
"É um reflexo". Enquanto a bola era lançada, João Henrique mexia o corpo como se fosse um jogador prestes a rebater a bola. O Torneio de Tacobol era como um imã para os olhos do guri de 13 anos sob um toldo na beira da praia de Capão da Canoa. O olhar concentrado contrastava apenas com os sorrisos a cada bola atingida pelo taco. A vibração de João Henrique é a de quem até 2015 jogava tacobol com os amigos nas ruas de Novo Hamburgo.
Assim como outras sete crianças, João Henrique participou na manhã deste sábado de um evento organizado pelo Instituto do Câncer Infantil (ICI), próximo à imagem de Iemanjá, em Capão da Canoa, e reuniu diversas personalidades em prol da luta contra o câncer. Cada uma das oito crianças que participaram do evento está em fase final de tratamento e fez o papel de técnico de duplas convidadas.
João Henrique precisou deixar o taco de lado aos 10 anos. As brincadeiras de correr deram lugar a muletas e cadeira de rodas para o menino do Vale do Sinos. Vítima de um osseosarcoma, câncer que atinge os ossos, ele teve a perna amputada em 2015. Depois, lutou contra dois cânceres nos pulmões — e ele está superando os problemas com um sorriso no rosto.
— Agora é só o acompanhamento. Já estou treinando com a prótese. Incomoda um pouco, mas estou treinando - disse.
No campeonato, a versão treinador não deu muita sorte. A sua dupla de "atletas", composta pelo humorista Guri de Uruguaiana e a influencer Juliana Barsante, perdeu logo na estreia. Ao fim da partida, o técnico, acostumado a jogar nas ruas de sua cidade, brincou:
— Acho que eu jogava um pouquinho melhor que eles. Quem sabe ano que vem eu jogue — disse.

A ação organizada pelo Instituto do Câncer teve apoio da rede de lojas Lebes. Os ex-atletas Tinga, Carlos Miguel, o humorista Cris Pereira e comunicadores como Débora de Oliveira, Cris Silva, Capu e Fê Pandolfi também participaram do campeonato.
Conforme o médico e coordenador do Instituto do Câncer, André Brunetto, as crianças que participam do evento já estão com boa imunidade, o que garantiu a interação.
— Para todos nós é muito bom. Muitas delas (crianças) têm uma condição socioeconômica mais baixa. Elas enxergam um ídolo e ganham estímulo extra para saírem de uma situação dessas. Se elas estão aqui, é porque se curaram — disse.
Primeiro lugar no campeonato

A pequena Larissa de 7 anos disse nunca ter visto uma partida de tacobol. No entanto, deu dicas muito úteis aos seus comandados, o ex-jogador de vôlei e campeão olímpico Gustavo Endress e o atleta e professor de corrida Gabriel Picarelli. Mas ela não temeu o gigante Endress, de 2m03cm e correu para dar um abraço nele após uma partida.
Ao dar entrevista depois, perto da mãe, Larissa foi econômica nas palavras.
— Disse para eles ganharem — brincou ela.
Logo depois, a menina deixou de lado o repórter e voltou a engatinhar pela areia, tapando os pés da mãe. A menina deixou o hospital no ano passado após quatro anos de luta contra um linfoma na barriga. Larissa baixa a cabeça e também não consegue falar muito sobre o período em que passou internada.
A mãe, Beatriz da Rosa Barbosa, 43 anos, orgulhosa da criança que venceu o câncer, conta que Larissa cresceu no bairro Bom Jesus. A família não teria condições de arcar com os custos do tratamento. Foi quando o Instituto entrou na vida da menina.
— A gente ficou apavorado. Mas depois, eles nos receberam de braços abertos e nos apoiaram com tudo no tratamento. Ela perdeu cabelo e fez químio. Hoje está muito bem — disse ela, que se dedica exclusivamente à menina, enquanto o marido trabalha como servente de pedreiro.
— Vencemos. Agora só precisamos seguir o acompanhamento com o médico — complementa a mãe, enquanto a menina segue brincando com a areia em seus pés.




