“Se eu proibisse, eu ia perder a minha filha.” A frase é da educadora social Juliana Felicio e resume um dos principais dilemas enfrentados por pais de adolescentes: como lidar com o início dos relacionamentos amorosos dos filhos sem que eles se afastem.
Mãe de Valentina, hoje com 15 anos, Juliana acompanhou de perto a mudança da filha — de uma menina mais quieta para uma adolescente que passou a se interessar por namorar. A mãe conta que chorou quando soube e se perguntava como iria lidar com essa nova fase.
Apesar do susto inicial, decidiu apostar no diálogo e na proximidade. Juliana diz que entendeu que precisava respeitar a individualidade e o espaço da filha. Se optasse por proibir e aumentar o controle, acreditava que Valentina poderia perder a confiança e passaria a esconder situações da mãe.

A experiência reflete a insegurança de muitos pais ao lidar com relacionamentos amorosos e educação sexual. Será que não é muito cedo para essa conversa? Será que falar sobre o assunto não incentiva? Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que o namoro na adolescência faz parte do desenvolvimento — e que o diálogo é essencial para garantir segurança e aprendizado.
Diálogo previne crises
Segundo Sofia Sebben, psicóloga infantojuvenil e pesquisadora da UFRGS sobre infância e uso de telas, os relacionamentos na adolescência não devem ser tratados como algo banal. “É a primeira experiência afetiva fora da família. É onde o jovem aprende empatia, negociação, a falar sobre sentimentos”, explica.
Em vez de impedir o assunto dentro de casa, seja por conta da idade ou dos costumes da família, é preciso criar um espaço seguro para dividir sentimentos e inserir o assunto de relacionamento e educação sexual no cotidiano com escuta e perguntas, sem julgamento.
Para Elisa Schimitez, mãe de um menino de 16 anos e uma menina de 15, o início dos relacionamentos também trouxe desafios — principalmente por acontecer cedo, por volta dos 13 anos. “Para mim ainda eram crianças, mas começaram a demonstrar interesse e eu precisei sentar pra conversar”, conta.
Elisa contou que também se sentia insegura nessa fase dos filhos, mas que o diálogo foi essencial para que eles se sentissem confortáveis para dividir sua vida particular com a mãe. “Precisamos dar autonomia, porque estamos criando pessoas que, daqui a pouco, serão adultos. Minha maior preocupação é que eles sejam adultos bacanas e funcionais”, diz.
Para Sofia Sebben, essa é uma fase de descobertas que requer atenção e diálogo por parte dos pais. É importante que os responsáveis acompanhem de perto os comportamentos e relações dos filhos, mas sem invadir. Esperar um problema surgir para conversar tende a dificultar a relação entre os adultos e adolescentes.
A conselheira tutelar suplente Cristiane Leite reforça a importância da proximidade. “A família precisa acolher para ganhar confiança e abrir espaço para que eles falem sobre o que estão vivendo”.
Educação sexual ainda é tabu
Apesar de ser parte do desenvolvimento, a educação sexual ainda é tratada como tabu em muitas casas. Para especialistas ouvidos pela reportagem, o tema precisa entrar no cotidiano de forma gradual — e não apenas quando surgem dúvidas ou situações de risco.
Soraia Nilsa Schmid, ginecologista, especialista em ginecologia da infância e adolescência, explica que não existe um momento único para começar essa conversa. Segundo ela, a sexualidade faz parte da formação do indivíduo desde a infância e deve ser abordada com naturalidade.
“A sexualidade existe desde sempre. Não se trata de sexualizar, mas de entender o corpo como algo sensível, que se relaciona com o mundo e produz sensações”, afirma.
Nilsa destaca que o processo começa ainda nas primeiras fases da vida, com descobertas corporais e sensoriais, e evolui ao longo do desenvolvimento. Na adolescência, há o amadurecimento biológico e emocional que permite a vivência da sexualidade com o outro.
Um dado relevante é que os adolescentes brasileiros estão se relacionando sexualmente cada vez mais cedo. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que uma parcela significativa (36,8%) dos jovens iniciam sua vida sexual com 13 anos ou menos de idade, cujo percentual dentre o grupo etário de 13 a 15 anos foi 56,8%.
Nesse contexto, o papel dos adultos é equilibrar orientação e respeito ao tempo de cada jovem. “Não há fórmula pronta. É preciso observar cada criança e adolescente, entender seus limites e evitar tanto a repressão quanto a exposição exagerada.”
Muitas vezes, a vergonha dificulta o diálogo direto com os pais — e o acompanhamento especializado pode ajudar a esclarecer dúvidas sem julgamento. Juliana seguiu por essa caminho com a filha. Procurou um profissional da saúde de confiança para conversar com a menina e proporcionar um ambiente seguro e livre de inibição para ela entender seu corpo e a sua sexualidade.
Alerta para relações problemáticas
Quando a relação é saudável, ela amplia o mundo do adolescente. Ele mantém amizades, interesses e planos. Já em relações problemáticas, o efeito pode ser o oposto. O jovem pode se contrair, mudando seus pensamentos e comportamentos sem perceber.
A presença ativa da família é apontada pelos especialistas como um dos principais fatores de proteção. É importante que pais e responsáveis acompanhem mudanças de comportamentos sutis, conversas e até mesmo que tipo de conteúdo estão consumindo e/ou publicando nas redes sociais. Mas sem invadir sua privacidade ou impedir sua autonomia.
Elisa conta que já precisou intervir em conflitos do filho, especialmente por ciúmes. Na situação em questão, os adolescentes estavam discutindo sobre saírem para outros compromissos sem seus parceiros. “Sentei e conversei, expliquei que não era uma atitude saudável e que eles precisavam entender o que queriam”. Depois da conversa, a mãe disse que observou uma melhora no comportamento dos adolescentes.
Renato Caminha — psicólogo, professor e pesquisador na área de educação parental — explica que a o relacionamento abusivo é aquele em que um parceiro ou uma parceira está impondo um padrão de dominação e contribuindo para a anulação da identidade do outro: é quando o adolescente abandona amigos, família e escola e passa a viver só para o namoro.
Os sinais de um relacionamento tóxico nem sempre são evidentes e, na adolescência, costumam aparecer de forma mais psicológica do que física.
Entre os principais indícios estão:
- controle excessivo;
- ciúmes;
- isolamento de amigos;
- mudanças de comportamento;
- críticas constantes disfarçadas de brincadeira.
Influência e perigos online
Outro fator de preocupação é o impacto das redes sociais e de comunidades online, como a chamada cultura “red pill”, um termo que, após anos de difusão em ambientes online de misoginia, só recentemente ganhou a atenção de um público mais amplo. Para a psicóloga Sofia Sebben, esses conteúdos costumam oferecer respostas simples para frustrações complexas, especialmente entre meninos
A expressão é uma referência ao filme Matrix (1999): quem "toma a pílula vermelha" estaria enxergando uma suposta verdade oculta, a ideia de que a sociedade favorece as mulheres e oprime os homens.
“Isso pode levar a uma visão de que o outro é um adversário”, afirma Sofia. O efeito aparece nos relacionamentos, com mais desconfiança, controle e dificuldade de construir vínculos baseados em respeito.
Caminha complementa que conteúdos misóginos presentes na internet e em outras esferas da cultura também contribuem para reforçar essas crenças, principalmente quando partem de figuras admiradas pelos jovens.
Para o psicólogo, cabe aos pais que não permitam que seus filhos reproduzam brincadeiras sobre sobre aparência ou conduta sexual em casa para que não haja uma banalização desse tipo de comportamento. Além, é claro, de acompanhar que tipo de conteúdo os adolescentes estão vendo e replicando na internet.
As dicas dos pais e profissionais
Diante de uma fase marcada por descobertas, intensidade emocional e influências externas, especialistas e famílias ouvidas pela reportagem concordam em um ponto: mais do que controlar, é preciso estar presente. Para ajudar nessa fase, a reportagem selecionou algumas orientações importantes aos "sogros de primeira viagem":
1. Manter o diálogo constante, mesmo diante de resistência — conversar não só na crise, mas no dia a dia;
2. Acolher sem julgamento, para que o adolescente se sinta seguro em compartilhar experiências;
3. Abordar educação sexual de forma natural e gradual, respeitando a idade e o contexto;
4. Observar mudanças de comportamento e sinais de alerta sem invadir a privacidade, mantendo equilíbrio entre autonomia e cuidado;
5. Acompanhar o que os jovens consomem nas redes e reforçar valores como respeito, individualidade e responsabilidade emocional. Intervir quando necessário.
No fim, como mostram os relatos, o caminho não é impedir que os adolescentes se relacionem, mas garantir que eles tenham suporte para viver essas experiências de forma mais consciente e saudável.
