A morte de uma jovem durante um salto de rope jump em São Paulo reacendeu o debate sobre os cuidados necessários na contratação de atividades de turismo de aventura. Embora a falha que resultou na tragédia de sábado (13) tenha sido evidente — a vítima foi lançada sem estar conectada ao sistema de segurança —, especialistas alertam que essas operações envolvem uma série de procedimentos que podem ser falhos.
A segurança depende de protocolos bem executados, equipes capacitadas e consumidores atentos. O turismo de aventura engloba atividades recreativas que envolvem desafios físicos, como rapel, tirolesa, arvorismo, passeios de bugue, rafting e rope jump, por exemplo.
Diferentemente dos esportes radicais praticados de forma competitiva ou voltados à superação individual, o turismo de aventura tem caráter de lazer e experiência, sendo geralmente procurado por praticantes inexperientes e oferecido por empresas especializadas que fornecem equipamentos, condução técnica e protocolos de segurança.
— O Brasil é uma referência em regulamentação, especialmente na construção de normas técnicas. Temos 51 diretrizes oficiais da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que preveem a diminuição de riscos. O grande gargalo da nossa área é a fiscalização, que nem sempre ocorre como deveria — defende o gerente técnico da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta), Evandro Schütz.

Protocolo de segurança deve ser bem definido
Antes de oferecer atividades de turismo de aventura ao público, as empresas precisam cumprir exigências legais e técnicas.
Quando a operação envolve estruturas físicas, como plataformas de salto, torres, cabos de aço ou outros equipamentos fixos, esses elementos devem passar por avaliações e atender às exigências dos órgãos competentes da área de engenharia, como o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea). A análise busca garantir que as estruturas ofereçam condições adequadas de segurança para a realização das atividades.
Além da estrutura física, a operação deve possuir personalidade jurídica e estar formalmente constituída como empresa. A partir dessa regularização, a empresa passa a ser responsável por seguir as normas e procedimentos específicos de cada atividade.
Fabiano Sperotto, especialista e proprietário do Parque Gasper, que oferece atividades de turismo de aventura na serra gaúcha, explica que todos esses processos são documentados:
— Além do laudo do Crea, existe um sistema de gestão de segurança, que é um papel no qual está elaborado todo o procedimento de trabalho por escrito. Não pode ser só falado, tem que ser um documento. O do bungee jump, por exemplo, tem que conter quem vai ser o responsável por fixar a pessoa nos equipamentos, quem vai conferir se essa parte foi feita corretamente. Tem todo um processo, que é feito e checado por várias pessoas, para garantir a segurança.
Capacitação, manutenção e transparência são essenciais
Entre os documentos necessários, Schütz reforça que é importante que as empresas tenham apólices de seguro de responsabilidade civil, que cobrem danos ao cliente em caso de acidentes. Outro requisito fundamental é a qualificação da equipe responsável pela atividade. Os instrutores devem possuir capacitação específica para a modalidade que irão operar, além de conhecimentos técnicos sobre procedimentos de segurança e atendimento em situações de emergência.
O decreto de regulamentação da Lei Geral do Turismo (n.º 11.771/08) diz que a empresa deve possuir sistema de gestão de segurança, termo de conhecimento de risco, seguro e condutores competentes. Os funcionários precisam ter certificados de cursos na área, e o consumidor pode pedir para ver. O cliente também pode pedir para saber qual o plano de atendimento de emergência e pedir para ver uma cópia da apólice de seguro. Se não tiver ou se negar a enviar, não contrate.
EVANDRO SCHÜTZ
Gerente técnico da Abeta
É direito do consumidor ser informado sobre os riscos da atividade que está contratando. Segundo o especialista, esse aviso pode ser feito de diferentes formas: algumas empresas enviam previamente um termo de ciência e responsabilidade por mensagem ou e-mail, enquanto outras entregam o documento impresso no dia da atividade, para assinatura antes da execução. Dessa forma, o praticante pode conhecer os perigos envolvidos antes de aceitar participar.
As atividades de turismo de aventura costumam envolver equipamentos específicos, que variam conforme a modalidade, mas que têm em comum a exigência de funcionamento pleno para garantir a segurança. Entre eles estão estruturas de ancoragem onde são fixadas cordas, cabos de aço, cordas de segurança, mosquetões, cintos, capacetes e coletes de proteção. É dever da operadora garantir a integridade de cada um desses itens.

— Quando uma empresa começa a oferecer uma atividade dessas, não têm um histórico. Então tem que começar um ensaio junto com um engenheiro, que vai observar o desgaste dessas peças e determinar a frequência de verificação e manutenção. No bungee jump, por exemplo, todo mês checamos as espias que seguram o elástico, semanalmente verificamos o elástico e diariamente verificamos os mosquetões e os equipamentos dos praticantes. Já o rapel, que não tem impacto, tem uma frequência menor de verificação — explica Sperotto.
Schütz acrescenta que existem vários tipos de manutenção. Uma é visual e diária, quando o condutor da atividade pega o equipamento antes da primeira atividade do dia e, com o conhecimento adequado e a habilidade de se atentar aos detalhes, já sabe identificar se está em um bom estado ou não. A outra é a tátil, que exige do condutor o trabalho de tocar, abrir, passar a mão, verificar as traves, as fivelas, a parte interna do colete ou dos equipamentos, para saber a verdadeira condição de cada item.
— Além de conhecimento e habilidade, o condutor competente tem que ter atitude. Para descartar ou consertar o equipamento que não estiver em um estado adequado. E, por fim, ele tem que fazer a manutenção corretiva. Ele prevê se vai acontecer algo ou não e depois corrige, tenta recuperar ou consertar, ou descartar, se for necessário. E, é claro, deixa tudo isso registrado em uma planilha de manutenção, para controle da frequência de verificação — complementa o gerente técnico da Associação.
Em que o consumidor deve prestar atenção?
O ideal seria que todo o processo seja conduzido de forma segura pelas empresas, permitindo que o consumidor aproveite a experiência sem preocupações. Ainda assim, os especialistas destacam que o participante também tem um papel importante na garantia da segurança, devendo estar atento a alguns sinais e procedimentos antes e durante a atividade.
Nesse contexto, Schütz elaborou um checklist com pontos essenciais que o público deve observar:
- Confira se a empresa tem CNPJ e atuação formalizada. Segundo o especialista, isso aumenta as chances de que seja uma operação regularizada
- Peça certificados, comprovações de cursos dos condutores, alvarás e apólice de seguro. Não deve haver receio em solicitar esses documentos antes da contratação
- Observe se os riscos são comunicados antes da atividade. A ausência dessa orientação pode indicar falhas nos protocolos de segurança
- Verifique o estado dos equipamentos de segurança. Capacetes sujos, cordas desgastadas e coletes danificados são sinais de alerta
- Preste atenção às instruções da equipe. As empresas devem explicar claramente como a atividade será realizada, o que está sendo feito, quais as etapas que estão sendo realizadas e onde o participante está sendo fixado
- Em atividades verticais, deve haver redundância de segurança, como duas cordas ou dois mosquetões
- Confirme sempre o encaixe dos equipamentos antes do início da atividade, como cintos, cordas e mosquetões
Fiscalização
Segundo as normas técnicas da ABNT aplicadas ao setor, a maior parte da fiscalização das atividades de turismo de aventura é de responsabilidade do Ministério do Turismo.
A reportagem entrou em contato com a pasta, mas não obteve retorno até o fechamento deste material. No Rio Grande do Sul, o governo estadual informou, por meio de nota, que investe em incentivo e políticas públicas para o setor (confira abaixo).
Nota da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul (Setur-RS)
"A Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul (Setur-RS) informa que o Estado é pioneiro na discussão e proposição de regulamentações para o setor. Ciente dos riscos inerentes a essas atividades, a Setur-RS atua diretamente na formulação de políticas públicas e na proposição de boas práticas para elevar o nível de segurança de empresas, atividades, locais e atendentes.
O papel da Secretaria concentra-se na organização, capacitação e incentivo ao cumprimento das normas técnicas nacionais, atuando em conjunto com parceiros como Sebrae-RS, Senac e universidades. Atualmente, a Setur-RS e o Sebrae-RS desenvolvem o programa Aventura Natural, que auxilia 50 empresas gaúchas na implementação e Certificação do Sistema de Gestão de Segurança, cujo foco é o treinamento constante de pessoal e a vistoria periódica de equipamentos adequados.
Para garantir a regularidade do setor, a Secretaria trabalha na conscientização do público e na cobrança para que as empresas operem registradas junto ao CADASTUR. Como norma institucional, o Estado promove e incentiva apenas destinos e prestadores que demonstrem capacidade técnica comprovada. Debates sobre a gestão de riscos são constantemente aprofundados no Comitê de Turismo de Natureza do Conselho Estadual de Turismo e em eventos estratégicos, como o encontro anual itinerante — que ocorrerá em agosto de 2026, em Três Coroas — e o Abeta Summit, maior evento de Turismo de Natureza do Brasil, que dever ocorrer em 2027 no Rio Grande do Sul.
Por fim, a Setur-RS reitera que a segurança no turismo de aventura é uma responsabilidade compartilhada: compete ao Estado formular políticas de excelência; às empresas, cumprir as exigências legais e investir em segurança; aos profissionais, buscar capacitação contínua; e, aos turistas, priorizar empresas formalizadas e reconhecidas no mercado."


