É 19h30min de uma quinta-feira nublada de outono. Na Orla do Guaíba, o termômetro marca 14ºC, mas a sensação na beira d’água é de uma temperatura ainda menor. Nada que impossibilite de ocorrer uma cena que chama atenção dos poucos porto-alegrenses que se aventuram a caminhar pelo local: na quadra de basquete, entra um grupo de pessoas montadas em suas bicicletas, carregando tacos que parecem martelos e bolinhas. Vai começar mais um treino de hardcourt bike polo.
A modalidade, aportuguesando, é o polo de bicicleta em quadra dura. E quem o pratica é o pessoal do POA Bici Polo, coletivo que é apaixonado pelo esporte que, mesmo ainda fazendo parte de uma cena mais underground, vem se espalhando mundo afora, com torneios em diversos continentes e angariando mais adeptos.
À primeira vista, o esporte parece impossível de ser praticado por meros mortais. Várias pessoas pedalam rapidamente para o mesmo ponto da quadra em cima de suas bicicletas e, ao alcançarem a bolinha no chão, usam uma mão para frear a bicicleta e a outra para bater com o taco no alvo. Tudo isso sem se baterem — pelo menos, na maioria das vezes.
Impressiona a destreza dos atletas, que ficam parados sobre duas rodas, trabalhando apenas no equilíbrio, como se fosse fácil. Mas não apenas isso: giram em cima de seus veículos como se estivessem no lombo de um cavalo muito bem adestrado. Mas é tudo habilidade.
E por falar em cavalo... esta é uma releitura considerada pelos praticantes como menos elitista do tradicional esporte equestre e que, depois, teve uma versão com bicicletas na grama. O hardcourt bike polo surgiu em Seattle, nos Estados Unidos, no final dos anos 1990. Foi uma iniciativa de ciclistas mensageiros que usaram o seu intervalo para desenvolver a modalidade.
Sotaque gaúcho
Na Capital, o bike polo chegou em 2013, quando da segunda edição do Fórum Mundial da Bicicleta. Na ocasião, houve uma oficina do esporte e, a partir disso, alguns porto-alegrenses do mundo do pedal — a maioria, entregadores — decidiram manter a prática por aqui.
Surgiu, então, o POA Bike Polo — que mudou para POA Bici Polo em 2023, para ficar mais brasileiro. O grupo tem cerca de 20 membros ativos e se reúne pelo menos duas vezes por semana, às terças e quintas, sempre às 19h30min. Mas é comum que haja treinos e partidas aos finais de semana.
— Praticar o bike polo funciona para socializar, entrar em contato com Porto Alegre. Estamos na Orla, no Marinha, ocupando essa cidade que vive. E, assim, formamos uma comunidade grande, unida — conta Filipe Barcelos Koeche, 28 anos, professor de educação física e membro remanescente mais antigo do POA Bici Polo, desde 2016.
Essa comunidade referida é um dos grandes diferenciais do esporte para quem o pratica. No grupo porto-alegrense, por exemplo, homens, mulheres, pessoas não binárias, de diferentes idades e classes sociais dividem a mesma quadra e o mesmo objetivo: a conexão através de um esporte misto.
— Eu jogava futebol, mas era um esporte que me machucava e a comunidade não era tão receptiva quanto a do bike polo. E o que mais me chamou atenção foi a diversidade de pessoas. Tem também a questão de eu ser um pouco competitivo. Como o esporte não é praticado por muita gente, tinha a chance de eu ficar bom mais rápido e ganhar torneios (risos) — conta Pablo Gonçalves, 30, professor de natação e praticante do bike polo desde 2022.
Como jogar
Os jogadores do POA Bici Polo dizem que, para começar no esporte, é preciso apenas querer. A equipe tem capacetes, tacos e bolinhas para emprestar aos novatos. E qualquer bicicleta serve — quem não tiver o veículo, eles também providenciam uma para que o novo membro do grupo possa ser iniciado. A ideia é que mais pessoas descubram a modalidade.
Os times, geralmente, variam de três contra três ou quatro contra quatro. A escolha é feita no escuro: o juiz pega os tacos de cada participante e, de costas, separa três e três e os joga no chão. Assim, se formam as equipes. A ideia é que todos consigam jogar com todos.
Cada partida dura 12 minutos e o objetivo é o tradicional gol. Os jogadores contam, basicamente, com o freio dianteiro da bicicleta e nunca podem encostar o pé no chão — caso aconteça, precisa tocar em uma espécie de ferrolho pré-determinado e, assim, será liberado a voltar para a partida. A bolinha nunca sai de campo, assemelhando-se, também, ao hóquei.
Em um primeiro momento, as regras parecem complicadas, mas os jogadores garantem que se pega o jeito rapidamente e que o esporte, além de melhor o condicionamento físico e a questão motora, cria laços — inclusive, foi no mundo da bicicleta em que Gonçalves conheceu a sua companheira, a geógrafa Laura Cardoso, 28. Hoje, eles praticam o bike polo juntos.
— Aqui, a gente tem que lidar com várias sensações diferentes, seja vitória, derrota, discussão de estratégias. Às vezes, tu formas uma equipe que pode ser mais competitiva ou menos. E isso ajuda a gente a debater questões de gênero dentro do esporte. Inclusive, criamos uma comunidade que abraça mulheres, pessoas trans e não binárias. Fazemos o esporte ser mais inclusivo — enfatiza Laura.
O livro de regras da modalidade, recentemente, foi traduzindo para português pelos membros do POA Bici Polo. São vários detalhes, mas dois são bem importantes: o uso obrigatório do capacete e, para manter os dedos íntegros, utilizar luvas. As de hóquei são as mais indicadas — e quem consegue um par novo, doa o seu antigo para algum companheiro.
Apoio
Mesmo que o POA Bici Polo, único grupo do tipo da Capital, já tenha mais de uma década de caminhada — ou de pedalada, no caso — e representa o Estado em diversas competições mundo afora, os integrantes ainda dependem totalmente dos espaços públicos. São neles, inclusive, em que os torneios são realizados — o último foi em abril.
Como todos trabalham durante o dia, precisam fazer os treinos durante a noite e, caso a iluminação de alguma quadra esteja ruim, precisam migrar para outra, que pode estar ocupada ou suja — eles mesmos limpam o local. Não existe um lugar garantido, sendo a Orla e o Marinha do Brasil os favoritos da turma, ainda que as quadras deixem a desejar em alguns pontos.
Além disso, todo o custo para a prática do bike polo vem dos bolsos dos atletas amadores, incluindo as viagens para os torneios internacionais. Qualquer bicicleta serve para começar, mas, para um desempenho melhor, eles acabam buscando veículos adaptados, com medidas específicas — e, como não existe fábrica no Brasil, é necessário trazer os equipamentos de fora, o que eleva os gastos.
— O próximo torneio latino-americano será no Peru. Eu gostaria muito de ir, mas não vou ter como dessa vez. É longe, é caro e não tem incentivo nenhum. Tudo é do meu próprio bolso. Para levar a bicicleta, por exemplo, as companhias aéreas estão cobrando US$ 200 (cerca de R$ 1000). A falta de apoio inviabiliza — ressalta Gonçalves, que é campeão brasileiro da modalidade ao lado de Laura.
Por isso que Koeche, o membro mais antigo do POA Bici Polo, tem como objetivo institucionalizar o projeto o quanto antes:
— Estamos tentando ir atrás, por exemplo, de uma quadra nossa. Vamos tentar possibilitar, também, que mais pessoas venham a praticar o bike polo. Por meio de pessoa física, entrar em editais e conseguir algumas coisas, como cotoveleiras e capacetes, mas ainda falta. Hoje, é mais um hobby do que uma profissão, mas queremos buscar patrocínios e alavancar de vez o esporte. Todo esse esforço vale a pena.




