
Prestes a completar uma década de existência, o Death Café – projeto itinerante de Porto Alegre que promove encontros para conversar sobre a morte — expandiu sua atuação pelo Rio Grande do Sul. No início de 2026, a iniciativa passou a ser conduzida também por uma equipe de Novo Hamburgo, somando-se ao grupo já existente em Taquara.
A proposta segue a da iniciativa na Capital: reunir o grupo mensalmente para discutir questões ligadas à finitude durante um café da tarde. Na Região Metropolitana, o projeto passou a ser liderado pelas enfermeiras Cristina Manente Cruz e Luciana Lannes, e pela médica Isadora Brandão da Silva.
Segundo Cristina, a ideia é construir uma iniciativa própria a partir do modelo já consolidado, mas que tenha diferenças em alguns aspectos. O principal deles é o fato de serem desenvolvidos no interior do Rio Grande do Sul, o que acaba gerando outras especificidades nos diálogos sobre a morte.
— A intenção é que o projeto não perca sua essência, mas tenha as energias de quem está trilhando seu próprio caminho. É um costurar e remendar, ir percebendo o que está funcionando e também aquilo que não está dando certo — explica a enfermeira.
Para uma das criadoras do projeto, a fisioterapeuta Cristiane Moro, que o fundou ao lado da psicóloga Natalia Frizzo, abrir esses espaços fora de Porto Alegre, onde por vezes há uma cultura mais introspectiva, surge como uma alternativa para ajudar as pessoas a experienciar plenamente os processos de perda e finitude.
— A morte, principalmente em Novo Hamburgo e São Leopoldo, é uma morte asséptica, como a gente diz. É aquela morte no hospital. É a morte que ninguém quer que aconteça em casa, porque as pessoas têm medo, sabem que vão estar sozinhas nesse processo. E a nossa tentativa é mostrar que existem outras possibilidades — ressalta.

Desenvolvido em Porto Alegre desde 2017, o projeto nasceu de um encontro sobre cuidados paliativos, ocasião em que a dupla se conheceu. A criação da iniciativa foi motivada pela identificação de uma lacuna no campo dos cuidados de fim de vida na Capital.
— Queríamos discutir não só qualidade de vida, mas também qualidade de morte e a possibilidade de escolhas, de autonomia, até o último suspiro. Procuramos construir essa cultura dentro da nossa comunidade, porque percebemos que, tanto aqui na cidade quanto em todo o Brasil, a gente ainda tem muita dificuldade em abordar o tema da morte — afirma Cristiane.
Não substitui terapia
Devido ao seu caráter dialógico, o Death Café pode, muitas vezes, ser confundido com uma espécie de sessão de terapia. Para Natalia, que atua tanto na clínica psicológica quanto na condução do Death Café, a diferença entre os dois é clara.
— O Death Café não é terapia, e fazemos questão de deixar isso claro. Não há condução clínica, intervenção individual nem objetivo de tratar sintomas. O que existe ali é um espaço de conversa horizontal, onde as pessoas podem falar sobre a morte, escutar outras experiências e, a partir disso, ampliar o olhar sobre a própria vida — enfatiza.
Natalia diz que o projeto ocupa um lugar de cuidado, mas não de tratamento:
— Ele pode, inclusive, despertar movimentos importantes, como a decisão de buscar terapia, por exemplo, mas não substitui esse espaço. É mais sobre construção de sentido, humanização e sobre permitir que um tema tão evitado possa ser colocado em palavras.
Embora a morte ainda seja tratada como tabu, a psicóloga Débora Marchetti relata que o tema ainda tende a surgir apenas quando a perda é iminente. Diante de uma situação irreversível ou de um diagnóstico terminal, as pessoas passam a buscar alternativas que ajudem a lidar com o desamparo — tanto de quem vai quanto de quem fica.
— Por mais doloroso que seja viver essa despedida, também possibilita dar sentido a essa existência. Então, quando a gente proporciona esse cuidado, esse diálogo, esse momento vai ficar marcado para sempre e vai permitir que se possa elaborar isso — reflete.
De acordo com a psicóloga, a morte é um assunto que deve ser abordado em todas as fases da vida, começando na infância. Isso ajuda a fazer sentido das coisas percebidas no cotidiano desde cedo: no momento em que a criança esmaga um inseto e ele não volta a caminhar até quando ela arranca uma flor e ela murcha, perde a cor, seca.
— Através da conversa, ela passa a entender o porquê das coisas, a elucidar e a desmistificar esses fenômenos — conclui.
Para participar
Para participar, basta comparecer ao local indicado, não é necessário se inscrever. A atividade é gratuita, e os participantes pagam apenas o que consumirem nas cafeterias.
O primeiro encontro em Novo Hamburgo ocorreu no último dia 21, e o próximo já está marcado para 24 de abril. Mais informações podem ser encontradas na página @deathcafenh.
As datas e os locais dos encontros são divulgados mensalmente nas redes sociais dos projetos; em Porto Alegre, o perfil é @deathcafeportoalegre.
*Com orientação e supervisão da jornalista Lou Cardoso


