
Dois dos maiores sucessos recentes da literatura brasileira estarão na Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2027. A Unidos de Vila Isabel anunciou, nesta quarta-feira (13), que levará para a avenida o enredo Torto Arado – Sobre a terra há de viver sempre o mais forte, inspirado no livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior.
Já a Unidos da Tijuca vai desfilar com um enredo baseado em A Cabeça do Santo, da escritora cearense Socorro Acioli.
As escolas de samba do Rio de Janeiro reforçam uma tendência cada vez mais presente na avenida: transformar livros em samba-enredo. As duas obras se tornaram fenômenos editoriais nos últimos anos e agora chegam ao Carnaval como ponto de partida para narrativas sobre desigualdade, religiosidade popular, ancestralidade e resistência.

Fenômeno literário na Avenida
Publicado em 2019, Torto Arado ultrapassou a marca de 1 milhão de exemplares vendidos e venceu prêmios como Jabuti, Oceanos e LeYa. O romance acompanha a trajetória de duas irmãs em uma comunidade rural marcada por conflitos ligados à terra e às heranças da escravidão.
O desfile da Vila Isabel será desenvolvido pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, em parceria com o pesquisador Vinícius Natal. Segundo eles, a proposta não será uma adaptação literal do livro, mas uma leitura carnavalesca inspirada principalmente no universo do Jarê, religião de matriz africana tradicional da Chapada Diamantina.
A escolha do anúncio no dia 13 de maio, data da abolição da escravidão no Brasil, também foi tratada pela escola como uma provocação sobre a permanência das desigualdades raciais no país.
Autor da obra, Itamar Vieira Junior comemorou a homenagem e destacou a força simbólica do Carnaval.
— O samba tem a capacidade de transformar memória em celebração e resistência — afirmou.
A Vila Isabel será a quarta escola a desfilar no domingo, em 7 de fevereiro de 2027.

Romance cearense na Sapucaí
Já a obra A Cabeça do Santo, da escritora Socorro Acioli, foi escolhida pela Unidos da Tijuca. Publicado em 2014, o livro mistura realismo fantástico e religiosidade popular ao contar a história de Samuel, homem que passa a viver dentro da cabeça abandonada de uma gigantesca estátua de Santo Antônio no interior do Ceará.
A história é inspirada em um caso real ocorrido em Caridade, no Ceará, onde uma imagem monumental do santo permaneceu por décadas sem cabeça, transformando-se em símbolo cultural da cidade.
O carnavalesco Lucas Milato tem como expectativa transformar o desfile em “onírico, lúdico e fantasioso”. Já a autora afirmou que será a primeira vez que acompanhará um desfile na Sapucaí.
— Vou passar este ano vivendo o Carnaval. Minha maior emoção é ver o Carnaval e a literatura juntos para o povo, para o Brasil e o mundo inteiro — disse.

Literatura já inspirou grandes desfiles
A aproximação entre literatura e escolas de samba vem crescendo nos últimos anos. Em 2024, a Portela levou para a avenida Um Defeito de Cor, romance de Ana Maria Gonçalves considerado um dos livros mais importantes da literatura brasileira contemporânea.
Outros clássicos também já inspiraram desfiles históricos, como Iracema, de José de Alencar, homenageado pela Beija-Flor em 2017, e Os Sertões, de Euclides da Cunha, transformado em samba-enredo pela Em Cima da Hora.




