o edital e, até agora, quatro empresas foram desclassificadas pela nossa avaliação técnica, por não cumprirem todos os requisitos. Estamos indo em busca da quinta agora — diz o secretário Jalmir Ferreira, o Blando.
O titular da pasta também reforça que, em novembro do ano passado, foi definido, em parceria com o Conselho Municipal de Cultura, que haverá um Plano Municipal de Cultura de Torres, que deve ajudar no processo da busca de recursos para os equipamentos do setor na cidade. Agora, uma consultoria está finalizando o documento e, depois, ele será votado pela Câmara de Vereadores.
O secretário também reforça que um dos próximos passos é a contratação de um novo profissional da museologia para atuar em Torres e, assim, poder dar a atenção que o acervo do Museu Histórico necessita.
— A gente não descarta, também, em trabalhar com a iniciativa privada para trazer o museu de volta. E o pessoal da cultura, apesar de todas as cobranças, e elas são justas, está sendo parceiro. Nós queremos, como administração municipal, buscar solução para essas questões. Só que não tem milagre, é trabalho — garante Blando.
Atualmente, uma visita ao museu pode ser feita apenas em um tour virtual disponível neste link. Dessa forma, é possível ver o acervo ainda completo, visto que as imagens são de 2021.



