O cantor nativista César Oliveira, 56 anos, dupla com Rogério Melo, comprou um chapéu da marca Cury há quase três décadas. A peça é bem específica: preta, couraçada, feita com pelo de lebre e tem aba de 13 centímetros. Tornou-se item essencial de sua indumentária. Quando viu que o fiel companheiro estava começando a sucumbir na briga contra o tempo, foi em busca de socorro. Encontrou Eder Souza, 36 anos, o Mestre do Sombrero.
— Eu tinha perdido totalmente as esperanças de encontrar um chapéu como o meu, porque não existe mais — lembra César. — Até que o Eder pegou e o ressuscitou. Ainda brinquei: "Tu és o Ivo Pitanguy dos chapéus (famoso cirurgião plástico brasileiro, morto em 2016)". Ele é que nem um restaurador de obra de arte.
O trabalho de Souza é justamente este: trazer de volta à plenitude chapéus que estão sujos, desgastados e até mesmo rasgados. Faz isso com dedicação única para cada peça que chega a sua oficina, em Guaíba, na Região Metropolitana, ou então nos rodeios dos quais participa pelo Estado nos finais de semana — em cada evento, chega a recuperar mais de cem peças.
— O chapéu faz parte do gaúcho. Às vezes, tem um corte, uma marca, ou está sujo, mal moldado, mas tu tens uma história com aquele chapéu e não queres te desfazer. Eu entro, então, com a parte da restauração — conta Souza.
Alguns clientes levam a ele chapéus que foram de antepassados:
— Aí, deixo a peça top. Eles ficam sem palavras, alguns choram, porque enxergam o chapéu novo, como viam na cabeça do avô ou do bisavô. É fenomenal.
Fogo no chapéu
O profissional realiza cada procedimento em seus "pacientes" de maneira artesanal, com ferramentas simples: taquinho de madeira, escova, lata de espuma limpadora, goma, linha, agulha, vaporizador de roupas, alargador de chapéu e isqueiro.
Sim, em alguns casos, é preciso colocar fogo na peça para uma limpeza mais profunda, com abertura dos "poros" e remoção de fiapos.
Entre os trabalhos feitos pelo Mestre do Sombrero, estão modelagem, higienização, impermeabilização, corte da aba, aplicação de goma, colocação ou troca de vincha (fita ou tira que contorna a copa do chapéu) e de barbicacho (cordão que prende o chapéu ao queixo).
Eles ficam sem palavras, alguns choram, porque enxergam o chapéu novo, como viam na cabeça do avô ou do bisavô.
EDER SOUZA, O MESTRE DO SOMBRERO
Restaurador de chapéus, 36 anos
Souza também vende chapéus, mas não os fabrica — adquire-os de uma fornecedora. Mas, claro, as peças levam o selo de confiança do chapeleiro.
Uma reforma mais simples leva uns 40 minutos. Uma mais complexa, cerca de duas horas. Os valores giram em torno de R$ 100. Para casos de chapéus muito danificados ou muito raros, que necessitam de cuidado extra, o tempo pode ser maior — e o custo também. Afinal, ele pega peças que variam de R$ 400 a mais de R$ 30 mil.
A formação de um "hat shaper"

Souza nem lembra quando foi a primeira vez em que esteve em um rodeio. Acredita que, pouco depois de nascer, seu pai, Delmar Souza, hoje com 56 anos, já o levou para o mundo dos cavalos. Cresceu nesse ambiente em que o chapéu sempre foi um dos destaques. Quando conseguiu um emprego, na juventude, não pensou duas vezes:
— Peguei meu primeiro salário e fui comprar um chapéu, que era o meu sonho, um Lagomarsino, que é fabricado na Argentina. Lembro que paguei R$ 380 na época, só que eu ganhava R$ 420. Ou seja, me sobraram R$ 40 para passar o resto do mês (risos). Isso era 2008 e tenho meu chapéu até hoje. É o meu companheiro.
Souza passou por outros empreendimentos antes de se dedicar à arte da chapelaria. Foi dono, inclusive, de uma agropecuária. No local, além de ração para os animais, decidiu vender pilchas gaudérias. Foi ali que começou, mesmo sem querer, a se tornar um hat shaper — ou seja, modelador de chapéus.
Como algumas peças chegavam amassadas ou desmoldadas dentro das caixas de transporte, começou a ajustá-las para deixá-las prontas para a venda. E pegou gosto pelo negócio. Amigos começaram a procurar seus serviços, um foi indicando para o outro e, pronto, já estava totalmente envolvido.
— Me estressava muito na agropecuária e, depois de um problema no coração, decidi fechar o comércio e me voltar totalmente para ser hat shaper. Isso faz quatro anos. Nesse período, fiz um curso com os norte-americanos da Blade Hats e não tive mais problema nenhum de saúde. Trabalho sozinho, com tranquilidade e, principalmente, fazendo o que eu gosto — enfatiza o Mestre do Sombrero.
Pé na estrada

Hoje, Souza recebe chapéus do Brasil inteiro para reformar em sua oficina — alguns até de países vizinhos, como Argentina e Uruguai.
Mas o movimento grande mesmo ocorre nos rodeios, que são realizados aos finais de semana. Para marcar presença nesses encontros levando seus equipamentos e tendo conforto para passar alguns dias na estrada, o chapeleiro foi atrás de um ônibus, que transformou em um motorhome.
Com isso, consegue levar a esposa, a empresária Bruna Alves, 32 anos, e o filho Heitor Alves de Souza, sete, bem como seu cavalo — afinal, também é laçador em rodeios.
O chapéu sempre fez parte da indumentária do gaúcho, mas está ganhando o dia a dia fora do campo também.
EDER SOUZA, O MESTRE DO SOMBRERO
Restaurador de chapéus, 36 anos
Virou referência em chapéus. Quando o ônibus chega ao recinto, os gaudérios já vão fazendo fila para dar uma repaginada nos seus. Ele conta que o formato rancheiro, com inspiração norte-americana, vem ganhando espaço nas cabeças dos gaúchos — a série Yellowstone (2018-2024), segundo o profissional, também influenciou.
— O chapéu sempre fez parte da indumentária do gaúcho, mas está ganhando o dia a dia fora do campo também. E, depois de um tempo, é inevitável pensar: "Quanta coisa legal já passei debaixo desse chapéu, seja um rodeio, seja uma campereada". O chapéu vira um amuleto, e eu estou ali para garantir que essa parceria dure mais tempo — completa Souza.
Referências na área
Com os gaúchos que são apegados a seus chapéus descobrindo essa oportunidade de manter o parceiro na cabeça por mais tempo, a profissão de hat shaper vem conquistando mais adeptos.
Pelo Estado, existem outras referências na área, como o FC Hats, de Caçapava do Sul; o Chapeleiro Maluco, de São Borja; a Litoral em Foco Hats, de Osório; e o El Moldador, de Caxias do Sul. Ou seja, dá para salvar aquele companheiro de lida — e mais do que isso, deixá-lo como novo, de novo.



