O destino do complexo de 1,2 mil hectares que abrigou o Hospital Colônia Itapuã, às margens da Lagoa Negra, em Viamão, permanece indefinido após o esvaziamento gradativo e encerramento oficial de suas atividades em 2024.
Criada há 80 anos para o isolamento compulsório de pacientes com hanseníase, a estrutura em que chegaram a viver mais de 2,4 mil pessoas, a cerca de 70 quilômetros de Porto Alegre, hoje é objeto de processos burocráticos que se arrastam desde 2021.
O impasse envolve três secretarias do governo do Estado, resultando na deterioração do patrimônio histórico local, que inclui uma igreja tombada e um memorial — onde uma equipe trabalha para catalogar o que resta do espaço.

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O tamanho do impasse
A indefinição sobre a gestão da área decorre de uma cadeia de trâmites burocráticos internos do Executivo estadual.
A Secretaria da Saúde (SES), atual gestora, confirmou que não manterá o local, mas a devolução formal da área à Secretaria de Planejamento depende da conclusão de processos administrativos. Por sua vez, a pasta do Planejamento informou que o desenho de projetos para o futuro do complexo ocorrerá apenas após o recebimento oficial do imóvel.

Paralelamente, a Secretaria de Habitação conduz tratativas para a destinação de uma parte do terreno à comunidade indígena guarani Tekoa Pindó Mirim como reserva. Os limites geográficos da demarcação, contudo, ainda não foram estabelecidos.
O perímetro concentra outros pontos de fricção: o funcionamento da Escola Municipal Frei Pacífico e a necessidade de um estudo técnico para delimitar o que seria integrado ao território indígena e o que permaneceria sob a tutela do Estado.
Por fim, um dos imóveis da antiga comunidade, a Igreja Evangélica, foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae) em 2010. Apesar da proteção legal, o edifício projetado em 1948 pelo arquiteto Theo Wiederspahn — responsável por obras icônicas do Estado, como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e a Casa de Cultura Mario Quintana — apresenta sinais severos de abandono: os vitrais estão quebrados, o assoalho desabou e uma parte do telhado despencou.
— A igreja encontra-se bastante deteriorada e necessita de restauração urgente, tema que vem sendo tratado com o Estado, mas sem avanços significativos até o momento — alerta Roberta Morillos Teixeira, promotora responsável pelos processos envolvendo o imbróglio no MP-RS.
Procurado, o Iphae informou que trabalha na elaboração de um projeto de restauro para a estrutura, mas não apresentou um cronograma ou prazo definido para o início das obras.
Zero Hora tentou acesso ao local, mas não foi autorizada. A restrição partiu do Departamento Administrativo da SES e do Departamento de Gestão dos Hospitais Estaduais, que, por motivos de segurança, permitiram apenas acesso ao memorial e à área externa ao antigo pórtico da comunidade.
Catalogação do acervo
Criado pelos próprios moradores e funcionários em 2014 para preservar a história da instituição e de seus internos, o Memorial do Hospital Colônia Itapuã reúne objetos que ajudam a contar a história da comunidade.
Para garantir que o patrimônio não se perca, uma equipe de quatro pessoas, liderada pela museóloga Camila Casarotto, servidora da Secretaria Estadual da Saúde (SES), executa um "arrolamento" — um inventário emergencial que serve de base para a preservação legal do acervo.
O trabalho coordenado por Camila consiste em identificar, mapear e numerar individualmente cada peça do Memorial, que inclui objetos, fotografias, documentos médicos, vestuários e maquinários.
Trabalham ainda no local outra bacharel em museologia, Klara Maciel Albarenque, o fotógrafo Fernando Pires e a estudante de museologia Luísa Guadalupe de Souza.
Em razão da ausência de energia elétrica, os trabalhos precisam ser feitos em dias de tempo bom sob luz natural. Mais de 4,5 mil itens já foram catalogados. A previsão de conclusão é até o final de 2026.
Desse trabalho, surgiram objetos curiosos, como uma máquina em formato de cofre para esterilizar correspondências, moldes de sapatos (dado que os pacientes não podiam fazer compras) e moedas que eram usadas exclusivamente nos estabelecimentos dali, apartados do sistema econômico vigente no país.
Segundo a museóloga, o procedimento cumpre uma exigência legal do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), mas funciona primordialmente como uma ferramenta de salvaguarda.
— O arrolamento é o início de um processo de catalogação mais completa. Fazemos esse grande mapeamento do que existe para, a partir deste primeiro passo, garantir o cuidado e a preservação do acervo, visando em algum momento torná-lo público e acessível para a sociedade — explica Camila.
Um dos principais desafios metodológicos da equipe está em diferenciar a natureza das peças. Na catalogação atual, os técnicos dividem os itens em três categorias:
- Objetos-testemunho: peças originais que fizeram parte do cotidiano, do trabalho e do tratamento de saúde dos internos
- Objetos cenográficos: itens integrados posteriormente para criar uma ambientação e ajudar a contar a narrativa do hospital
- Painéis expositivos: elementos de informação visual e fotográfica que contextualizam a vida naquela comunidade.
Para refinar essa distinção, a intenção da equipe é ouvir pessoas que participaram da montagem original do Memorial, resgatando a memória do próprio museu.
Sinais de deterioração e "conservação preventiva"
Mesmo no memorial, o fechamento prolongado do espaço para visitação pública acelerou o desgaste natural dos materiais. Camila relata que pragas urbanas, como cupins, já afetam as estruturas de madeira, enquanto a umidade oxida maquinários de ferro e mancha documentos em papel.

A contenção de danos maiores tem sido feita por funcionários do Estado que realizam rotinas básicas de manutenção predial, como a contenção de goteiras e a ventilação das salas.
— Eles fazem o que na museologia chamamos de conservação preventiva. Esse cuidado básico de abrir as janelas, deixar o ar entrar e higienizar o chão é superimportante e tem contribuído diretamente para que o acervo ainda esteja em condições de ser salvo — pontua.
Na avaliação do MP-RS, as condições atuais de trabalho no local e preservação do material do memorial são adequadas e acompanhadas por profissionais especializados. O destino definitivo do acervo, no entanto, segue em aberto.
Para a historiadora do MP-RS, Cintia Vieira Souto, o local enquadra-se na categoria de "memória sensível", sob risco de apagamento caso não haja intervenções de restauro.
Trata-se de um complexo confinou centenas de pessoas — em prática hoje contestada pela medicina e pelos direitos humanos —, mas também foi o espaço onde os internos estabeleceram vínculos sociais, casamentos e dinâmicas comunitárias isoladas do restante da sociedade.
A sociedade deve a eles e a si mesma a preservação de sua memória com a restauração da igreja luterana tombada pelo Iphae e com a preservação do memorial. Qualquer que seja a destinação dada ao complexo, pelo menos esses dois ambientes devem estar incluídos
CINTIA VIEIRA SOUTO
Historiadora do Ministério Público do RS
História do Hospital Colônia
Fundado em 1940 pelo governo do Rio Grande do Sul na antiga fazenda Lagoa Negra, em Viamão, o Leprosário Itapuã foi criado para o isolamento compulsório de pacientes com hanseníase de todo o Estado.
A estrutura inicial, projetada para abrigar até 500 doentes, contava com dezenas de casas, além de hospital, refeitório e estruturas religiosas sob administração das Irmãs Franciscanas.
Para conter a transmissão da doença, o complexo era dividido em três setores, que separavam funcionários e doentes entre a chamada "área limpa" e a "área suja", mantendo uma dinâmica comunitária segregada e com comunicação restrita e à distância do mundo exterior.

A realidade do local começou a mudar a partir de 1949 com a chegada da Dapsona, medicamento que estagnava o avanço da doença e permitiu as primeiras altas hospitalares. O gradual esvaziamento dos internos de hanseníase a partir da década de 1970 abriu espaço para que o complexo, rebatizado como Hospital Colônia Itapuã, passasse a acolher pacientes psiquiátricos.
Em 2007, o Brasil se tornou o segundo país (após o Japão) a aprovar uma lei que estipulou pagamento de pensão vitalícia aos hansenianos que foram segregados da sociedade. Em 2022, 4.725 brasileiros ainda recebiam R$ 1.831 por mês do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Após abrigar mais de 800 internos em seu período de pico, a instituição encerrou esse ciclo histórico com a saída de todos os pacientes da ala psiquiátrica e a permanência de apenas cinco antigos pacientes de hanseníase até o final de 2023. No ano seguinte, o hospital enfim foi desativado.
Produção: Caroline Goulart*
*Estudante de jornalismo sob orientação e supervisão de Caue Fonseca



