
Em uma terra marcada pela história das Missões Jesuíticas Guarani, uma "mini-Polônia" chama a atenção. O município de Guarani das Missões, a 480 quilômetros de Porto Alegre, é reconhecido por lei estadual como a "capital polonesa dos gaúchos".
As culturas se mesclam de tal forma que, no evento que celebra a herança polonesa, a 17ª Polfest Internacional, uma palestra deve relembrar os 400 anos das Missões no RS. A festa ocorre entre 21 e 24 de maio.
Pesquisador sobre imigração polonesa no Brasil, o historiador Fabricio Vicroski estima que cerca de 70% da população do município tenha descendência do país europeu.
Parte dessa memória da colonização aparece nos sobrenomes. Atrás de Santos, Silva, Oliveira e Lima, Wisniewski é o quinto sobrenome mais comum no município de 7,4 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Idioma cooficial
Desde 2022, a língua polonesa é reconhecida como cooficial no município, isto é, coexiste com o português. Essa adoção de um idioma distinto existe também em outras cidades gaúchas, como em Áurea, na Região Norte, que carrega o título de "capital polonesa dos brasileiros" por ter o maior número de descendentes de imigrantes poloneses no Brasil.
Em Guarani das Missões, a língua aparece na grade curricular dos primeiros anos da rede municipal. Crianças e adultos que queiram aprender também encontram aulas em entidades que incentivam a "polonidade" no município, como a Braspol (Representação Central da Comunidade Brasileiro-Polonesa no Brasil).

Segundo a presidente, Mara Elilia Hamerski Zanatta, 56 anos, são cerca de 450 membros ativos na instituição. Além de dar aulas, a Braspol tem grupo de danças e culinária típicas em eventos e incentiva a religiosidade.
— São pessoas que se identificam com a cultura polonesa, seja de sangue ou de coração. Aqui em Guarani, tem muitas pessoas que já se identificam de coração, porque vivenciam diariamente essas ações polônicas.
A presidente explica que a entidade é mantida principalmente com recursos poloneses, via governo, institutos parceiros e editais.
O "pastel", a sopa com sangue de pato e mais
Pierogi (semelhante a um pequeno pastel) e czernina (sopa feita com sangue de pato) são só alguns dos pratos poloneses que a agricultora e cozinheira Clarice Joana Marczewski Osaida, 60 anos, faz em casa.
— Tudo o que a avó fazia na Polônia, eu faço... a kapusniak (sopa de repolho), todas essas coisas eu aprendi com a minha avó. Ela não falava "brasileiro", só falava polonês. Eu até os oito anos também não falava "brasileiro", só polonês — recorda.
Um dos capítulos da história da imigração na região é destacado pelo memorialista Vilmar Person. No livro Odisseia viking da Suécia à Colônia Guarany e a Guarani das Missões: o sonho e a realidade, ele conta que, em 1898, um padre polonês de Ijuí incentivou a ida de imigrantes poloneses no RS para onde hoje é Guarani das Missões. O objetivo era montar uma "nova Polônia".
— Esse pessoal veio de Ijuí (Região Noroeste), de Jaguari (Região Central), da serra gaúcha... vieram para Guarani — contextualiza Person.
Na região, os imigrantes conviveram com pessoas de outras nacionalidades, como suecos e italianos.
Hoje, cidades próximas das Missões, como Sete de Setembro e Ijuí, também têm fortes comunidades de descendentes de poloneses.
Danças típicas
A dança é destaque na Associação Cultural Guaraniense. O grupo folclórico Águia Branca, que hoje conta com 45 dançarinos de três a 50 anos, existe desde 1969. Foi dele que nasceu a associação, antes Sociedade Cultural Guaraniense, que também realiza outras atividades.
Os ensaios ocorrem às segundas-feiras. Como ressalta o presidente da associação, Clóvis Luiz Przyczynski, 23 anos, a ideia é resgatar costumes e tradições da Polônia transformando-os em dança.
— Toda parte do grupo de danças e das outras atividades, como cursos de culinária, de aula de língua polonesa, é totalmente gratuita, subsidiada pela própria entidade e, muitas vezes, com projetos que encaminhamos para a Polônia — esclarece.
Segundo ele, parte dos recursos também vem do próprio município.
Programa de rádio em polonês
A herança polonesa levou até à criação de um programa de rádio. A empreitada começou em 1998, em uma rádio comunitária.
— As famílias, os idosos principalmente, que tinham a história viva dentro deles, estavam carentes de escutar uma música polonesa, de acompanhar uma missa em polonês, daquelas informações, mensagens, datas comemorativas, que na Polônia tem muito também — conta Teófilo Szymanski, 74 anos, um dos apresentadores.
Em 2026, ele trocou de emissora. O programa anterior se manteve, e Teófilo iniciou um novo, sem esquecer da mistura de português e polonês nas falas e nas atrações, com canções, conversas e piadas.
O apresentador nasceu no RS, mas teve avós poloneses. Certa vez, questionado sobre a própria origem por jornalistas, respondeu:
— Eu nasci polonês, mas aqui.
*Repórter viajou a convite da Associação Brasileira de Agências de Viagens do RS (Abav-RS) e da Associação dos Municípios das Missões (AMM).


