
Depois do intenso movimento no mês de dezembro, o comércio de Porto Alegre sofre com o esvaziamento da cidade durante o veraneio. Esse drama é vivido por diferentes setores da economia da Capital.
Segundo empresários e líderes de entidades, o quadro de funcionários chega a ser reduzido em negócios de pequeno e médio porte devido à perda de faturamento. Nesse contexto, a saída para alguns é ir atrás dessa clientela que lota o litoral gaúcho.
Presidente da Câmera de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL-POA), Carlos Klein observa que a abertura de lojas temporárias é um movimento recente, mas que veio para ficar.
Objetivo é fidelizar a clientela
Marcas consolidadas em Porto Alegre começaram a testar a experiência na pandemia. Gostaram. Nos verões seguintes, retornaram a praias como Xangri-Lá, Capão da Canoa e Torres.
— Historicamente, a nossa capital é esvaziada nos meses de janeiro e fevereiro, com a população da cidade optando por passar o verão no Litoral. A alternativa tem sido instalar operações nas praias. Isso tem sido importante para manter o faturamento, ativar a marca e fidelizar novos e antigos clientes — avalia Klein.
Ainda conforme ele, empresas que contratam temporários em dezembro – mês forte para o varejo –, estão inclusive estendendo os contratos para levar esses funcionários à praia.
Assados na beira da praia
Caminhando pelo centro de Xangri-Lá é comum dar de cara com dezenas de marcas criadas e consolidadas em Porto Alegre. Há confeitarias, churrascarias e salões de beleza.
– Me sinto em casa e sei que vou gostar – diz a veranista Giulyana Duarte, 33 anos, enquanto aguarda uma mesa na operação do restaurante 20Barra9.
Há cinco verões que o 20Barra9, do Grupo Manda Brasa, monta uma operação temporária na cidade. O restaurante funciona de dezembro a fevereiro no tradicional ponto que era do Bali Hai.
No cardápio, foram mantidos pratos típicos da antiga operação, como o risoto de camarão e a moqueca de peixe com camarão.
– Quando disseram que iria fechar a operação (do Bali Hai), nós decidimos seguir esse legado incrível, mas demos o nosso toque. O 20Barra9 é sobre o gaúcho contemporâneo. Estar na praia é acompanhar o movimento dele. O cliente vai para a praia e nós vamos atrás dele – diz o diretor de relacionamento do Grupo Manda Brasa, Rodrigo Rech.
A queda no movimento da Capital nos primeiros meses do ano ajudou na decisão de ter uma operação em Xangri-Lá. Porém, segundo o empresário, estar na praia é importante para fortalecer a marca.
Recebemos muita gente do Interior que gostaria de ir nas nossas casas em Porto Alegre, mas que, pela distância, não vai
RODRIGO RECH
Diretor de relacionamento do Grupo Manda Brasa
Gelato porto-alegrense
Em meio aos tradicionais bufês de sorvetes no centro de Torres, uma gelateria de Porto Alegre conquistou os moradores locais. A Gianlucca Zaffari, marca que faz a versão italiana do sorvete, tem loja na cidade desde 1999.
– Não consigo ir para a praia ver o mar. Não temos tempo. Estamos sempre trabalhando com a equipe – diz Noeci Zaffari, que toca o negócio com o marido Fernando e os filhos João e Lucas.
O gelato é fabricado na própria loja. Até os sabores foram pensados no público torrense.
– Tem sabores de Porto Alegre que não vieram para cá, mas também tem alguns que só fazemos aqui em Torres – acrescenta a empresária.
Um complexo de gastronomia
Há 10 anos, a empresária Laura Bier começou a convencer marcas de Porto Alegre a se instalar na praia. Para recebê-las, criou um complexo de lojas em Xangri-Lá, que depois passou para outra gestão.
Hoje, ela gerencia o Roubadinhas, outro complexo com a mesma proposta. A estrutura fica em uma antiga praça no centro de Xangri-Lá, que foi revitalizada e ganhou até roda gigante. São 60 marcas de fora do Litoral reunidas, entre lojas de gastronomia e serviços.
– O espaço funciona o ano todo, mas ainda é um desafio fazer com que todas as marcas fiquem. Elas pagam o aluguel do ano todo com o que ganham no verão, mas optam por sair porque há outros custos na operação. Queremos atrair o pessoal Capão da Canoa, pois a cidade tem população para movimentar o ano todo – conta a idealizadora do espaço.
Segundo Laura, apenas 20% das operações ficam abertas após o veraneio, mesmo que o complexo funcione todos os dias e com equipe privada de segurança.

Uma novidade do Roubadinhas nesta temporada é a Caucakes, confeitaria que tem operações em Porto Alegre e Novo Hamburgo.
Para estar na praia neste verão, a loja da Capital ficará fechada até março. Segundo a proprietária Claudia Robinson, as vendas em janeiro e fevereiro na unidade caem mais de 50%.
– O pessoal sempre pedia para virmos à praia. Depois que voltávamos das férias, víamos que a nossa rua ficava às moscas. Então, estamos fazendo agora um "tira teima" para de fato entender se vale vir para cá todos os anos – relata.
Segundo Claudia e a sócia Juliana Pacheco, a experiência no Litoral tem sido positiva. Todos dias a loja abre com fila na porta.
– Se colocar na ponta do lápis, é muita grana investida. Nós não veraneamos aqui. Tivemos que alugar um apartamento para estarmos em Xangri-Lá todos os dias. Também tem o custo com gasolina para trazer os produtos. Mas está valendo a pena ter vindo para a praia – conclui Juliana.



