
Ao passar por Xangri-lá, quem dirige pela Estrada do Mar nota que a paisagem começa a ficar diferente. Quilômetros de muros percorrem ambos os lados da via. Esses cercamentos pertencem a condomínios fechados, que viraram tendência do mercado imobiliário gaúcho durante o veraneio.
Segundo especialistas, o setor ficou ainda mais aquecido depois da pandemia, quando pessoas passaram a valorizar refúgios no Interior e no Litoral.
Xangri-lá é hoje a cidade de praia com mais condomínios horizontais – 37 empreendimentos já foram entregues e estão com habite-se, segundo a prefeitura do município.
Antes de as casas serem construídas, a infraestrutura está completa: ruas abertas, áreas comuns, rede pluvial e elétrica, portaria e até praia artificial em alguns empreendimentos.
Verão 2026
Há 14 anos, o leiloeiro Giuliano Ferronato, de Porto Alegre, optou por comprar um lote em um condomínio fechado em Xangri-lá. Antes, ele veraneava em um apartamento próprio em Camboriú (SC). A distância foi um dos fatores que o fez mudar de endereço no verão.
– Quando eu comprei aqui, era um condomínio de pessoas jovens. Tinha a questão da segurança, mas eu já tinha amigos aqui dentro. Meus filhos eram pequenos na época, então isso pesou muito. Aqui tu solta eles porque tem segurança – justifica.
Em muitos casos, existe até um serviço de transporte para levar os moradores à faixa de areia. Mesmo assim, Ferrronato diz que vai pouco à praia quando está no condomínio, pois "faz de tudo" ali dentro. Come em um restaurante privado, curte uma piscina e pode até fazer compras em um minimercado.
– Também tem a questão do sossego. Aqui deixo o carro na garagem, saio, caminho, vejo amigos. O senso de comunidade é muito forte. A gente faz diversos eventos no condomínio – reforça.
Um dos lugares preferidos de quem opta pelo condomínio é o "clube", onde há sala de jogos, academia, restaurante, brinquedoteca, piscinas e até salão de beleza.

"Outra vibe"
Em condomínios fechados, há regras. As ruas internas têm dezenas de placas com limite de velocidade. Todos os dias, um caminhão recolhe os lixos das casas em horários específicos. Se houver excessos na piscina, por exemplo, um guarda-vidas particular pode dar advertências.
Apesar do muro que divide o condomínio do mundo exterior, dentro dele as casas não têm divisórias. Isso atraiu a executiva de Recursos Humanos Solange Azambuja e o marido, Vagner Simões.
Ela, de Porto Alegre, o conheceu ainda quando ele morava em São Paulo. Os dois queriam ter um imóvel que servisse de refúgio. Em 2021, decidiram que esse ponto de encontro seria na praia, longe das capitais.
– Aqui é outra vibe. Inspira mais lazer, uma experiência de vida mais saudável. Na praia, é descanso. Em Porto Alegre, é rotina - entende Solange.
Mesmo perto do mar, a veranista diz que visita a praia poucas vezes quando está em Xangri-lá.
– Estive em Xangri-lá por 10 dias nesse fim de ano e só fui uma vez no mar. Aqui a gente não precisa ir à praia. Tenho toda a infraestrutura possível dentro do condomínio. Isso acaba criando bolhas. Fazemos tudo ali dentro – completa Solange.
Mercado aquecido
De acordo com a prefeitura de Xangri-lá, 13 projetos para novos condomínios fechados estão aprovados. Alguns até já iniciaram a obra. Outras duas propostas seguem em análise pelo município.
Segundo a sócia-diretora da Arcadia Urbanismo, Alessandra Sehn, todos os grandes terrenos que ainda podem receber condomínios em Xangri-lá já estão nas mãos de construtoras.
Assim, a perspectiva para novos empreendimentos deve ser deslocada para Capão da Canoa, Osório e Maquiné, que ainda têm poucos condomínios horizontais.
– Desde a pandemia, o mercado está em um momento de ebulição, mas também de consolidação. Metade do que foi lançado em Xangri-lá foi depois da pandemia. As pessoas passaram a valorizar mais ter uma casa fora da cidade grande – diz Alessandra.

No meu tempo, a gente ia para o centro de Atlântida em bando. Agora, os adolescentes vão para o centro do condomínio em bando
ALESSANDRA SEHN
Sócia-diretora da Arcadia Urbanismo
No Litoral, a Arcadia atua em parceria com a Melnick, de Porto Alegre. O último empreendimento lançado pelas empresas teve todos os lotes vendidos em poucos dias a preços que variam de R$ 350 mil a R$ 650 mil. Os terrenos "molhados", junto a lagos artificiais, são mais caros.












