
Na beira das praias gaúchas, é normal encontrar vendedores empurrando carrinhos oferecendo picolé, cerveja, milho verde, queijo coalho, água de coco, choripan... Espera aí, choripan? Pois é, parece estranho, mas a iguaria argentina atravessou a fronteira e veio parar no Litoral Norte. Mais especificamente, em Torres.
Apenas um vendedor na Praia Grande, Leomar Delgado, 48 anos, possui três equipamentos sobre rodas para dar conta da clientela. São oito pessoas trabalhando no negócio. O empreendedor, que é natural de Sapiranga, mudou-se com a esposa Sheila Tavares, 43, para Torres há sete anos.
Meses depois, ao ver o grande fluxo de argentinos pela praia, decidiu apostar no gosto dos hermanos.
— Vimos vídeos sobre choripan e decidimos entrar neste mercado. Começamos com apenas um carrinho e hoje temos três. Juntos, vendemos de 350 a 400 choripans por dia. Já chegamos a vender 700, mas o pessoal viu o potencial e já foi surgindo concorrência. Mas fomos os pioneiros — detalha Leomar, que é dono do Léo Choripan.
O empreendedor ressalta que nunca comeu a verdadeira iguaria argentina, que é composta basicamente por linguiça, chimichurri e pão. Por isso, a sua receita é original, baseada em suas pesquisas, mas expandida. O seu choripan é feito "no cacetão, não no cacetinho", com direito a salsichão, mostarda, ketchup, maionese, vinagrete e batata palha. Este custa R$ 30. Tem a opção com carne que é R$ 40.
— É um almoço. Se come muito mais do que se gasta dinheiro — brinca Leomar.
De acordo com o vendedor, de 10 de janeiro a 10 de fevereiro, a clientela mais forte é, realmente, a argentina. Mas ele avalia que, ano após ano, os brasileiros vão se interessando mais pelo lanche e, em alguns dias, quase dá empate na procura.
Aprovado pelos hermanos...
O agente de viagens Geraldo Lafuente, 32, de Corrientes, na Argentina, chegou a Torres na sexta-feira passada (9). E não demorou para querer provar a versão gaúcha do prato tradicional do seu país. Quando comeu, garante que se encantou na hora. Nesta sexta (16), já repetiu a experiência.
_ O choripan daqui é mais completo. O chorizo (linguiça) é mais gostoso, o pão mais crocante. É bom, muito bom — contou Geraldo, preocupado com a repercussão da entrevista em seu país. — Vou arrumar confusão (risos).

Bem-humorado, o contador Marcelo Catena, 62, de Rosário, saiu do mar e foi direto buscar um choripan. Pediu um de carne, mas bem básico: só com um pouco de mostarda. Ele, que viajou por dois dias para chegar em Torres, levou a família toda: esposa, filho, mãe. E aproveitou para sentir um pouquinho do gosto do seu país.
— Venho para Torres desde quando tinha 17 anos. Era só um pequeno povoado aqui. E, agora, cresceu. E já encontrei até choripan. Achei bem parecido com os que como na saída do estádio de futebol. Tudo no Rio Grande do Sul é parecido com a Argentina, né? É como se aqui fosse uma província de lá — provocou o hermano, enquanto dava boas risadas com seu choripan na mão e a bochecha suja de mostarda.
... e pelos gaúchos
Elenice Saviano, 36, funcionária pública de Mata, na região central do RS, quase sempre veraneia em Torres. Ela tinha visto o carrinho de choripan na beira da praia no ano passado, mas só nesta sexta tomou a iniciativa de ir provar a nova iguaria litorânea.
— Achei ótimo. O pão bem novinho, sabe? Pedi o de carne, mas bem passada, que é como eu gosto. E o vendedor fez direitinho. Adorei. Vou pedir mais, com certeza — conta Elenice.

Enquanto a gaúcha volta para se sentar com a família embaixo do guarda-sol, a fila para comprar choripan do Leomar nunca diminui. E ele, volta e meia, grita para chamar ainda mais clientes:
Olha o choripan! Hoje está mais barato! Se não gostar, não precisa pagar!
E, enquanto a reportagem esteve ao lado do carrinho, por volta de uma hora, próximo do meio-dia, todos os clientes fizeram questão de pagar.

