Quatro séculos depois das experiências comunitárias nas Missões, o modelo produtivo das reduções jesuíticas — baseado na pecuária, na agricultura diversificada e no trabalho coletivo — ainda ecoa na estrutura econômica do Rio Grande do Sul. Do gado missioneiro às modernas cadeias do agronegócio, a herança daquele sistema ajuda a explicar por que o campo segue como um dos motores da economia gaúcha, respondendo por 40% do PIB estadual.
Pastoreando rebanhos volumosos, cultivando extensos ervais e domesticando vegetais nativos como a mandioca, o milho e o feijão, os guaranis fizeram de cada povoado um celeiro de prosperidade. O voto de pobreza dos padres e a economia de subsistência dos indígenas não foram impedimento para o desenvolvimento de uma produção que dinamizou o comércio entre as reduções e até mesmo a exportação.
Exímios agricultores, os guaranis não eram nômades, tampouco viviam apenas de caça, pesca e coleta, como outras etnias espalhadas pelo pampa. Em geral, passavam anos aldeados nas proximidades de um rio, mantendo roças para consumo familiar, sem preocupação com a estocagem de alimentos. A chegada dos jesuítas, com a concentração de várias aldeias em cada redução, demandou uma produção maior e mais diversificada.
A tarefa ficou mais fácil a partir de 1634, quando o padre Cristóbal de Mendoza comprou uma boiada na Argentina e cruzou para a margem oriental do Rio Uruguai, façanha que lhe valeu a alcunha de primeiro tropeiro do Rio Grande do Sul. A chegada do gado desenvolveu uma pecuária de corte e de leite e a produção de couro.

Surgiram as estâncias e as vacarias, espaços de campo distantes dos povoados onde os rebanhos eram mantidos. As vacarias abrigavam o gado mais solto, como reserva, enquanto nas estâncias havia lotes menores, com manejo regular. O plantel era cuidado por guaranis que aprenderam a domar, montar, laçar e a tocar o gado, dando origem ao que viria a ser o ginete gaúcho.
Aquele gado inicial se tornou milhões de cabeças de gado aqui. A carne era importante para a economia doméstica, pois mantinha as reduções potentes. O couro era exportado, tinha grande valor na Europa.
JOSÉ ROBERTO DE OLIVEIRA
Historiador
Quatro séculos depois, essa cadeia cresceu. O Estado concentra 30% da indústria de couro, além de ser o maior exportador do produto no país, um negócio que gerou US$ 325 milhões em 2025, com a venda de 114 mil toneladas (28% do total).
Na pecuária de corte, o Rio Grande do Sul detém hoje o sétimo maior rebanho bovino do Brasil, com cerca de 12 milhões de cabeças. Concentrada sobretudo no pampa, a produção é exportada para 90 países. O destaque é a qualidade da carne, célebre pelo sabor, maciez e suculência, resultado da genética avançada, das pastagens naturais e do menor uso de confinamento.
Bebida condenada virou tesouro dos povoados

O produto mais importante das reduções era a erva-mate. Ela influenciava a localização das aldeias, quase sempre próximas a ervais nativos. No início, os guaranis não sabiam plantar, porque a semente caía antes de estar madura. Com o passar dos anos, eles aprenderam a retirar a polpa da fruta para quebrar a dormência da semente e assim obter mudas. A técnica permitiu a expansão dos ervais e um aumento significativo da produção.
Demonizado pelos primeiros jesuítas, o chimarrão passou de “erva do diabo” a “garimpo verde”, tamanho o valor adquirido pelo chá que colocava pajés em transe, curava de borracheira a crises de gota, provocadas pelo alto consumo de carne de caça, e ainda revigorava antes da roça e depois das batalhas.
A dualidade de bebida e remédio atraiu povos do mundo incaico, como Peru e Chile, além de europeus ibéricos que se habituaram ao consumo de chá. A demanda cresceu a ponto de virar medida de valor — com o retábulo de uma igreja, por exemplo, valendo 1 mil arrobas de erva, o equivalente a 15 toneladas — e dar mais lucro do que gado e garimpo.
Os guaranis começaram a manter aldeias ervateiras com 60 mil pés. Havia expedições com 500 mulas carregando erva. Os jesuítas montaram agências que comercializavam em diversas cidades do império espanhol a erva-mate produzida nas Missões.
TAU GOLIN
Historiador, autor de "Mateando: os ervais dos Povos Indígenas", sobre a importância do chimarrão na formação do RS
Modelo produtivo

Para além da erva-mate, as reduções também mantinham lavouras de milho, feijão, fumo, algodão e porongo, entre outras culturas. Movidas por junta de bois, atafonas beneficiavam a mandioca, cuja farinha ampliava a culinária e a renda de cada povoado. Ensinados pelos padres, os guaranis mantinham tecelagens e uma produção de estátuas de santos, incrementando ainda mais a economia missioneira.
Em 1697, o padre Antônio Sepp fundou na redução de São João Batista uma das primeiras funilarias da América Latina. A partir do itacuru, uma calcificação arenítica formada nos cupinzais, ele forjou o metal, construindo ferramentas, utensílios, armas, munições e sinos. A técnica permitiu um salto tecnológico e logo se expandiu para os outros povoados.
Quando os jesuítas foram expulsos, em 1768, um inventário registrou seis forjas em funcionamento na redução de São Nicolau. Atualmente, o Rio Grande do Sul tem um dos maiores parques metalmecânicos do Brasil, abrigando 12,5% das empresas do setor e respondendo por 37% do PIB industrial gaúcho.

Para atrair os indígenas às reduções e obter engajamento em um sistema que gerasse autossuficiência e prosperidade, os jesuítas apostaram num modelo produtivo transversal. Cada cacique mantinha sua propriedade particular, o amambaé, uma roça que garantia autonomia alimentar à família. Ao povoado inteiro cabia o tupambaé, a produção da coletividade. Era o resultado do trabalho nas lavouras, nos ervais, nas vacarias e forjas, todo o complexo agropecuário e industrial das reduções.
O tupambaé evitava desabastecimento, formava estoque e fomentava comércio e exportação, movimentando uma economia nitidamente mercantilista. Os guaranis dedicavam dois dias da semana ao tupambaé e o restante da semana ao amambaé, equilibrando a jornada entre o trabalho privado e o comunitário.
Tal experimento foi estudado ao longo da história, sendo classificado como “teocracia socialista”, “aristocracia jesuítica", “império americano” e “comunismo pré-marxista", entre outros rótulos. Para o historiador e arqueólogo Arno Kern, longe de originar qualquer sistema econômico, as missões eram uma tentativa de vida comunitária que buscava evitar que os indígenas servissem de combustível humano para uma empreitada colonizadora e escravagista.

Com o passar dos séculos, o Estado viveu profundas mudanças sociais e políticas, mas manteve a base da economia guarani como sustentáculo da quinta maior riqueza regional do país. Seja na tecnologia de ponta empregada na fabricação de chips e no complexo automotivo ou na manufatura rudimentar das olarias, a essência missioneira ainda impulsiona o Rio Grande do Sul.
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Série de reportagens mostra como o experimento social dos Sete Povos das Missões ecoa no cotidiano gaúcho, impulsionando o futuro a partir da fundação de nossas tradições.
Na próxima semana, a quarta reportagem da série mostrará como o encontro entre a ancestralidade guarani e o barroco europeu deu origem, nas reduções jesuíticas, a uma das experiências culturais mais sofisticadas do continente: o legado artístico que reinventou a identidade cultural gaúcha.
Veja o calendário das publicações. Para ler todos os conteúdos sobre os 400 anos das Missões, acesse gzh.rs/missoes400
15/5 — Economia
22/5 — Cultura
29/5 — Costumes
5/6 — Guerra Guaranítica
12/6 — Memória



