Um convite ao passado perpassa os 48 minutos do espetáculo Som e Luz, que tem as ruínas de São Miguel das Missões, no noroeste do RS, como cenário. Como o nome já sugere, a atração criada há 48 anos conta a história das Missões Jesuíticas Guarani, que em 2026 completam quatro séculos, por meio de sons e luzes.
Não há atrizes ou atores no local — o que pode decepcionar alguns visitantes. Entre as vozes, porém, se destacam nomes como Fernanda Montenegro e Lima Duarte.
Nos bastidores, quem "aperta o botão" para que a apresentação ocorra são dois funcionários da prefeitura que se revezam a cada semana.
— Chegamos com uma hora e meia de antecedência, mais ou menos. É feito um passeio no sítio verificando toda a parte da iluminação, se está de acordo, apta a receber o pessoal e rodar o espetáculo normalmente — explica o técnico em informática Marlon Ribas Covari, 31 anos, um dos responsáveis.

Como funciona o sistema
Marlon esclarece que há um sistema de luzes e outro de áudio que funcionam de forma sincronizada e automatizada.
— Só ligamos, acompanhamos o funcionamento e, após, desligamos. A programação é gravada e o sincronismo é automático — completa.
Nas décadas iniciais do espetáculo, o sistema era outro: a sequência de sons e luzes estava gravada em uma grande fita.
A central de comando onde ele e o colega Maikel Ivan Müller, 42 anos, trabalham fica em um contêiner fora dos limites do sítio arqueológico.
A trama do espetáculo foi escrita por Henrique Grazziotin Gazzana. Já a parte técnica de sincronização de som e luz foi feita pelo técnico em iluminação cênica e arquitetural temática Gerry Marquez, 74 anos.

Ele inclusive integrou a equipe de criação do Som e Luz. Entre as tarefas, foi quem definiu onde ficaria cada personagem, em forma de luz, na paisagem do sítio:
Onde tem som, tem luz. Onde tem luz, tem som. Esse é o conceito. Para isso acontecer, precisa existir sincronismo
GERRY MARQUEZ
Técnico em iluminação cênica e arquitetural
O Som e Luz ocorre todas as noites e tem opções em português, espanhol e inglês. Quando chove, o público fica na varanda do museu que integra o sítio arqueológico. Entretanto, há alguns cuidados com os equipamentos.
— Temos um cuidado especial com o tempo quando está com descargas elétricas, porque pode ter risco tanto para nós, operadores, quanto para o pessoal, porque é campo aberto, sabemos os riscos que tem — destaca Marlon.
"Deu para entender a luta"

A escuridão da noite traz outros ares para quem assiste ao espetáculo na arquibancada, em frente às ruínas. O som faz com que o visitante sinta a aproximação de tropas, a vida na antiga redução e mesmo os trovões de um temporal.
As luzes mexem com a imaginação, levando os olhos a perseguirem os flashes e fazendo o corpo ter a sensação de que alguém sairá do meio das árvores a qualquer momento.
Também destaca as personagens que dialogam desde o começo: a terra e a igreja. Aliás, as ruínas iluminadas em meio ao cenário escuro são uma obra à parte.
A trama é contada em tom mais poético, o que pode exigir que o espectador tenha algum conhecimento prévio sobre a história.

O enredo inclui personagens como o líder indígena Sepé Tiaraju. A morte dele em meio à Guerra Guaranítica, envolvida por traição, resistência e busca por liberdade, é o ponto alto da apresentação.
— Achei o espetáculo muito emocionante. Eu já conhecia um pouco da história, mas achei que foi contada de uma forma muito boa. Deu para entender a luta, o sangue que caiu durante esses conflitos — ressaltou a professora aposentada e conselheira tutelar Maria Inês Weber, 57 anos.
Um novo projeto
Segundo a secretária de Turismo e Cultura de São Miguel das Missões, Rosana Fassini, o Som e Luz deve começar a dividir o cenário com outro espetáculo, desta vez incrementado por projeções. A organização das exibições será definida futuramente.
— A proposta é trazer uma nova abordagem, trabalhando mais fortemente o cotidiano do povo guarani dentro da redução, valorizando a sua cultura, os seus costumes e a forma como viviam nesse território — afirma.
O projeto está em fase de licitação e passa por trâmites junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Como assistir ao Som e Luz
Horários
- Novembro a fevereiro: às 21h
- Março a outubro: às 20h
- Para versões em espanhol e inglês, acesse: visitesaomiguel.tur.br/pontos-turisticos
Ingressos
- R$ 30 (inteira)
- R$ 15 (estudantes, idosos, professores das redes municipal, estadual e federal, crianças de sete a 14 anos e acompanhante de pessoas com deficiência)
- Há grupos isentos (confira: visitesaomiguel.tur.br/pontos-turisticos)
- Compras no local ou online: ingressos.visitesaomiguel.tur.br
*Repórter viajou a convite da Associação Brasileira de Agências de Viagens do RS (Abav-RS) e da Associação dos Municípios das Missões (AMM).




