
O que para alguns é um mero substituto do café para o ganho de energia, para outros adquire significados mais profundos, como conforto e pertencimento.
Ricos em cafeína e taurina, as bebidas energéticas são estimulantes que ganharam popularidade nos últimos anos e seguem em crescimento, especialmente entre os jovens.
Dados da empresa de pesquisa Kantar de 2024 mostram que 22% dos brasileiros — sobretudo pessoas de até 29 anos — consomem o produto fora de casa. Além disso, o levantamento aponta que a bebida está presente em 38% dos lares no país.
O hábito chama atenção pela pluralidade das justificativas dos seus consumidores mais fiéis. E, por se tratar de um estimulante, ele frequentemente levanta dúvidas a respeito de possíveis riscos à saúde.
O que leva ao consumo?

Embora o uso da substância esteja geralmente associado à produtividade, os contextos diferem de caso para caso.
Entretanto, uma similaridade uniu as três jovens entrevistadas pela reportagem: nenhuma delas costuma beber café. Questionadas a respeito, elas afirmaram utilizar o energético como uma fonte de energia alternativa ao famoso estimulante vindo do grão brasileiro.
"Uma bebida de conforto"
— Todos os dias de manhã. Eu tento não tomar, mas é difícil. E não é nem porque eu estou cansada: é a minha bebida de conforto — declara Vitória Fávero, 28 anos.
O energético tem um papel importante no dia a dia da pedagoga. De acordo com Vitória, a bebida passou a fazer parte de sua rotina matinal, geralmente acompanhando o café da manhã.
A educadora conta que sempre gostou do produto, porém passou a consumi-lo com mais frequência após o término de um relacionamento. O enérgico de manhã passou a compensar a falta de horas de sono à noite.
— Eu terminei um casamento há cerca de três meses e percebi que estava precisando (da bebida). Eu não estava dormindo e, no geral, estava passando por um momento bem difícil da minha vida.
Vitória brinca sobre estar viciada. Contudo, ela avalia ter controle sobre o hábito, que, no seu entendimento, está atrelado a um valor afetivo.
Foco nas provas
Thaís Weiss, de 25 anos, também incorporou o estimulante ao seu cotidiano. Estudante de medicina, a jovem costuma beber cerca de cinco latas por semana. Em determinados contextos, chega a dez.
— Eu costumo consumir mais energéticos durante o período de provas, que é quando eu quero render – afirma.
Para Thaís, o estimulante normalmente se faz presente durante as aulas e após o almoço, justamente nos momentos em que ela enfrenta maior dificuldade de manter o foco.
Além disso, ela garante que o sabor é um fator decisivo. A variedade e as novidades oferecidas pelas marcas são um diferencial e impulsionam o seu interesse pelo produto.
— De tempos em tempos, elas criam sabores diferentes e isso acaba sendo mais atrativo para o meu paladar.
Comunidade e preferências

A estudante de jornalismo Laura Caporal, de 22 anos, costuma consumir "apenas" uma lata por semana. Para ela, o energético ganha contornos que vão muito além do efeito no organismo.
— Raramente eu diria que bebo pela produtividade. Virou muito mais meu apoio emocional (...) — afirma.
Nas redes sociais, a jovem passou a publicar vídeos experimentando diferentes sabores e marcas. De acordo com ela, a prática atraiu uma série de pessoas, criando uma espécie de comunidade.
— As pessoas começaram a se engajar. Muita gente abre o meu perfil para saber como eu avaliei tal energético para saber qual comprar. Eu acho isso muito engraçado.
O interesse da estudante não está ligado apenas ao consumo, mas também às preferências de sabor, às novidades e até mesmo à sociabilidade.
Como começa
O primeiro contato da estudante de medicina Thaís aconteceu em um cursinho de pré-vestibular. A prática era comum naquele ambiente e, ao ver os seus colegas consumirem a bebida, sentiu-se compelida a experimentar.
— Eu vi outras pessoas tomando e pensei que aquela poderia ser uma boa opção para me manter acordada e tornar o estudo mais atrativo. Isso começou a se tornar um hábito a partir dali – conta.
No caso de Vitória, o cenário foi diferente: a noite boêmia da Cidade Baixa. Segundo ela, o estimulante entrou na sua vida através das festas, onde ele costuma ser misturado com bebidas alcoólicas.
— A gente comprava aqueles combos dentro das festas ou apenas uma vodka e tomava com energético — explica a pedagoga.
Essa também foi a experiência de Laura. De acordo com a jovem, o seu primeiro encontro com o estimulante ocorreu por meio dos conhecidos 'kits' — vodka, whisky ou outra bebida de alto teor alcoólico diluído com energético.
Em contextos mais diurnos, sai o álcool, mas fica o energético.
Quando o consumo cobra a conta

Apesar dos seus aparentes benefícios na disposição, o consumo excessivo da bebida pode ser motivo de mal-estares.
É o que aconteceu com Thaís quando bebeu uma porção maior do que estava acostumada. Depois de três latas, o desconforto começou a ficar evidente.
— Eu senti bastante dor no peito. Acredito que era ansiedade, sabe? Depois desse dia, eu passei a tentar diminuir o consumo – afirma.
Laura também relata um episódio de desconforto físico após consumir duas latas no mesmo dia durante uma semana intensa de estudos. Durante o episódio, ela relata ter sentido enjoo e vomitado, além de sintomas característicos da pressão alta.
A única que não viveu esse tipo de experiência foi Vitória. A jovem afirma ficar agitada com frequência, mas nunca apresentou incômodos. No entanto, ela admite se considerar uma pessoa ansiosa, o que pode dificultar a avaliação do efeito das latinhas no organismo.
O que dizem os especialistas
De acordo Lovaine Rodrigues, professora de Nutrição da Unisinos, a bebida traz uma combinação que tem a capacidade de aumentar a frequência cardíaca e a pressão arterial. Além disso, não aumenta a energia, apenas mascara a falta dela.
— O energético combina doses elevadas de cafeína com açúcar para mascarar o cansaço do corpo. Ele usa reservas de energia do próprio organismo.
Uma lata da bebida pode conter até 160 miligramas de cafeína, o que equivale a três xícaras de café expresso. De acordo com a especialista, a alta concentração facilita uma possível superdosagem.
— O cérebro do adolescente ainda está em desenvolvimento e é muito sensível aos estimulantes. Os efeitos agudos incluem taquicardia, pico de pressão, crise de ansiedade, dor de cabeça e insônia.
O cenário se torna ainda mais preocupante quando o álcool entra na equação. Muito comum entre os jovens, a combinação potencializa os efeitos e aumenta o risco de sobrecarga no coração e desidratação grave.
Por esse motivo, os órgãos fiscalizadores (Anvisa e MAPA) proíbem a venda de produtos que contenham essa mistura. Na noite, ela é feita pelos jovens por sua conta e risco.
Professor do Departamento de Bioquímica da UFRGS, Jose Claudio Moreira afirma que o abuso de estimulantes pode trazer consequências a médio e longo prazo.
Conforme conta o especialista, o sistema nervoso central do jovem ainda está em formação e, por isso, pode ser facilmente "bagunçado" por excesso de informações externas.
— Você pode acabar tendo um problema de déficit de atenção, de desorganização de memória e de percepção do ambiente.
A Academia Norte-americana de Pediatria (AAP) recomenda que crianças e adolescentes não consumam bebidas energéticas. De acordo com a instituição, o seu uso está associado a efeitos adversos.
— Precisamos também ter uma recomendação nacional de restrição de uso — defende Lovaine, da Unisinos.
A nutricionista reforça que jovens nessa faixa etária, além de estarem mais suscetíveis à substância, não necessitam do estímulo.
Melhor optar pelo café?

Apesar da concentração de cafeína ser tendencialmente menor em comparação ao energético, o excesso de café também é nocivo.
Há, porém, um diferencial: o energético é uma bebida ultraprocessada. Isso significa que, além dos compostos estimulantes, ele contém aditivos químicos e, por isso, tende a ser mais prejudicial.
No final das contas, ambos enfatizam que a moderação continua sendo o principal fator para evitar danos à saúde. Afinal, seja um energético ou um café quentinho, o que faz o veneno é a dose.
*Sob supervisão de Caue Fonseca


