
Passado o "boom" da virada do ano, a circulação de pessoas e o consumo caíram no restante de janeiro nas praias do Litoral Norte, segundo percepção de comerciantes com anos de experiência de veraneio e de entidades da categoria.
Recentemente, Zero Hora mostrou que o início da temporada apresentou crescimento de 3,9% na economia da região. No entanto, lojistas têm vendas abaixo da expectativa após os feriados do fim de 2025. Com duas datas atrativas pela frente — o feriado de Nossa Senhora dos Navegantes junto ao Planeta Atlântida e o Carnaval —, a expectativa é de que o mês de fevereiro dê fôlego à economia das praias.
Segundo o presidente do Sindilojas Litoral, Joel Dadda, o que diminuiu não foi a presença das pessoas, mas sim o consumo.
— O pessoal está bem mais comedido, e a gente até entende o porquê disso: existem outros gastos inegociáveis, como água, internet, energia e combustíveis. As pessoas têm vindo para o Litoral, sim, mas o valor de consumo na beira da praia ou com lojas e mercados tem sido bem inferior ao de tempos atrás – explica.
O setor de hospedagens também nota redução. Estimativa do Sindicato dos Hotéis, Bares e Restaurantes do Litoral Norte aponta para uma queda de 25% no faturamento de janeiro em comparação ao mesmo mês de 2025.
A presidente da entidade, Ivone Ferraz, destaca que no ano passado a economia foi impulsionada pela presença de argentinos, os quais compareceram menos na maior parte das praias gaúchas.
— Os argentinos tiveram uma sobretaxa no câmbio de 25%. Isso fez eles cancelarem as viagens e, consequentemente, as reservas — exemplifica.
Queda de fluxo preocupa em Capão
Dono da sorveteria "Q Mexe", no centro de Capão da Canoa, Matheus Adams comemorou os números da virada. Entretanto, no restante de janeiro o volume de clientes caiu bruscamente.
— Tinha o dobro de gente circulando (durante janeiro) no ano passado. Nossa expectativa era de que juntasse esse pessoal que veio do Natal para o Ano Novo e continuasse a temporada toda. Mas passou a virada e muita gente foi embora. Uma queda em torno de 50% a 60% — afirma.

No centro de Capão da Canoa, é possível ver diversas lojas fechadas. Indiara Ramos Gomes é proprietária da "Preto no Branco", que vende roupas. Com movimento abaixo do esperado, ela decidiu oferecer todas as peças com 60% de desconto.
Indiara está grávida e precisará se afastar do trabalho daqui um mês. Sem conseguir contratar funcionários, terá de fechar as portas durante a licença maternidade.
— Os custos para ter um funcionário hoje são muito altos. O movimento caiu 70%. Então a gente prefere fechar no período que eu vou ficar de licença do que ficar aberto e ter um custo a mais — conta a comerciante, que percebeu uma piora gradual nos últimos anos:
— Faz três anos que o movimento caiu. O ano passado já foi muito ruim. A gente sempre espera que o verão seja melhor, que a praia sobreviva muito mais do verão. Mas de 2025 para cá os verões estão sendo piores do que o ano inteiro, na verdade.

A queda nas vendas não é impressão apenas de quem tem negócio nas ruas. Na beira da praia, ponto mais frequentado pelos veranistas durante o dia, quiosqueiros e ambulantes compartilham do mesmo sentimento.
Proprietário de um quiosque na guarita 133, ponto mais movimentado da praia de Imbé, Jean Teixeira se diz surpreso com a baixa demanda.
— Estou aqui há sete verões. Esse é um dos piores janeiros para nós. Não sei te dizer o porquê. Só mais (movimento) nos finais de semana. Durante a semana caiu bastante — lamenta.

Dadda, do Sindilojas, também sugere outra possibilidade: com os feriados mais longos neste ano, os turistas economizaram para gastar em épocas festivas.
— O pessoal ainda economiza nesse espaço de tempo para fazer a despedida do veraneio no Carnaval, como teve o início no Réveillon. Inclusive se percebe que o consumo para alimentação, em mercados, padarias, por exemplo, é de produtos mais básicos — conclui.
Variação no clima e no mês
Outro fator que serve de termômetro para o comércio é o clima. O mês de janeiro foi marcado por instabilidades e chuva no Litoral Norte, o que pode ter afastado o público.
— Nós tivemos também essa surpresa no tempo, que virou. Foram só temporais no início de janeiro. Isso também fez com que as pessoas recuassem — aponta Ivone.
Para a volta do movimento esperada a partir de fevereiro, os comerciantes inclusive preveem contratação de trabalhadores temporários.



