Ao entrar na igreja, muita gente repete, quase sem perceber, gestos incorporados há muito tempo. Molha a ponta dos dedos na pia de água benta, faz uma reverência em direção ao altar e traça o sinal da cruz sobre a fronte. Só depois estende a mão para pegar o folheto com o qual vai acompanhar a missa, que leva o título de "O Dia do Senhor".
Ele traz a leitura do dia, os cânticos e as orações da celebração católica. Entretanto, você já se perguntou como é elaborado este "roteiro" a ser comandado pelo padre?
Para quase toda região sul do Brasil, a resposta começa no menor Estado soberano do mundo, o Vaticano, e termina, toda semana, numa sala atrás da Catedral Metropolitana de Porto Alegre.
Para entender esse processo, GZH foi conhecer quem faz essa ponte: o padre Luciano Massullo. Há 22 anos dedicado à Igreja, ele é mestre e doutor em Liturgia, hoje pároco da Paróquia Cristo Bom Pastor e professor na Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Desde 2025, também dirige "O Dia do Senhor", o folheto que a Arquidiocese de Porto Alegre distribui há mais de 50 anos a igrejas do RS e do oeste de Santa Catarina e do Paraná. Ele assumiu o cargo depois que o padre Marcos Brand, que dirigiu a publicação por mais de 50 anos, faleceu em 2024.

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Onde nasce "O Dia do Senhor"
O roteiro das missas é produzido em uma sala da Cúria Metropolitana, no centro histórico de Porto Alegre e bem atrás da Catedral. Atualmente, a publicação atinge uma tiragem de 94 mil exemplares por semana. A maior parte deste volume é distribuída pelos Correios.
Nos bastidores, a equipe reúne geralmente quatro padres que se revezam na escolha dos cantos e na escrita dos textos, um diagramador e dois profissionais encarregados do empacotamento.
A elaboração do material parte de dois livros elaborados pelo Vaticano – o Missal e o Lecionário (leia mais abaixo) –, ganha corpo com textos locais, como as preces da comunidade, e se completa no verso do folheto, onde o comentário de um bispo serve de inspiração para a homilia do padre.

E tudo precisa ser pensado com antecedência. O material geralmente chega às paróquias quatro meses antes de ser usado na missa.
— São de duas a duas semanas e meia só para escrever, diagramar e revisar o material. Depois, mais quatro a cinco dias para a gráfica rodar e entregar os folhetos impressos. Vêm então 15 a 20 dias para empacotar tudo e despachar pelo correio. O transporte em si pode levar de 15 dias a um mês, dependendo da distância até a paróquia de destino — enumera Massullo.
Ele explica que a cartilha funciona como um guia: ajuda quem não conhece bem a linguagem da missa a acompanhar o que está acontecendo, principalmente famílias que só voltam à igreja para um batizado ou um sétimo dia de falecimento, por exemplo.
— É uma linguagem simbólica, ritualística, diferente e difícil — resume o padre.
Talvez você tenha pessoas no seu convívio que, se forem a uma missa hoje, não vão entender nada daquilo. Para essas pessoas, o folheto é uma segurança nas mãos delas. Favorece a participação.
LUCIANO MASSULLO
Pároco e professor de Teologia na PUCRS
Por que seguir um mesmo roteiro em todos os lugares do mundo?
Nada em uma missa é escolhido pelo padre da paróquia, nem mesmo as leituras e as orações. Elas vêm prontas de dois livros: um é o Missal, que reúne as orações, e o outro é o Lecionário, com os textos da Bíblia já organizados para cada celebração.
O Missal em uso atualmente é a terceira edição do texto após o Concílio Vaticano II, dos anos 1960, quando a Igreja passou a permitir a celebração da missa em língua vernácula — ou seja, no idioma falado pelo povo local, e não apenas em latim.
Porém, esses textos são herdeiros de antigas orações e escritos transmitidos e adaptados ao longo dos séculos.
Já o Lecionário não é organizado da mesma forma para todas as celebrações. Há uma divisão específica para as missas de domingo e outras para as celebrações durante a semana, os sacramentos e os santos. Veja como se organiza:
Hoje é o Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, órgão do Vaticano, quem edita e revisa esses livros oficiais. Eles sempre saem em latim, antes de serem traduzidos por cada conferência episcopal nacional. Junto a eles existe também um calendário litúrgico universal, seguido por toda igreja católica do planeta.
— A mesma leitura vale no Vaticano, na Matriz Metropolitana e no interior do Rio Grande do Sul — exemplifica Massullo.
Esse conjunto de textos e ritos é o que a Igreja chama de liturgia, palavra de origem grega que junta "povo" e "trabalho". É o termo usado para descrever a própria ação de Deus a favor da humanidade, celebrada pela Igreja em ritos como a missa, o batismo, a unção dos enfermos e a confissão.
A liturgia da Igreja não inventa os textos, os textos vêm com herança. Jesus sentou à mesa com os apóstolos, tomou o pão, tomou o vinho e disse: 'esse é meu corpo, meu sangue, façam isso em memória de mim'. Desde o primeiro século, a igreja vem fazendo aquilo que Ele pediu
LUCIANO MASSULLO

Quem escolhe a música da missa?
A música, por sua vez, funciona de outro jeito e não é decidida em Roma. Como os cânticos são organizados localmente por Estado ou diocese, a Arquidiocese de Porto Alegre tem o seu próprio hinário, o que explica por que o repertório de uma missa no Nordeste soa tão diferente de uma no Rio Grande do Sul.
Além disso, nem todo canto serve para a missa. Há uma diferença clara entre o canto religioso, que desperta a fé em geral, e o canto litúrgico, escrito para acompanhar momentos específicos da celebração, a exemplo do Ato Penitencial, do Glória ou do Ofertório.
Em tese, a aprovação desse repertório caberia à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). No entanto, com 270 bispos espalhados por um território continental, decidir isso de forma centralizada seria inviável. Então, a ordem delega a tarefa a cada diocese, que define sozinha o que pode ou não ser cantado na sua região.

O que o Brasil pode mudar nas missas?
Se Roma escreve as regras, cabe à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) traduzi-los. Mas a tarefa vai muito além de uma simples tradução.
— A tradução também é adaptação, pois não tem como traduzir sem adaptar. O mesmo acontece com o latim. Quando a CNBB vai traduzir um livro litúrgico, essa tradução também passa por uma adaptação, que por sua vez passa por uma musicalização, porque os textos têm que ser possíveis de serem cantados — explica o padre Luciano.
Esse processo de tradução e adaptação exige o aval de Roma. A CNBB traduz e adapta o texto oficial do latim para o português e o envia ao Dicastério para o Culto Divino, que confirma a fidelidade ao original para aprovação e uso nas missas do país.
Com a mesma autorização, a CNBB pode incluir elementos regionais em suas celebrações. Além disso, escreve as orações de santos brasileiros, como Irmã Dulce e Frei Galvão, ausentes nos livros do Vaticano.
* Sob orientação e supervisão do jornalista Beto Azambuja


