— Ô pai, eu queria te contar do dia em que você se infiltrou numa máfia boliviana pra descobrir como é que funcionavam os trabalhos escravos aqui no Brás, em São Paulo.
— Eu fiz isso?!
Com diálogos como esse, a filha do fotojornalista gaúcho Antônio Gaudério tem viralizado nas redes sociais ao contar para ele próprio — e para o mundo — as peripécias que envolvem cada uma das suas fotografias. Há quase 20 anos, ele sofreu um acidente doméstico, bateu a cabeça e perdeu totalmente a memória.
Tudo começou há cerca de oito anos, quando Ana Aurora Borges, hoje com 31 anos, estava no fim da graduação em Letras e almejava ingressar em um mestrado sobre o tema de que mais gostou durante a faculdade: crônicas de denúncia, um gênero que envolve textos curtos que usam fatos do dia a dia para expor questões como injustiças sociais, abusos de poder e problemas urbanos.
— Aí me veio um insight: acho que tem alguém bem pertinho de mim que tem crônicas de denúncia maravilhosas — recorda Ana Aurora, em entrevista a Zero Hora.
Esse alguém, claro, era o pai dela. Essas crônicas, porém, vinham na forma de imagens, e não de textos.

Conexão com o "pai antigo"
Foi aí que Ana Aurora mergulhou nos arquivos de Gaudério. Entre caixas e mais caixas de negativos, filmes e disquetes, encontrou uma "mina de ouro".
— Parei tudo o que eu estava fazendo com crônicas de denúncia e falei: tá, eu tenho aqui um acervo muito interessante, mas que não tem mais caráter de notícia. O que ele é, então? Mofo? Algo jogado no esquecimento? Não é possível que seja só isso — conta a jovem.
Ana Aurora foi, então, estudar sobre história do fotojornalismo em um curso sobre artes visuais. Ali, entendeu que o que um dia foi notícia pode, depois, se tornar uma obra de arte — e descobriu uma fonte inesgotável de assuntos com o pai dela.
— Se nós somos as nossas experiências, os nossos traumas, quem a gente é quando perde todas as lembranças? Resgatar essas histórias foi uma forma de me conectar com o meu pai antigo. Eu amo muito o meu novo pai, mas também tinha muita saudade do anterior, e ali eu consegui colocar os dois para conversar — relata a filha.
Privilégio de ser curador da própria obra
A redescoberta do próprio trabalho iniciou com um estranhamento do autor em relação à obra e, aos poucos, passou a ser uma forma de conhecer a própria jornada.
Pai e filha resolveram criar um perfil no Instagram para Gaudério, no qual ele assumiu a figura de curador, escolhendo fotografias a serem publicadas quase diariamente.
— O artista contrata um curador porque ele tem um distanciamento em relação à obra. O meu pai tem esse distanciamento. Então, ele tem o privilégio de ser o próprio curador — observa Ana Aurora.
De meia dúzia de curtidas nas redes sociais, as fotos publicadas passaram a ganhar mais atenção com o tempo.
Além das imagens, a jovem começou a fazer outra coisa: postar vídeos em que conta as histórias daquelas fotografias para o autor delas. As publicações somam milhares de curtidas no Instagram e no TikTok.

Melhora na memória recente
Para além de mostrar às novas gerações as fotografias de Antônio Gaudério, o trabalho de curadoria gerou uma mudança drástica cognitiva no fotojornalista, que hoje tem 68 anos.
— Meu pai tem sequelas importantes até hoje e, provavelmente, terá para sempre. Mas, no momento em que passamos a ter a missão de acordar todos os dias para uma função, aquilo deu para ele uma função cognitiva surreal: ele teve uma melhora muito grande na memória recente, na conversação, na interação. Foi muito especial — lembra a filha.
As histórias das fotografias são resgatadas a partir dos relatos de profissionais que trabalharam com Gaudério em veículos como Diário Catarinense e Folha de S.Paulo. E a busca segue: ainda há muito material cuja origem é um mistério que a dupla ainda pretende desvendar.
Nunca posso perder o foco de que o cerne disso é o resgate da memória.
ANA AURORA BORGES
Filha do fotojornalista Antônio Gaudério
Fotojornalista voltou a falar "gauchês"
Conforme aprendia tudo de novo na sua vida, um aspecto pegou de surpresa a família de Gaudério: o fotojornalista, criado em Santo Antônio das Missões, na região das Missões do Rio Grande do Sul, mas radicado há décadas em São Paulo e convivendo diariamente com a família formada por paulistas, resgatou o sotaque gaúcho quando reaprendeu a falar.
— Tem coisas que não se explicam. A gente morava em São Paulo, o fonoaudiólogo era paulista, o sotaque de toda a família era paulista, e ele voltou a falar "gauchês", não só foneticamente, mas com todo o vocabulário. Ele não fala "bêbado", fala "borracho". Não fala "cachorro", fala "guaipeca". E ninguém explica o porquê — comenta Ana Aurora.
Apesar das tentativas da filha de torná-lo corintiano, não teve jeito: o time do coração seguiu sendo o Grêmio. O chimarrão foi das primeiras coisas que reaprendeu a fazer quando conquistou mais autonomia, e hoje é seu companheiro diário.
História vai virar documentário
Se Gaudério perdeu a memória sobre o passado, ele e Ana Aurora vêm construindo um futuro cheio de potenciais.
No ano passado, uma exposição em São Paulo exibiu fotografias escolhidas por ele. Atualmente, um documentário está sendo gravado, com a promessa de contar a história do fotojornalista. Filmes, livros e palestras também estão no radar da dupla. O que mais importa, no entanto, é outra coisa, segundo a filha:
— Nunca posso perder o foco de que o cerne disso é o resgate da memória. Daqui a 20 anos, espero que o acervo do meu pai siga servindo para a pesquisa, a ampliação e o resgate da memória: tanto a dele quanto a do Brasil.




