“Quando descobri que estava grávida de um menino, me apavorei. Tentei um livro famosinho sobre como educar meninos, mas rasguei antes de jogar fora, para ninguém correr o risco de ler qualquer clichê sobre hormônios.”
Assim começa o livro Para de frescura!: Reflexões sobre como educar meninos no mundo de hoje, da especialista em gênero Marina Speranza. A autora convida pais e responsáveis a encarar de frente um contraste preocupante.
De um lado, meninas são cada vez mais estimuladas a agir com autonomia e sensibilidade; de outro, garotos seguem pressionados por expectativas rígidas e contraditórias sobre o que significa “ser homem”. A conta não bate.
— Temos que falar disso porque as novas gerações estão muito mais conscientes. As meninas estão recebendo essa informação das mães, e de todos, sobre a gente ser empoderada, forte, de que a gente pode tudo. E os meninos estão um pouco “opa, e o que a gente faz com isso? Como a gente fica?” — indaga.
Natural de Porto Alegre, Marina cresceu em Florianópolis, em Santa Catarina, e estudou Design Gráfico. Trabalhou com comunicação, publicidade, foi redatora e até fundou uma agência de gestão de mídias sociais. Tornou-se mãe e começou a repensar alguns discursos batidos.
Com a Palavra
Em 2019, mudou-se para a Espanha para fazer Mestrado em Gênero e Políticas de Igualdade na Universidade de Valência. A dissertação foi sobre como pais ensinam seus filhos a “ser homens”. No meio da pandemia de covid-19, fazendo movimentações para começar o doutorado e continuar a pesquisa, Marina conta que sentiu uma ânsia de trazer para o mundo o trabalho que havia feito:
— Então, eu criei uma conta no Instagram (@omeninoeofeminino) e resolvi transformar minha dissertação em livro. Eu estava lá na Espanha, batendo nas portas das editoras aqui, e todas me davam uma resposta padrão, que estava super bem escrito, mas que não valeria para elas. Então fiz uma edição e imprimi por demanda. A pessoa pedia e o livro ia para a casa dela. Deu muito certo. E eu enviei ele para algumas pessoas, tipo a Martha Medeiros, que foi uma das primeiras pessoas que falou sobre.
Neste contexto de divulgação, a Editora Planeta viu a importância dos debates que a obra trazia. Foi aí que surgiu uma nova versão do livro, editada e revisada, com dicas de materiais de apoio, como podcasts, filmes e séries, que agora está disponível nas livrarias.
Em entrevista à Zero Hora, Marina Speranza navega por temas difíceis, mas necessários, que cercam a formação emocional dos meninos e os padrões de masculinidade ainda reforçados na vida pública e privada.

Confira a entrevista com Marina Speranza
Em que momento nos encontramos, como sociedade, para essa conversa sobre a educação dos meninos?
Quando engravidei, eu estava assustada. Eu lembro que eu falava “Meu Deus, tem um monstro dentro de mim”. Imagina! Pensar isso é um absurdo, porque eu tenho um marido sensível, tenho um pai e outras boas referências. Só que a gente está vivendo um momento muito duro.
Como que a gente conecta essa dureza, todo esse patriarcado, com pessoas que também são seres humanos? Mas que têm alguns privilégios porque são homens. Esse é o ponto. E claro, como que a gente faz para que eles entendam que eles vão ter que, de certa forma, perder algo, mas que também vão ganhar com isso? Essa é a conversa: sim, vocês vão perder privilégios, mas vão ganhar muito com isso.
Acredito que as mulheres estão sentindo essa necessidade. As mães, os pais, também, porque eles estão vendo que a educação que tiveram não é mais tão interessante. Com esse movimento todo das meninas se empoderando, surgiram também movimentos contrários, de meninos falando que elas estão querendo demais. Então é importante que a gente possa ouvir esses meninos.
Tendo em conta que a educação e a socialização masculina hoje faz mal para muita gente. Faz mal para os meninos, para as minorias, sobretudo as mulheres. A gente tem que ver como vai incluir tudo isso, pensando nas meninas e nos meninos. Ouvindo os dois. Agora, tem um descompasso aí.

É como se a sociedade tivesse focado, por muito tempo, em como criar meninas mais fortes e menos submissas, e, enquanto isso, tivesse esquecido de olhar para a criação dos meninos?
Acho que sim. E acho que falta mesmo esse olhar de como era essa educação? O que a gente esperava? E o que a gente espera do menino hoje? Tem essa questão de existir expectativas muito fortes. Que ele seja forte, que seja eficaz — na vida, no trabalho, na cama —, que trave os sentimentos de cuidado porque precisa ser duro.
Alguns valores que a gente trabalhava com os meninos, nessa história de não poder ser frágil, a gente pode rever. Assim como a gente reviu sobre as meninas. Que elas poderiam ser fortes, eficazes e fazer tudo. Os meninos também podem sentir, chorar. Não é totalmente o inverso, mas algo complementar.
Vejo que muitas pessoas pesam os riscos de ter um filho ou uma filha na sociedade atual. Por que esse medo é tão presente?
Ter filho menino ainda é uma forma de privilégio. Por mais que eu tenha medo de que meu filho, sei lá, leve uma porrada, eu sei que ele tem muito menos risco de sofrer uma violência sexual, por exemplo. E é difícil largar desse privilégio, o que é bem curioso.
As pessoas estão se conscientizando mais disso. Mas aí, vejo alguém que leu e gostou do livro, me dizendo que quando teve um filho homem ensinou sobre gostar de futebol. As pessoas vão reproduzindo tantas falas e padrões. Acho que, antes de tudo, a gente tem que quebrar, na gente mesmo, os machismos que a gente reproduz, até sem perceber. Eu também faço isso.
Estava focada no Big Brother Brasil e era super interessante ver como as meninas, a Jordana, a Marciele, eram nada ali naquele grupo de homens. É meio chocante ver o quanto a gente não é tão consciente disso ainda. Mesmo que a pessoa fale que é empoderada, que não precisa de homem, ela ainda pode se pegar presa nessa dinâmica que é muito presente. Pouco a pouco, a gente vai se conscientizando e melhorando isso.
Por quais pontos passa essa educação e conscientização?
Diálogo, diálogo e diálogo. Mesmo, desde pequenininho, a gente tem que dialogar. Não só aquela conversa adultocêntrica, que eu sou o adulto e eu tenho razão. Mas ouvir também.
Aquele livro, que fala dos hormônios, que eu citei, me fez crer que eu estava esperando um menino cheio de hormônios masculinos. Mas meu filho é sensível. Eu escuto ele, sei quem ele é, e acho que a gente precisa escutar os meninos.
A questão das referências é importante também. Ter exemplos de pais legais, de homens legais, de homens à volta que são legais. E, claro, referências femininas. No livro, sempre que possível, indico ler, conhecer, coisas femininas. Para o menino ter essa coisa da igualdade. Porque na rua, na televisão, ele vai ouvir e vai adquirir referências machistas, o tempo todo.

Voltando ao BBB, com o grupo do Jonas e do Alberto Cowboy, vimos muitas conversas nas redes sobre como eles não valorizavam a opinião das mulheres que eram aliadas deles. Não tinha igualdade. De que forma é possível ensinar o menino a ouvir, respeitar e considerar mulheres de forma igual?
É muito clara a diferença Jonas e Juliano Floss, por exemplo. A relação que o Jonas tinha com as mulheres da casa era ficar com elas, e ele sempre era o centro das relações. O Juliano, por outro lado, conseguia ter amigas, com quem ele divide o choro, a risada. Eles se ouviam, se aconselhavam. É um respeito muito diferente.
A gente vê surgindo muitos dados negativos, de feminicídios, violências, mas a gente também vê meninos que estão quebrando esses padrões e crescendo de maneiras diferentes. O Juliano Floss, do BBB26, para mim, é um exemplo de um menino que teve essa postura diferente, que tem referências femininas. E isso é legal.
Tu falaste de saber que, na rua, as referências serão mais machistas. Principalmente agora, que vemos o crescimento de conteúdos misóginos online, como os pais podem ajudar os filhos a navegar por essa diferença de perspectivas?
Quanto mais a gente fizer essa base desde criança, um pouco mais seguro vai ser. Então, um entorno em que a gente possa estar conversando desde cedo. Aquela série Adolescência é interessante. Tem um pessoal da Espanha que fala que, pelo nome, parece todos os adolescentes estão dentro do quarto e vão matar a gente, como se adolescência fosse isso.
E eu acho que não é só isso. Acho que sim, existem casos extremos e existem casos um pouco menos preocupantes, que talvez estejam ali em contato, mas que a gente pode ter diálogo. E, no momento em que a gente tem diálogo, a gente consegue tentar entrar. Só que aí, claro, a gente está falando aqui de questões privadas, de família, mas também tem o público. Então, tem algo de ter que ter uma questão de políticas públicas desenvolvidas, tem que ter educação nas escolas.
Cabe a nós, como mãe, pai, perguntar como essas questões são tratadas na escola. E exigir políticas públicas.
Um menino que tiver uma educação diferente, e se tornar mais empático e menos machista, ainda pode encontrar resistência fora de casa?
É um fato. Eles vão ouvir coisas por serem assim. Vão ouvir que são gays, como se fosse algo ruim. Porque, na educação masculina, ser homem é tudo o que não é ser mulher.
Então qualquer atitude que não seja considerada masculina por esse padrão, é feminina. Mas o peso disso também é construído com o diálogo.











