Enquanto a calvície costuma ser associada ao envelhecimento, para uma parcela de homens ela chega muito antes — ainda na adolescência ou no início da idade adulta. Os motivos por trás dessa antecipação variam de pessoa para pessoa e vão muito além da idade, conforme explica o médico dermatologista tricologista Ivon da Silva Neto.
Segundo o especialista, a condição é determinada principalmente pela combinação entre predisposição genética e hormônios. Ele explica que pessoas com folículos capilares mais sensíveis à ação da di-hidrotestosterona (DHT), um hormônio derivado da testosterona, têm dificuldade em produzir fios aparentes.
— Com o passar dos anos, essa sensibilidade faz com que os fios se tornem cada vez mais finos, até que alguns folículos deixam de produzir cabelos visíveis — aponta Silva Neto.
O médico destaca que fatores como tabagismo, obesidade e estresse crônico podem acelerar o processo, mas raramente são a causa principal. Ele afirma ainda que os primeiros sinais de calvície costumam ser discretos e podem surgir no início da adolescência.
Em muitos casos, a pessoa percebe que o cabelo está perdendo volume, gerando as famosas "entradas" ou que a região do topo da cabeça está ficando mais aparente. Ele explica que, apesar de serem um indicador, nem sempre as falhas são sinais de calvície precoce e fazem parte de um desenvolvimento natural do corpo masculino.
— A preocupação surge quando esse recuo continua aumentando ao longo do tempo e passa a ser acompanhado por fios mais finos e menor densidade capilar. Nesses casos, pode ser o início da alopecia androgenética, a calvície masculina. A avaliação com um médico dermatologista é importante para diferenciar essas duas situações — explica o especialista.
Calvície precoce e autoestima masculina
O tricologista explica que casos de calvície precoce, principalmente durante a adolescência e o desenvolvimento da autoestima, costumam ter grande peso nas relações sociais e na construção de identidade. O impacto varia a cada caso: alguns preferem tratar a perda de cabelo, enquanto outros optam por assumir a calvície e raspar a cabeça.
Para o professor Arthur Hoffmann, 23 anos, a decisão correta foi deixar a careca aparecer. Aos 18 anos, o jovem começou a notar as entradas cada vez mais profundas e os fios do cabelo mais finos. Um ano depois, o cabelo já estava visivelmente ralo e, em vez de tentar esconder ou reverter o quadro, ele decidiu raspar tudo e transformar o seu estilo.

— Desde então, nunca mais deixei crescer. Sempre mantenho raspado e faço pelo menos uma vez por semana — conta Hoffmann.
Segundo ele, mesmo conhecendo os métodos para amenizar a situação, o professor não procura tratamento e se sente muito mais confiante com a sua careca:
— Não sinto falta de ter cabelo. Me sinto muito bem sendo careca e não consigo mais me ver de outra maneira. Acaba se tornando uma referência para mim e para as outras pessoas.
Já para Eduardo Cormelatto, 28 anos, o caminho até aceitar a calvície foi bem mais conturbado. Ainda jovem, ele começou a notar as entradas avançando e viu a autoestima balançar junto com a quantidade de fios que ia diminuindo.
— Na época era uma questão muito sensível pra mim. Eu ficava muito triste. Afetou bastante a minha autoestima por alguns anos — conta.
Por um bom tempo, ele tentou disfarçar o quanto conseguia, escondendo o incômodo atrás de piadas sobre o próprio visual:
— Eu tentei manter algo que parecesse um corte decente por alguns anos, mas a calvície era nítida. Eu fazia piadas autodepreciativas e dizia gostar do meu cabelo de "roqueiro aposentado", mas, na verdade, era algo que me entristecia bastante — afirma.
Depois do incômodo, Cormelatto acabou seguindo o mesmo caminho que Hoffmann:
— No fim a escolha nem foi estética. Eu encaro mais como uma libertação mesmo. Um dia apenas decidi que não queria fugir da calvície a vida toda e decidi que o melhor caminho para mim era raspar a cabeça. Eu tinha 25 anos.
Antes de chegar a essa decisão, porém, ele passou pelo caminho do tratamento — e desistiu quando percebeu o tamanho do compromisso que ele exigia:
— Procurei profissionais quando tinha 17 anos e até fiz tratamento com finasterida por algum tempo, mas não durou muito. Quando descobri que o remédio teria de ser usado para o resto da vida e que nem mesmo o implante capilar era um tratamento permanente, eu decidi parar.
Como ressalta Silva Neto, a preferência de tratar ou abraçar a condição é decisão do afetado e o papel do profissional é "acolher essa preocupação, esclarecer dúvidas e apresentar as opções disponíveis, respeitando sempre as expectativas do paciente".
— Do ponto de vista médico, existem tratamentos eficazes para estabilizar a doença e estimular o crescimento dos fios, incluindo medicamentos, terapias complementares e transplante capilar para pacientes selecionados — conclui o especialista.
Tratamento para calvície
O tricologista Ivon da Silva Neto afirma que quando existe predisposição genética, não há uma forma comprovada de impedir completamente o desenvolvimento da calvície. Apesar disso, a medicina dispõem de tratamentos que conseguem retardar a progressão da doença e preservar os fios existentes, a depender do diagnóstico precoce.
— Quanto antes o tratamento for iniciado, maiores costumam ser as chances de manter uma boa quantidade de cabelo ao longo dos anos — afirma o especialista.
Entre as opções de intervenção, estão medicamentos tópicos e orais, além de procedimentos como microagulhamento, laser de baixa intensidade e transplante capilar. Além disso, existem métodos menos invasivos que cumprem com o objetivo de disfarçar a falta de fios, como cortes de cabelo adequados, fibras de queratina e sprays de cobertura que melhoram temporariamente o aspecto visual da cabeça.
— Vale destacar que é importante desconfiar de produtos que prometem resultados rápidos ou milagrosos. A maioria não tem comprovação científica, e adiar um tratamento eficaz pode reduzir as chances de preservar os folículos que ainda estão ativos — conclui o médico.
*Sob supervisão das jornalistas Ana Müller e Arethusa Dias


