No ambiente acanhado e de baixa luz, o hit ressoa forte dos amplificadores, o vocalista convoca o público a cantar o refrão, duas mulheres na pista trocam um abraço apertado, dão as mãos, pulam, apontam o indicador para o alto e extravasam:
— IT'S MY LIFE/ IT'S NOW OR NEVER/ I AIN'T GONNA LIVE FOREVER! ("É a minha vida/ É agora ou nunca/ Não vou viver para sempre!", em tradução literal.)
É início de agosto e a banda que habilmente encena o clássico de Bon Jovi no estreito palco é a Riffmaker, especializada em covers daquilo que há de melhor no rock'n'roll entre os anos 1970 e 2000.
As 180 pessoas que dançam e cantam no Divina Comédia Pub, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, estão em larga maioria na faixa etária dos 40+. Elas são, hoje, a sustentação de uma reduzida, mas resistente e apaixonada cena de bares de rock na Capital.
Em um cenário de aparente arrefecimento do gênero, a memória afetiva ajuda a explicar a busca pelos ambientes.
— Sempre é mais legal estar no meio dos seus. É a questão do pertencimento, do estilo de som, das pessoas. E tem a nostalgia — afirma Guy Antonioli, vocalista da Riffmaker.
Público procura qualidade na experiência
O motorista de caminhão Amilton Brzezinski, 54 anos, que reside em Eldorado do Sul, na Região Metropolitana, é cliente do Divina Comédia há oito anos e frequenta o pub todos os finais de semana.
— É uma segunda casa. Me identifiquei e fiz amizades aqui dentro. Tivemos uma explosão do rock gaúcho nos anos 1980, e isso a gente não tem mais. Aqui resgatamos todas as épocas — esbalda-se Brzezinski, fã de Deep Purple, Led Zeppelin, Black Sabbath e AC/DC.
Embora não exista uma estatística oficial, é possível afirmar que são poucos os bares dedicados ao rock em Porto Alegre. Nem todos jogam somente com a lembrança dos solos de guitarra e dos refrões grudentos. O Fora da Lei Pub, na Zona Norte, agrega outros elementos para fidelizar um público maduro.
— As cervejas artesanais são frescas, o espaço é confortável e a gastronomia vai do hambúrguer à parrilla. O nosso público, em maioria 40+, procura qualidade na experiência, com foco no rock — afirma Eduardo Paiva, sócio do Fora da Lei.
Preferência pelas bandas cover
A representação de clássicos consagrados do rock é a aposta predominante dos bares do gênero. Existe uma explicação simples e objetiva para isso.
— O cover vende mais. Toca aquilo que foi sucesso no mundo inteiro — comenta Marcelo Cabral Corrêa, o Seco, proprietário do Divina Comédia. — O fã de 40+ é do rock clássico, do heavy metal, do hard rock. O saudosista busca isso. A banda autoral tem a dificuldade de mostrar um trabalho novo que a maioria não conhece — acrescenta.
Um dos aspectos que impulsionam os tributos é a qualidade dos grupos intérpretes. Ensaiadas e com músicos de técnica refinada, alguns deles professores nos seus instrumentos, as bandas acrescentam a presença de palco: performances com devoção, agressividade, cabelos esvoaçantes e conexão com o público.
— Nós não somos o Metallica, mas, como fãs, tentamos agradar outros fãs. Acho que isso cativa — avalia Jonathan Carletti, vocalista e guitarrista da Penttagrama, cover da banda norte-americana. — O principal é entregar energia. O público quer sentir e compartilhar a paixão. Se fosse só pela composição, ele escutaria o CD — completa.
Matando a saudade dos grandes clássicos
No dia 15 de agosto, a banda de Carletti foi atração do Ipa Day, festival que mesclou o gosto pela cerveja artesanal com o heavy metal no Fora da Lei, reunindo 750 pagantes. O custo médio do ingresso foi de R$ 75.
A Penttagrama apresentou um enérgico show, com 16 músicas do Metallica, executadas com fidelidade ao original.
— Os músicos que estão tocando rock'n' roll não são os mais bem pagos. Eles fazem porque amam. O nível é excelente — diz Seco, do Divina Comédia.
Paiva, do Fora da Lei, conta serem rotineiros os retornos positivos sobre os artistas que passam pelo palco de seu bar:
— O pessoal fica impressionado e diz: "A voz do cara (vocalista da banda cover) é igual à do cantor oficial".
Além da qualidade e do pertencimento, a oportunidade de matar a saudade dos grandes clássicos perto de casa, mediante ingresso a preço acessível, sem ter de esperar anos por um novo megashow em Porto Alegre, são fatores que explicam a adesão do público às festas com bandas intérpretes, dizem os envolvidos na cena.
Tentativa de mudança de rota
Donos de bares rock, em geral, abriram os estabelecimentos por serem apaixonados pelo gênero, mas a sustentabilidade do negócio também pesa.
A realidade provocou adaptações na trajetória do Espaço Marin, no bairro Sarandi, em Porto Alegre, inaugurado com a pretensão de ser um palco exclusivo do rock.
Bandas e artistas gaúchos de destaque, como Comunidade Nin-Jitsu, Ultramen e Wander Wildner, já passaram pelo Marin. A sucessão de shows do estilo, contudo, causou saturação.
— A ideia sempre foi só rock, mas não conseguimos. Não tinha público para encher todos os dias. A casa não é grande, mas também não é pequena (430 lugares). Colocamos por um tempo mais pagode, sertanejo, e agora voltamos a dar ênfase para o rock. Percebemos que o público retomou maior interesse — diz Guilherme Marin, sócio do bar, reconhecido pela qualidade de som, iluminação e adaptação de acomodações para o público 40+, com camarotes e praça de alimentação.
Recentemente, o Marin registrou bom público tanto em covers — como as atrações Nu Metal Experience Tour e Bruno Sutter Executa 50 Anos de Iron Maiden — quanto em shows de bandas underground do rock-metal europeu.
Palco para bandas autorais
O Caos Bar, na Cidade Baixa, vai na contramão das demais: é uma casa aberta preferencialmente para as bandas locais, autorais e independentes — em geral, aquelas que não dispõem de gravadora nem de investimento em divulgação.
Um dos ápices do Caos aconteceu no dia 26 de julho, quando cerca de 300 pessoas compareceram a dois shows subsequentes da banda punk argentina Boom Boom Kid, cultuada no underground. Mas, pela cartilha do bar, o palco também é aberto para grupos iniciantes e desconhecidos.
— Música autoral é difícil. Muitos dos shows locais dão prejuízo. A realidade nos obriga a abrir para festas góticas e rap, também demandas do underground. Do ponto de vista da sobrevivência, as festas dão retorno melhor — comenta Diego Dresch, proprietário do Caos.
Em busca de estabilidade, mas sem abrir mão da primazia das bandas autorais, ele tenta firmar as quintas-feiras como dias de shows cover, com homenagens a deuses como Nirvana, Pearl Jam e Ramones.
Público vai dos quietos aos que pulam e dançam
A luz verde intensa ilumina a pista e o palco do Espaço Marin, o clima romântico ganha o ambiente, casais colam os corpos e dançam devagarinho no ritmo da balada Codinome Beija-Flor, interpretada pela banda tributo Cazuza para Sempre.
— Pra que mentir/ Fingir que perdoou/ Tentar ficar amigos sem rancor/ A emoção acabou/ Que coincidência é o amor/ A nossa música nunca mais tocou — cantou o público do Marin em noite de 360 ingressos vendidos até a abertura da casa, ao custo médio de R$ 60, no dia 14 de agosto.
O fato de estar em um bar de pequeno ou médio porte, diante de músicos que não são os originais, não abranda o fervor de parte dos frequentadores.
— Músicas lentas tocam de uma maneira diferente — diz Carletti, da banda Penttagrama. — Em Nothing Else Matters (balada do Metallica), gosto de fazer o início só com guitarra e voz. E deixo para o público cantar uma parte. Isso conecta, e as pessoas ficam felizes, motivadas e emocionadas — explica.
Guilherme Marin, sócio do bar que leva seu sobrenome, já presenciou situações em que renomadas bandas gaúchas ouviram muxoxos do público ao anunciar a intenção de apresentar material novo.
— O pessoal quer ouvir o que está acostumado para poder cantar junto — diz o empresário.
Vocalista da Riffmaker e também da Prowlers, cover da lendária Iron Maiden, Guy Antonioli descreve um perfil variado de frequentadores.
— Encontramos todos os estilos. O cara que fica quietão na mesa, a galera que conversa e não dá muita bola para o show, o pessoal que dança, pula, canta e bate cabeça. Até roda punk já vi — comenta o cantor.
Frequentadores são fiéis

Outra característica marcante do público, confirmada por empresários e artistas do ramo, é a fidelidade. A avaliação é de que os apaixonados pelo rock estão carentes de palcos. E, por isso, valorizam os que mantêm os amplificadores urrando.
— Temos um público menor, porém mais fiel. O pessoal faz questão de frequentar para te apoiar no projeto — diz Paiva, do Fora da Lei, que recebe apelos dos clientes para que jamais ouse fechar o rock bar.
Embora engajada, a maioria do público passou dos 40 anos, alguns estão acima dos 50 ou 60, e isso significa obrigações e impedimentos. O comparecimento às festas, apesar de recorrente, se torna mais espaçado.
— O pessoal tem a vida estruturada, com filhos, família e compromissos. Eles não conseguem ser tão assíduos como foram quando eram mais jovens — avalia Seco, do Divina Comédia.
Presença de famílias nos shows
Dresch, do Caos, afirma que a pressão financeira leva parte dos frequentadores a terem de escolher "o show do mês".
— E tem a idade. A gente brinca que a ressaca bate diferente depois dos 40. O cara não fica mais de ressaca, fica doente — diverte-se Dresch, citando limitações físicas para sair à noite e trabalhar no dia seguinte.
Entre outras facetas do perfil do roqueiro de 40+, Paiva menciona a recorrente presença de famílias nos shows, envolvendo pais e filhos, em uma chama de renovação. Uma galera amadurecida que não demonstra, diz ele, nenhuma pré-disposição para confusões.
"O show tem que continuar"
A pista do Espaço Marin fervilhava com os clássicos de Cazuza quando faltavam apenas duas músicas para encerrar o show. Depois, ainda se apresentariam tributos a Capital Inicial e Legião Urbana, em noite de rock nacional.
O vocalista Marco D'Lacerda, da Cazuza para Sempre, anunciou que o espetáculo estava no fim quando caiu o fornecimento de energia elétrica na região. A luz demorou a voltar, e o evento teve de ser transferido para o dia 16 de outubro, com a utilização dos mesmos ingressos.
Um sujeito inconformado entrou no banheiro, parou diante do mictório e tascou:
— O show tem que continuar só com voz e violão, iluminação com isqueiro e palito de fósforo. Quando foi na nossa época que nos mixamos pra isso?
"O rock é alma pra mim"

Para Jonathan Carletti, da Penttagrama, os pequenos e médios palcos de Porto Alegre "são importantes para manter o rock vivo como uma comunidade de pessoas, e não só na internet consumindo conteúdo".
Guy Antonioli, da Riffmaker, busca razões existenciais para explicar a relevância dos bares do estilo.
— Se morasse numa cidade sem casas como essas, eu seria muito mais triste. É importantíssimo que elas ainda existam para que pessoas como eu sejam mais felizes — professa o vocalista.
Vanessa Oliveira Kaminski, 51 anos, vestiu camisa do Metallica para curtir junto de amigas o Ipa Day, no Fora da Lei Pub. Ela menciona o fato de não conhecer a maioria das centenas de pessoas que estavam no bar no dia 15 de agosto, mas, ao mesmo tempo, relata uma curiosa sensação de que todos ali se conhecem e têm alguma conexão.
— O riff de uma guitarra, eu sinto como se fosse o sangue correndo. É inexplicável. Em palavras eu não sei dizer, mas o rock é alma pra mim — declara.
Queda comercial não afeta relevância do gênero
Existe a percepção de que o público do rock se reduziu, seja em vendas de discos e produtos ou audições em plataformas digitais como o Spotify. Ao mesmo tempo, um paradoxo: o gênero e suas bandas consagradas ainda estão entre as que mais lotam estádios mundo afora.
Surgem grupos novos, alguns incrementando elementos ao som, como o eletrônico e o rap, mas parte dos fãs tradicionais torce o nariz para as novidades.
Para Ricardo Finocchiaro, proprietário da Abstratti Produtora, responsável por trazer diversos shows a Porto Alegre, o rock perdeu relevância comercial. Contudo, ele afirma que o estilo é "inquebrável" como expressão cultural.
— O rock está voltando às origens, que é o underground. Penso que terá, ao longo dos anos, similaridade com a música clássica: continuará sendo escutado e estudado, despertando interesse, mas com menor apelo comercial — analisa Finocchiaro.
Bares de rock em Porto Alegre
Confira casas que abrem o palco para o estilo:
- Bar do Alexandre EPEC (Rua Miguel Teixeira, 189 — Cidade Baixa)
- Bar Ocidente (Rua João Telles, esquina com Av. Osvaldo Aranha — Bom Fim)
- Bárbaros Cervejas Especiais (Rua Ramiro Barcelos, 1.792 — Bom Fim)
- Caos Bar (Rua João Alfredo, 701 — Cidade Baixa)
- Divina Comédia Pub (Rua da República, 649 — Cidade Baixa)
- Espaço Marin (Rua Professora Cecy Cordeiro Thofehrn, 413 — Sarandi)
- Fora da Lei Pub (Av. Assis Brasil 1.116 — Passo d'Areia)
- Gravador Pub (Rua Ernesto da Fontoura, 962 — São Geraldo)
- Hard Rock Cafe Porto Alegre no Pontal Shopping (Av. Padre Cacique, 2.893 — Praia de Belas)
- Nove Dois Gastro Pub (Rua Silva Jardim, 92 — Auxiliadora)
Festa mensal de rock
- Rock N' Bira Open Bar, no Opinião (Rua José do Patrocínio, 834 — Cidade Baixa)





