A praça defronte à igreja, os prédios governamentais do outro lado da rua e o casario ao redor: na gênese dos 497 municípios gaúchos está uma organização social e política que combina o traçado das cidades espanholas e a teocracia cosmopolita dos padres jesuítas com o sistema milenar de convivência indígena. Nos 400 anos das Missões, o modelo urbano das reduções permanece representado, dos vilarejos à capital do Rio Grande do Sul.

Ao cruzar o Rio Uruguai para fundar os primeiros povoados missioneiros do Estado, os integrantes da Companhia de Jesus replicaram a estratégia bem-sucedida implementada antes na região do Guairá, entre o Paraguai e o Paraná. A ideia era primeiro conquistar a confiança dos caciques e estabelecer uma governança que compartilhava poder sem ameaçar premissas fundamentais à Coroa Espanhola, como obediência e lealdade.
No centro do projeto, a construção de lugarejos sustentáveis economicamente, com hierarquia e distribuição de tarefas, mas movidos pela fé católica. Para tanto, os jesuítas se valeram de carisma e verve, num momento em que os guaranis vivem uma crise pelo avanço do colonialismo espanhol e a disseminação de doenças.
— Os jesuítas se apresentam sem exigir nada, realizam práticas sacramentais e conduzem essa aproximação inicial com belos discursos, palavras inspiradas e presentes, como anzóis, facas, machadinhas e instrumentos de ferro — conta Maria Cristina Bohn Martins, professora da Unisinos e coordenadora do Projeto Missões Jesuíticas Guaranis.
Exímios agricultores, os guaranis já não eram apenas caçadores coletores. Viviam estabelecidos em aldeias e plantavam mandioca, milho, além de cultivavar extensos ervais. Sob a liderança dos padres, constituíram povoados que iam além da oga, a casa coletiva indígena, e as ogas pysy, as casas de reza. Agora, a nova configuração previa mais edificações e tinha o nome de redução.
A ideia era reduzir mesmo, fazer urbanidade, trazer as pessoas para um lugar e, a partir dali, ensinar matemática, a ler, ensinar a mão de obra com visão europeia. E reduzir também ao cristianismo aquela gente que era de Nhanderu, de Tupã, tinha sua própria religiosidade.
JOSÉ ROBERTO OLIVEIRA
Historiador
O desenho das reduções lembrava o de um tabuleiro, com a praça central cercada por quatro ruas principais, largas e equidistantes, em cujos extremos despontavam cruzes missioneiras. A igreja ficava em frente à praça, voltada para o norte. Aos fundos, a quinta tinha pomar, horta, jardim e lavouras de milho e mandioca.

De um lado da igreja, ficava o cemitério, dividido em quatro alas para mulheres, homens, meninos e meninas. Do outro lado, a casa dos padres, com biblioteca e uma pequena horta, era cercada para evitar o acesso às mulheres. Ali perto e sem janelas para a rua, o cotiguaçu abrigava inválidos, viúvas e órfãos.
Nas oficinas e escolas, aprendia-se a ler e escrever, além dos mais diversos ofícios, como pintura, escultura, carpintaria, armaria e tecelagem. Ao redor da praça, ficavam as casas dos indígenas. Eram construções retangulares, com muros de terra socada, telhados de palha e porta de couro de boi. Em cada casa vivia uma família, liderada por um cacique. Do lado de fora da redução, funcionava uma área industrial, com matadouro, curtume e forja.
Organização social e governança divididas entre a cruz e o cabildo
Cada povoado funcionava como uma cidade-Estado, com território delimitado e autonomia administrativa, mas com submissão à Coroa Espanhola. Como em geral havia apenas dois padres por redução — o cura, a autoridade máxima, e o padre auxiliar, que cuidava da doutrina religiosa e educacional — a gestão compartilhava poder com os guaranis, prevenindo rebeliões.
Tal modelo conciliava a organização social dos indígenas, baseada no cacicado, com o cabildo, o modelo de governança dos municípios na América espanhola. Surgiu então o cabildo indígena, um conselho que instituía regras de convivência, analisava pedidos, fiscalizava o trabalho, julgava e punia os desobedientes. Eleito todo ano, o colegiado funciona como executivo, legislativo e judiciário.
A hierarquia não era vertical. O Cura mandava na esfera religiosa, mas tinha que aprovar suas proposições no cabilido, órgão chefiado pelo corregedor, espécie de prefeito do povoado, geralmente o cacique de maior proeminência entre os pares. A estrutura previa ainda as posições de alcaide (gestor político e judicial), alferes (chefe militar), procurador (gestor econômico), mayordomo (gestor administrativo), maestro (professor), entre outros cargos.
As missões chegaram a ter 1,5 mil caciques. Eles eram os verdadeiros gestores. A distribuição de tarefas era como se fossem funcionários públicos, um secretariado. Tinha o mayordomo, o alcaide, mas também um sujeito que sabia escrever e anotava tudo, contabilizava o gado, o que foi feito nas forjas, o que havia nos armazéns, as demandas das lavouras e dos ervais.
TAU GOLIN
Historiador

Os membros do cabildo não chegavam a formar uma casta, mas, assim como hoje, eram governantes dotados de privilégios: recebiam ração dupla de carne e roupas melhores, mantinham lugar nas primeiras fileiras da igreja e tinha direito a educação especial para os filhos, além de não pagar impostos à Coroa Espanhola. A eleição tampouco previa voto universal. O corregedor era indicado pelos padres e os demais cargos eleitos pelos próprios cabildantes que deixavam seus postos.
A posse era uma cerimônia suntuosa, sempre ao primeiro dia do ano. Uma longa mesa era montada em frente à igreja, onde eram colocadas as as insígnias de cada gestor, como um bastão com punho de prata para o corregedor, varas para os alcaides e as chaves do templo para o sacristão. Havia missa, sermão e um banquete para festejar a nova administração.
Fora do cabildo, a ascensão social era medida sobretudo pela devoção católica. Em Missões: Uma Utopia Política, o arqueólogo e historiador Arno Kern explica que “os indivíduos ascendiam por seu mérito e valores pessoais, entre os quais se destacava uma vida cristã exemplar”.
— É um trabalho de evangelização, mas a Companhia de Jesus tinha claro que o sucesso das reduções era o trabalho social. A qualidade de vida que se alcançava, as produções, isso era a chancela que aquilo ali estava funcionando. Não era a quantidade de terço nem quantas pessoas iam à missa, era a nova sociedade que estava sendo construída — afirma o padre Felipe Soriano, curador do Memorial Jesuíta da Unisinos e coordenador do Instituto Anchietano de Pesquisas.
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Série de sete reportagens mostra como o experimento social dos Sete Povos das Missões ecoa no cotidiano gaúcho, impulsionando o futuro a partir da fundação de nossas tradições.
Na próxima semana, você vai entender como a experiência singular das reduções ultrapassou quatro séculos e segue presente no coração da economia do Rio Grande do Sul. A combinação entre trabalho coletivo, diversificação agrícola e criação de gado estruturou um modelo produtivo que deixou marcas profundas, do cultivo de ervais e alimentos nativos às grandes cadeias do agronegócio atual. E veja por que essa organização social, considerada única por especialistas, nunca mais se repetiu no Brasil e o que ela revela sobre o desenvolvimento econômico e cultural do Estado até hoje.
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