
Quando alguém viaja e gosta muito de uma cidade, quer levar um pedacinho dela para casa. Torres, no Litoral Norte, encanta turistas pela natureza e por símbolos da cidade, como o Morro do Farol, as capivaras que frequentam a orla do Rio Mampituba, a igreja São Domingo e os voos de balão, entre outros tantos.
Para fomentar o mercado local e oferecer as "lembrancinhas" da cidade, artistas locais decidiram transformar os pontos turísticos em peças únicas.
Verão 2026
A artesã Maria Elizabeth Reginatto, por exemplo, reutiliza madeiras que foram jogadas fora para fazer miniaturas de construções históricas e de animais que formam a fauna de Torres.
Já a designer Gabriela Mello desenha ícones da cidade e os estampa em produtos que são úteis no dia a dia, como canecas, pratos e camisetas.
Arte com madeira descartada
Maria Elizabeth, a Beth, como prefere ser chamada, conheceu Torres há 30 anos. Na época, seu pai foi morar na cidade em busca de uma vida mais saudável. Após visitá-lo, nunca mais voltou para Uruguaiana, onde atuava como professora de ciências.
No Litoral, Beth aprendeu sozinha a fazer artesanato. Teve ajuda do pai, que era marceneiro, em algumas peças. A prática tornou-se sua profissão. Em vez de ciências, passou a ensinar pintura e tecelagem.
– Eu ia para a praia (na pandemia) e via um monte de madeira jogada. Pensei: "o que fazer com tudo isso?". Vi que Torres não tinha loja desse nicho de produtos náuticos. Comecei com isso. Depois comecei as fazer as casinhas e outras construções históricas daqui – recorda Beth.
Nenhuma peça é igual a outras. Cada peça é única. Nem se eu quisesse iria replicar igual
MARIA ELIZABETH REGINATTO
Artesã
O projeto Entre Faróis foi criado em 2020, quando ela passou a fazer e vender peças que representam símbolos de Torres. Os itens podem ser encontrados em lojas parceiras ou no espaço onde ela ensina artesanato.
Além de encontrar pedaços de madeira na praia, Beth busca o insumo em descartes. Segundo ela, há bastante material disponível, já que a cidade recebe muitas obras da construção civil.
– Eu vejo uma madeira e já enxergo a peça que vou fazer. Começo a colar uma madeira na outra, invento. Eu saio de casa e volto com o carro rebaixado de tanta madeira que pego. Poderia comprar um pinus (tipo de madeira) bem baratinho e fazer minha arte. Seria mais fácil, mas prefiro assim – assegura.

Peças com design e utilidade
Natural de Porto Alegre, a designer Gabriela Mello é uma apaixonada por Torres. Mudou-se para a cidade ainda na infância com a mãe. Em 2007, quando atuava na Comunicação de uma faculdade no município, teve uma epifania:
– Sempre que a gente recebia palestrantes, queríamos presenteá-los com algo que representasse a cidade. Vi que não existia um lugar que vendia isso. Presenteávamos com cesta de produtos coloniais da região. Isso virou uma angústia para mim – lembra Gabriela.
Passado um tempo, ela uniu o que já sabia fazer com a vontade de empreender. Em 2018, Gabriela começou a estampar seus traços dos símbolos da cidade em camisetas, chaveiros, xícaras e copos de cachaça. Nasceu ali a marca A Mais Bela Grife – um trocadilho com o slogan de Torres (A Mais Bela Praia Dos Gaúchos).
Nos primeiros anos, os produtos da marca eram vendidos apenas em lojas parceiras. Em 2024, Gabriela precisava de um ponto físico para montar um estoque. Ao encontrar um imóvel, reviu a estratégia e decidiu abrir nele uma loja.
– Tivemos uma ótima aceitação dos moradores e das empresas. O pessoal dizia muito "como Torres precisava disso". As pessoas entram na loja pela primeira vez e começam a fazer declarações de amor para Torres. Isso dá um gás para seguir trabalhando – conta a empresária.
Olhar a transformação dos espaços e como isso afeta as pessoas. E Torres que me afetou muito. Eu amo aqui
GABRIELA MELLO
Designer

A loja passou a incorporar também produtos como quadros, louças, cadernos e miniaturas para decoração. Gabriela faz o desenho à mão, passa para o computador e o grava nas peças por meio de empresas parceiras.
Além dos ícones clássicos de Torres, como as falésias, a Ilha dos Lobos e o farol, Gabriela diz que tenta trazer um novo olhar sobre a cidade. Algumas de suas peças hoje contam com desenhos de uma figueira na Lagoa do Violão, por exemplo, que se destaca durante o pôr do sol.













