
Ayrton Senna, Michael Jordan, Muhammad Ali e Anderson Silva estão ao redor de Jesus Cristo acompanhados da frase "Creio em Deus Pai". Esta imagem está tatuada nas costas de Rafael Negretty. O quinteto, além de serem inspirações para o lutador de jiu-jitsu e MMA (artes marciais mistas), ajuda a esconder uma grande cicatriz que o atleta nascido em Torres, no Litoral Norte, tem na região da coluna.
— Mesmo todo mundo sabendo da minha história, do meu acidente, o pessoal, quando olhava a cicatriz durante a luta, batia muito nas minhas costas. Aí, resolvi tampar, esconder — explica Negretty, 37 anos.
O acidente citado pelo lutador ocorreu em 2013. Na época, o atleta ainda não era profissional e se dividia entre o esporte e o trabalho na construção civil. Ele trafegava com sua moto quando colidiu com um carro, na área central de Torres. Ele bateu com o rosto na janela do automóvel e o veículo que conduzia atingiu suas costas. O resultado: uma lesão medular parcial grave, oito pinos na coluna e uma barra de titânio no lugar da vértebra L1.
Foi necessária uma semana para que os machucados externos fossem tratados e, somente assim, a cirurgia pudesse ser feita, no Hospital Cristo Redentor, em Porto Alegre. A operação de reconstrução da vértebra demorou sete horas, mas a recuperação física de Negretty foi muito mais lenta e difícil.
Ele retornou para a casa dos pais, em Torres, e ficou acamado por seis meses, dependendo dos familiares para todas as atividades. De uma hora para a outra, um atleta jovem e saudável não conseguia mais mexer as pernas. Mesmo assim, conta que não duvidou que voltaria aos ringues.
— Quando saí da cirurgia, o médico me disse que eu teria 8% de chances de voltar a andar e apenas 1% de chance de voltar a lutar. Mas, enquanto eu estava na cama, usando fraldas, só passava na minha cabeça que eu teria que voltar a lutar, que iria sair daquela situação. Queria dar uma vida mais confortável para a minha família, garantir o sustento deles — relembra.
Se ter sobrevivido ao acidente foi como ter renascido, seis meses depois vieram os primeiros passos, com a ajuda de um andador. Sem se permitir desistir, um ano mais tarde, estava de volta aos ringues. E não demorou para começar a treinar na academia do campeão mundial Zé Mario Sperry, na Capital – além do acompanhamento que faz com os preparadores Dionatan Santos Pacheco e Frederico Maggi, em Torres.
— Ao longo de meses e anos, o Rafael foi fazendo fisioterapia, reabilitação, não parou um momento sequer. Do ponto de vista da recuperação, a vontade de voltar ao esporte fez muita diferença para ele. Então, estava sempre buscando se recuperar. O esporte na cabeça e a família ajudaram ele a passar por todas as etapas da reabilitação e poder virar um atleta profissional — explica o neurocirurgião de Negretty, Tobias Ludwig do Nascimento.
Lutando pela família
A perseverança de Negretty foi herdada de seu pai, Belmiro da Rosa, conhecido em Torres como Cheiro, que, ao lado da esposa, Márcia Dalpiaz, 63 anos, abraçou a missão de fazer o seu menino caminhar de novo. Pouco depois de Rafael voltar a andar, o patriarca foi diagnosticado com câncer. Ele faleceu em 2020, aos 62 anos.
— Não sei se ele não me falou que estava com câncer antes porque eu estava em processo para voltar a caminhar. Foram cinco anos de luta ao lado dele. Acredito que ele partiu deste plano orgulhoso, porque me deixou no caminho certo para honrar o nome dele e trabalhar pela nossa família — diz o lutador.
Seu pai ainda viu Negretty voltar a andar e mais do que isso: se tornar profissional. Saiu da faixa azul e, hoje, ostenta a graduação preta em jiu-jitsu, competindo em grandes torneios de MMA. Ele também conquistou grandes patrocinadores e atualmente é atleta da gigante Adidas. A empresa de construção civil onde trabalhava antes, virando massa, agora é sua apoiadora.
Com sua história de superação, está sendo chamado cada vez mais para ações beneficentes e para palestras – caminho para o qual quer enveredar quando pendurar as luvas. Além disso, pretende escrever um livro sobre a sua vida. Nesta trajetória, se aproximou de outros atletas, principalmente daqueles que jogaram em seu time do coração, o Internacional. O volante Magrão é um deles.
— Negretty é um cara que nunca desistiu do sonho dele. Mesmo com todas as dificuldades, seguiu firme. É um verdadeiro exemplo de esportista e, acima de tudo, de ser humano — diz o ex-atleta colorado, admirador do lutador.
As dores
Ao conversar frente a frente com Negretty, percebe-se que o lutador está sempre se mexendo, pescoço, ombros, quadril, quase como se quisesse encaixar alguma coisa que está fora do lugar. Estes movimentos, segundo ele, são heranças do acidente, uma dor que nunca vai embora.
— Me mexo muito porque está doendo. Mas aprendi a conviver com a dor. Inclusive, como bati de cara no vidro do carro, bati o peito também. Isso gerou uma manchinha no meu pulmão, o que me deixa com um pouco de dificuldade para respirar. Tenho uma hipersensibilidade ao toque nas pernas e o meu lado direito é um pouquinho descompensado. Também não consigo realizar alguns exercícios. Tive que me adaptar — explica.

Tudo isso não impediu que o atleta se tornasse um campeão. Entre os títulos conquistados, em 2024, venceu no Danki Fight Show, em Florianópolis, superando, por finalização, o lutador Eduardo Francisco. Segundo ele, sua história o ajudou a se tornar uma pessoa pública, mas, para virar um profissional do esporte, é preciso também entrega — e isso ele nunca deixou de ter.
— Tem cabra do jiu-jitsu que é muito melhor do que eu. Eu estava em uma subida boa, em um momento muito bom, e o acidente me trancou. Tive que remontar o meu jogo, mudar. O que eu fazia antes, hoje eu não faço. Só que estou lutando com uma pessoa normal, pau a pau. Sou o cara que quase ficou paraplégico, voltou a lutar e, hoje, leva o nome do esporte adiante — diz.
Além de sua determinação de retornar aos ringues, o apoio da família e dos amigos e a sua terra, na visão do atleta, foi outro fator muito importante para a sua recuperação:
— Nasci em Torres e quero envelhecer aqui. Aqui a gente faz tudo a pé. A cidade acolhe a gente. Muito da minha fisioterapia eu fiz na areia da praia. E o mar é o mar, né? Ele renova as nossas energias. Se você está em um dia estressado, na Capital, você vai correr para onde? Aqui em Torres, você corre para o mar.

