Passada por meio do boca a boca, como os antigos faziam, a orientação é sempre a mesma: entrar em determinada rua do bairro Camaquã, em Porto Alegre, e procurar por uma figueira vistosa. Ao encontrar a enorme árvore, olhar para o outro lado da rua. Ali, espremido entre dois sobrados, tem um pequeno portão. Naquele modesto recuo mora uma guardiã dos saberes ancestrais, uma remanescente das benzedeiras. Esse é destino.
Ao tocar a campainha, surge de um longo corredor uma senhora baixinha, de cabelos brancos, com rosto amável e sorriso fácil. É a dona Nilce e Silva Adriano, 79 anos. Ela não está nas redes sociais e seu endereço não consta no Google, mas, ainda assim, é visitada diariamente por diversas pessoas — tem dias que garante ter mais de uma dezena na fila, esperando atendimento.
Descendente de indígenas e caçula de nove irmãos, Nilce nasceu em São Luiz Gonzaga, nas Missões, e cresceu vendo a mãe, Doralina Bonfim, rezando por enfermos que lhe pediam ajuda. Aprendeu tudo com a observação. No começo da vida adulta, mudou-se para a Capital, com dois filhos, fugindo de um casamento violento.
— Dos irmãos, só eu fiquei com o dom da minha mãe, mas não me interessei. Só que, de uns 40 anos para cá, começou a acontecer alguma coisa comigo, um chamado. Até que bateu aqui em casa uma menininha que tinha uma ferida na boca, uma "mijada de aranha". Eu nunca tinha benzido ninguém. Mas benzi, e ela sarou. Depois disso, nunca mais parei. Aceitei a minha missão — recorda Nilce.
Atendimentos não são cobrados
Em Porto Alegre, casou-se de novo, teve mais três filhos, mas acabou se separando do marido. Ela queria benzer, mas o companheiro não aceitava. A demanda e a responsabilidade são enormes, só que isso não é convertido em dinheiro. As rezadeiras, geralmente, não cobram pelos atendimentos. É quase uma vida franciscana.
— Ajuda quem quiser. Ganho muitas coisas, mas é de coração. Esses dias, um menininho que eu benzi me deu cinco reais. Disse que não cobrava, mas ele insistiu. Aceitei de bom grado. Mas ajudar os outros sem cobrar? Isso não existe mais. Estou em extinção. Ainda assim, me vejo benzendo por muito tempo, com 80, 90, cem anos (risos). É bom demais. Faz bem para a pessoa e para mim — diz a benzedeira.
Hoje, quem bate em seu portão, sendo guiado pela figueira, é convidado a entrar em sua casa, que conta com um jardim repleto de árvores, folhagens e flores, com passarinhos que cantam o tempo inteiro. Ela acredita que o ambiente em que faz o seu trabalho, em conexão com a natureza, dá mais força para a reza.
Entre as plantas, está posicionado um banquinho. É ali onde ocorrem as bênçãos. Munida de palavras de amor, um copo com água e um galhinho verde — para ela, não importa muito de qual planta, apesar de acreditar que a arruda seja melhor —, Nilce ouve o mal que está afligindo quem a procura e, caso seja algum problema de saúde, a primeira pergunta que faz é:
— Já procurou um médico?
Depois, emenda uma reza, que é praticamente uma conversa direta com Deus, santos e elementos da natureza, andando ao redor do benzido. É como se o estivesse limpando de tudo que é ruim. Entre as suas orações, que levam cerca de 15 minutos, ela entra em um quase transe. Enquanto joga água na pessoa com seu raminho verde, diz:
— Ô, Mãe Terra, absorve essas energias negativas que esse filho tem nesta vida. Proteja, ilumina e abençoa. Eu devolvo para ele a energia que você, Mãe, mandou. Que ele leve a saúde e a proteção que veio buscar. Ele vai levar paz, amor, saúde, proteção divina. O bem do universo. Cuida, Senhor, desta vida. Cuida dos ossos, dos músculos, das juntas deste corpo, Senhor. Cuida de tudo, porque só Tu podes.
Deus sabe tudo e ele botou a graça nessas minhas mãos.
NILCE E SILVA ADRIANO
Benzedeira de Porto Alegre, 79 anos
Canal das bênçãos de Deus
A benzedeira reforça que boa parte dos casos que atende são de crianças com o chamado "quebrante", que é uma agitação para dormir, "cobreiros", dores no corpo ou, então, alguém que está se sentindo indisposto, com energia baixa. Muitas vezes, a atenção despendida para o aflito e algumas palavras de carinho, acredita Nilce, são tão importantes quanto o ritual em si.
— Atendo aqui pastores evangélicos, padres, batuqueiros, espíritas, médicos, psicólogas, professoras. Eu pergunto do que a pessoa vem em busca e, então, ela derrama as suas dores. Na maioria das vezes, eu não sei quem é, de onde veio. Mas Deus sabe tudo e ele botou a graça nessas minhas mãos. E o meu dom é ser um canal das bênçãos Dele — explica Nilce, que sempre termina seus atendimentos com um caloroso abraço.
Bênçãos em alemão
Aos 84 anos, Frida Schons Tavares lembra como se fosse ontem a primeira vez em que benzeu alguém. Há mais de sete décadas, quando trabalhava em um armazém em Poço das Antas, sua cidade natal, no Vale do Taquari, entrou porta adentro uma mãe carregando sua filha pequena nos braços. Ela pedia por uma reza para que a criança voltasse a ter energia e apetite. Munida de um galhinho de arruda e um copo d'água, não pensou duas vezes e fez tudo o que havia aprendido com sua mãe, a alemã Ilda Schons.
— Na volta para casa, a criança já tinha dito que estava com fome. Funcionou. Foi uma sensação incrível. Depois disso, nunca mais parei — conta Frida, que mora em Canoas, na Região Metropolitana, enfatizando que a benzedura é uma mistura de dom com aprendizado.
A rezadeira é referência no bairro Mathias Velho, sendo requisitada por muitos vizinhos. Relata que gente de outras cidades também viaja até a sua casa procurando por suas benzeduras, que trazem uma particularidade:
— As rezas saem da minha boca em alemão, que foi como eu aprendi. Não planejo o que vou dizer. Só vai saindo. E, na hora, só peço coisas boas. Também consigo ver tudo o que a pessoa tem de ruim olhando para o copo d'água. E conto tudo, sou muito franca. Às vezes, se assustam, mas não posso mentir.
Às vezes, quando a pessoa está com muita energia ruim, eu absorvo, fico um pouco tonta, mas logo passa. Vale muito a pena.
FRIDA SCHONS TAVARES
Benzedeira de Canoas, 84 anos
"Nunca fico cansada de ajudar os outros"
Hoje, ela entende que seus saberes para benzeduras vão se perder quando morrer, pois não conseguiu passá-los adiante, visto que tudo que aprendeu foi em alemão. Precisaria de alguém que domine a língua para absorver os ensinamentos. Por isso, quem bate em sua porta, de segunda a sábado, não sai de lá sem as bênçãos:
— Não se nega benzimento para ninguém. A sensação de estar benzendo é incrível. Às vezes, quando a pessoa está com muita energia ruim, eu absorvo, fico um pouco tonta, mas logo passa. Vale muito a pena. Nunca fico cansada de ajudar os outros. Na verdade, só vou ficando mais cheia de energia e com a saúde sempre boa. Vou seguir por muito tempo.
Cortando energias ruins
"Há mais mistérios entre o céu e a terra do que a vã filosofia dos homens possa imaginar." Enquanto se prepara para benzer, Maria Conceição da Rosa, 69 anos, parafraseia a célebre frase de Hamlet sem nunca ter lido a obra de Shakespeare.
Ela vai buscar as suas ferramentas, simples, mas que acredita serem muito poderosas: água, que representa a pureza; um galho de arruda, que simboliza a conexão com a natureza; e uma tesoura antiga, para cortar as energias ruins. Ela está pronta para atender quem bate palmas na frente de seu portão, em São Leopoldo, na Região Metropolitana.
Em sua casa, montou um pequeno consultório, rodeado de imagens que traduzem o sincretismo religioso deste universo, que não está ligado a apenas uma crença. No seu cantinho, a observam de padres católicos a pretos velhos. Ela atende de jaleco branco, como uma médica espiritual. Além das rezas, também oferece terapias alternativas, como Reiki e massagens.
— Mãe será sempre mãe, né? As santas sempre serão referenciadas, e nós, mulheres, temos essa condição de cuidar dos nossos filhos. Então, por que não seguir? A maioria das pessoas que fazem as benzeduras são mulheres, né? São poucos homens. Não é porque o homem não gosta. Eles também têm a preparação deles, mas nós, mulheres, temos a preparação do tempo — avalia a rezadeira.
Estou disposta a ensinar, mas não vejo os jovens querendo aprender (o trabalho de benzer).
MARIA CONCEIÇÃO DA ROSA
Benzedeira de São Leopoldo, 69 anos
Aprendizado com a mãe
Maria Conceição foi apresentada ao mundo das rezas justamente por sua mãe, Aldina Vieira da Rosa, que era uma benzedeira muito conhecida em Canela, na Serra. Hoje, a filha atende crianças, adultos e animais, mas também leva as suas bênçãos para casas e empresas que precisam de uma limpeza de energias ruins.
— Se tu chegares com fé, simplesmente vais sair e dizer: "Meu Deus, como me aliviou". Quando estou benzendo, peço que aquela energia carregada seja transmutada, levada para o espaço. São forças que, muitas vezes, a gente não conhece. Então, que vá para bem longe daqui — explica Maria Conceição.
Ela também teme que seus saberes sejam perdidos com o tempo:
— Acredito que se a juventude não se interessar, as benzedeiras podem se extinguir. Estou disposta a ensinar, mas não vejo os jovens querendo aprender. Os nossos velhos já se foram e levaram muitos dos seus segredos.
Uma nova geração
Fernanda da Silva Fagundes, 48 anos, é funcionária pública e coordena o programa Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) de Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana.
Essa iniciativa oferece à comunidade abordagens terapêuticas, como imposição de mãos, acupuntura, aromaterapia, meditação e ioga. São formas de tratamento auxiliares à medicina, oferecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Só que, além disso, Fernanda carrega consigo a herança espiritual de seus avós maternos, Reinoldo e Maria Glória da Silva, de Roca Sales, no Vale do Taquari. Ambos eram benzedeiros. Hoje, depois dos atendimentos das PICS, que ocorrem sempre às segundas-feiras no Centro Administrativo Primavera, em Sapucaia, a funcionária pública oferece benzimentos para quem quiser.
— Que tempo que eu tenho para benzer? Trabalho, estudo, cuido de filho, da minha vida. Também tenho que ter um lazer. Então, tive que achar uma hora para benzer. E foi aqui, como um complemento para as PICS. Antigamente, as mulheres não podiam trabalhar e estavam sempre em casa para benzer. Hoje, isso mudou, mas os saberes não podem se perder. Tudo se moderniza — garante Fernanda.
Essa atualização se traduz, por exemplo, em benzeduras realizadas por telefone. Nessa modernização, as pessoas passam seu nome, e as rezadeiras fazem as preces a distância. Também existem grupos sobre o tema no Facebook para quem procura por benzedeiras para aplacar enfermidades ou aprender sobre as práticas ancestrais.
Antigamente, as mulheres não podiam trabalhar e estavam sempre em casa para benzer. Hoje, isso mudou.
FERNANDA DA SILVA FAGUNDES
Benzedeira de Sapucaia do Sul, 48 anos
Reflexo da miscigenação do Brasil
Muito ligada à sua ancestralidade moçambicana, Fernanda criou um evento anual para reunir benzedeiras e entender quantas existem nas suas proximidades — afinal, não existe um mapeamento.
A segunda edição do Encontro de Benzedeiras — Benzer É Bendizer foi realizada no dia 25 de julho na Estação Cidadania-Cultura, em Sapucaia do Sul, reunindo mais de 800 pessoas, buscando manter vivas as tradições, a oralidade e as práticas populares.
De acordo com Fernanda, é importante ressaltar que a benzedura vem de uma mistura que nasceu entre os indígenas, mas veio mesclando outras culturas, sendo um reflexo da miscigenação do Brasil.
O ritual, então, é um equilíbrio entre o espiritual e o mental, com a cura sendo encontrada a partir desse alinhamento — e, claro, a procura de um médico. A fé contribui, mas ela trabalha alinhada com a ciência.
Bênção não substitui tratamento
Se as benzedeiras consideram de extrema importância que o enfermo vá a um consultório médico e fale com um especialista antes de ir atrás de rezas, os profissionais da saúde reconhecem que a cultura popular e a religiosidade contribuem para a cura.
Para médica de família e comunidade Maria Amélia Mano, que atua na Gerência de Atenção Primária à Saúde do Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, toda prática de cuidado que ofereça fé e esperança é útil para a recuperação. O que não pode, adverte ela, é uma prática complementar barrar o uso de remédios receitados por médicos, por exemplo.
— Em algum momento, a medicina dita científica perdeu algo importante, que é perguntar para as pessoas sobre as suas crenças, sua esperança, sobre como elas podem ter algum tipo de conforto. Acho que a gente tem que retomar isso. Entender o que mais as pessoas fazem para diminuir suas dores, sejam elas emocionais ou físicas. Se isso for consultar uma benzedeira, esse cuidado é fundamental — observa a médica.
Para Ricardo Nogueira, diretor e coordenador do Núcleo de Psiquiatria do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), a fé é um importante aliado na recuperação de um enfermo, pois traz esperança, e isso ajuda no tratamento.
— A falta da fé é um grande problema: gera tristeza e depressão. E quando o paciente se deprime, ele não reage, se desanima e não segue o tratamento adequadamente — enfatiza o médico. — É comprovado em trabalhos científicos que os pacientes que têm fé melhoram mais rápido.
Critérios técnicos e evidências científicas
Em nota, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) afirma respeitar as diferentes manifestações culturais e religiosas presentes na sociedade: "A fé e a espiritualidade podem representar uma importante fonte de apoio e conforto para muitos pacientes durante o processo de adoecimento".
A instituição reforça, no entanto, que "o diagnóstico de doenças, a indicação do tratamento e o acompanhamento da evolução clínica são atos privativos do médico, conforme estabelece a legislação que regulamenta o exercício da Medicina". O Cremers também destaca que "diante de qualquer sinal ou sintoma, a orientação é procurar avaliação médica".
O documento conclui: "Eventuais práticas complementares jamais devem retardar o diagnóstico ou o tratamento, que devem ser conduzidos com base em critérios técnicos, evidências científicas e na avaliação do médico responsável pelo paciente".


