Casais caminham de mãos dadas pelas ruas, publicam fotos nas redes sociais, falam sobre seus relacionamentos em rodas de amigos ou em encontros de família. Essa liberdade de existir publicamente — sem calcular os riscos — ainda não é vivida da mesma forma por todas as pessoas.
Em junho, quando o arco-íris toma vitrines, campanhas e capas de revista, surgem perguntas: o que esse mês significa e para quem ele ainda precisa ser mais do que uma celebração?
O Mês do Orgulho LGBT+ nasceu de uma noite de violência. Em 28 de junho de 1969, clientes do bar Stonewall Inn, em Nova York, em sua maioria pessoas trans, travestis, lésbicas e gays negros e latinos, reagiram a uma batida policial.
A revolta durou três dias, virou data a ser lembrada. O orgulho, portanto, não nasceu como festa, mas como protesto. Como resposta a uma violência.

Doutora em História pela Brown University, nos Estados Unidos, Augusta de Oliveira pesquisa a sociabilidade lésbica no Brasil e a trajetória dos movimentos LGBT+ no Rio Grande do Sul. Ela lembra que, por muito tempo, as únicas aparições dessas pessoas na mídia tradicional eram nas páginas policiais:
— Você olha um jornal da década de 1960, de 1970, de 1980, o quanto esses grupos eram indesejáveis, faziam parte de uma categoria marginalizada. A narrativa era de patologização, de criminalização, de moralização.

No Brasil, o movimento organizado tem raízes no final dos anos 1970. Já no RS, a primeira Parada do Orgulho em Porto Alegre aconteceu em 1997. Havia cerca de 150 pessoas nas ruas. E muitas delas saíam de rosto coberto, de máscara, sem querer segurar as faixas.
— As pessoas não se pensavam como cidadãs capazes de se organizar politicamente por conta da sua sexualidade — comenta a historiadora.
No dia 14 de junho deste ano ocorreu a 29ª edição da Parada Livre de Porto Alegre, reunindo milhares de pessoas. O contraste no número de participantes presentes na ação não é só numérico, é também civilizatório.
Visibilidade não é igualdade
Conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2024, foram 1.004 casos de lesões corporais dolosas (intencionais) contra vítimas LGBT+ registrados no RS. Os homicídios dolosos contra essa população somaram 46. Já os casos de estupro contra pessoas LGBT+ foram 129 no RS.
Os números coexistem com o aumento expressivo de representações na mídia, com casamentos legalizados e a presença crescente da pauta no debate público. Ou seja: mais visibilidade não significou, automaticamente, mais segurança ou mais igualdade.
Fernanda Nascimento, pesquisadora das representações de pessoas LGBT+ na mídia e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), trabalha com essa tensão:
— É importante que a gente não simplesmente associe o mês do orgulho a um período de celebração. Quando na prática tu tens a necessidade de, primeiro, sobreviver em um regime que é completamente excludente.

Quem aparece e quem permanece invisível
Quando pensamos em população LGBT+, quem vemos? Por muito tempo, a resposta era: homens gays, brancos, de classe média, em contextos urbanos.
Para quem não se via representado, o efeito podia ser o de não se reconhecer como parte de uma história comum – ou de internalizar a ideia de que sua experiência não merecia visibilidade.
— A gente aprende a ser um homem, uma mulher, a ser heterossexual, a partir desses diversos lugares. E a mídia é um desses lugares — pontua Fernanda.
Ela lembra que, durante décadas, as representações de personagens LGBT+ na televisão brasileira eram quase exclusivamente de homens gays — e frequentemente reduzidos ao papel de alívio cômico, de chacota.
— Como é que eu me percebia naquilo se não via nada que me representasse? Ou, no caso contrário, quando havia alguma representação? De repente a pessoa não convivia com ninguém que fosse LGBT+. E aí, a partir de uma novela, ela vai entender: eu também sou dessa forma. Eu não sou a única no mundo — comenta a professora.
Esse papel das representações na construção de um senso de pertencimento é central. E explica por que a qualidade dessas representações importa tanto quanto a sua existência.

Nos últimos anos, o leque se abriu. Identidades que estavam fora do horizonte midiático começaram a aparecer: pessoas assexuais, transgêneros e outras. Mas Fernanda levanta perguntas: casais homoafetivos e heterossexuais são tratados da mesma forma nas narrativas?
Augusta, por sua vez, aponta outro tipo de invisibilidade: a histórica. Quando se apaga a memória de quem lutou, apaga-se também a dimensão política das conquistas:
— A parada hoje, o mês do orgulho, tem uma atração nos meios de comunicação tradicionais porque antes disso houve uma grande movimentação dos movimentos sociais, de grupos que já não existem mais.
No RS, o coletivo Nuances, criado na virada dos anos 1980 para os 1990, combinou crítica cultural com atuação institucional — pressionando juridicamente, trabalhando com advogados aliados, capacitando policiais da Brigada Militar para abordagens mais respeitosas.
A ONG Igualdade, associação de travestis e transexuais, foi pioneira em mutirões de retificação de nome e gênero. Algumas das primeiras decisões judiciais de reconhecimento de benefícios previdenciários para casais homossexuais no Brasil vieram de Porto Alegre, nos anos 1990.
— Você pode mudar a visão da sociedade e ao mesmo tempo garantir direitos materiais pelas vias institucionais. Não são coisas opostas. — explica a historiadora.

O futuro do orgulho
As redes sociais transformaram o campo das representações de maneiras contraditórias. Por um lado, criaram espaços de encontro e visibilidade que antes eram impensáveis — hoje adolescentes em cidades pequenas podem encontrar comunidades e histórias parecidas com as suas.
Por outro, são também ambientes de violência sistemática, de discurso de ódio algoritmicamente amplificado, de desinformação organizada. Fernanda aponta um tema que considera urgente e que ainda encontra resistência: as infâncias e adolescências LGBT+:
— São assuntos que estão fora da pauta, que parecem como assuntos que não devemos tocar, mas que estão na urgência; que se referem à sobrevivência, à capacidade de viver.
Embora, de forma geral, o caminho percorrido seja de ganhos, há quem siga à margem das conquistas. Uma pessoa trans ainda enfrenta expectativa de vida menor. Uma pessoa LGBT no ambiente de trabalho ainda esconde quem é. Uma criança que não se encaixa na norma ainda sofre estigmas.
— Ter a noção de que o orgulho é produto dessas lutas dá mais valor a elas. Mostra que num período curto, tecnicamente de 30 anos, o quanto se conseguiu e o quanto ainda se pode conquistar.



