Com terra avermelhada, colinas na paisagem e cruzes de quatro braços nos trevos das cidades, a região das Missões no Rio Grande do Sul é um marco geográfico, mas principalmente histórico.
O nome se refere às Missões Jesuíticas Guarani — ou reduções — que fazem parte da formação do povo gaúcho. Em 2026, são lembrados os 400 anos desde a primeira experiência no Estado, iniciada em 1626, em São Nicolau. O governo do RS lançou uma programação especial sobre o tema até o fim do ano.
Um dos embaixadores das festividades é o pajé Mbyá Guarani Floriano Romeu, da Aldeia Tekoá Piãú, em Santo Ângelo. Ainda que tenha dificuldades com o português, o recado ecoa em todas as línguas:
— Cada um tem uma cultura diferente. Respeite a cultura.
Para além da agenda especial, é possível montar um roteiro turístico e visitar as estruturas que resistiram ao tempo nesta área do noroeste do Estado que comporta 27 municípios (veja acima).
O destino mais conhecido são as ruínas de São Miguel das Missões, declaradas patrimônio mundial em 1983. O sítio arqueológico fica a 477 quilômetros de Porto Alegre — quase a mesma distância da capital gaúcha até Florianópolis (SC).
A viagem dura de sete horas a oito horas de ônibus (a partir de R$ 100) ou de carro. Saindo do Aeroporto Internacional Salgado Filho, há voos diretos de cerca de uma hora até Santo Ângelo, a 50 quilômetros de São Miguel. O custo de ida e volta fica entre R$ 1 mil e R$ 2,5 mil.
Conheça alguns destinos das Missões
Ruínas de São Miguel Arcanjo
Na RS-536, o pórtico de São Miguel das Missões já dá ideia do passado a ser revisitado nos quilômetros seguintes. A entrada do município tem, entre as esculturas, uma do guerreiro indígena Sepé Tiaraju. A frase atribuída ao líder guarani acompanha a passagem: Co Yvy Oguereco Yara ("Esta terra tem dono").
As ruínas de São Miguel Arcanjo encantam pela grandiosidade e pela conservação. O que restou da antiga igreja da redução permite aos visitantes imaginar o tamanho que uma das comunidades poderia ter.
Segundo a historiadora e guia de turismo Nadir Lurdes Damiani, ao todo eram 26 hectares de área construída — o equivalente a pelo menos 36 campos de futebol.

Dentro do sítio arqueológico, um museu reúne a maior coleção pública do Mercosul de esculturas missioneiras em madeira policromada dos séculos 17 e 18.
Um atrativo que não pode ficar fora do roteiro é o espetáculo Som e Luz, que ocorre todas as noites nas ruínas.
- Funcionamento e valores em: visitesaomiguel.tur.br/pontos-turisticos
Ruínas de São Nicolau
Cidade de pouco mais de 5 mil habitantes, São Nicolau é conhecida como "a primeira querência do Rio Grande do Sul". Os vestígios da redução que ali existia se misturam à Praça Padre Roque Gonzales de Santa Cruz. Uma das partes aparentes das ruínas é a parede lateral da antiga igreja.
Além da praça central, há um museu que mantém cerâmicas guaraníticas, itens de ferro e até mesmo duas pias de batismo esculpidas por indígenas.
Uma adega missioneira subterrânea também chama atenção. Como detalha a historiadora Nadir, as bebidas alcoólicas eram exclusividade dos padres, já que o consumo era proibido para os indígenas.

A especialista explica que as reduções tinham água canalizada e sistema de esgoto:
— Em São Nicolau e São Lourenço (nome de outra missão), é onde vemos mais claramente os dutos de água, que passavam por baixo das latrinas, feitas em linha reta, e já levavam os dejetos para a quinta (onde havia produção agrícola), para adubação.
Ainda, as lendas não passariam despercebidas por terras tão antigas. Moradora de São Nicolau, Ágata da Silva, 18 anos, conta que haveria uma noiva indígena a qual, em noites de lua cheia, apareceria na praça gritando pelo parceiro. A jovem, que é rainha do café de cambona, uma tradição no município, também acrescenta:
— Dizem os antigos que a nossa figueira (na praça principal) cresceu em volta de um mastro que dentro tinha uma panela de ouro. De noite, cairia uma bola de fogo sinalizando que ninguém pegou a tal panela de ouro.
- Ruínas das missões de São Nicolau: abertas diariamente. Sem taxa
- Museu: de segunda a sexta-feira, das 7h30min às 11h30min e das 13h30min às 17h30min. Nos fins de semana e feriados, sob agendamento. Sem taxa
Ruínas de São João Batista
A redução de São João Batista, em Entre-Ijuís, foi um desmembramento da de São Miguel Arcanjo. Isso porque, quando uma missão jesuítica guarani atingia o limite de moradores (em torno de 7 mil), uma nova era construída.
Longe do centro urbano do município de cerca de 9 mil habitantes, as ruínas de São João Batista permitem ver parte da antiga igreja e do cemitério, utilizado ainda hoje.
A historiadora elenca como um dos diferenciais do local a construção da primeira siderúrgica de ferro e aço da América do Sul espanhola. E completa:
— Também foi feito um dos melhores conservatórios de música, que tinha música sacra europeia "misturada" com a dos guarani, que sempre tiveram uma sensibilidade muito grande à arte.

A poucos minutos das ruínas, o Santuário de Nossa Senhora de Altotting traz certa modernidade, já que data de um período pós-missões.
Em uma das paredes, porém, permanece uma homenagem: há um pequeno pedaço de pedra de cada um dos Sete Povos das Missões que se espalharam pelo RS.
- Ruínas de São João Batista: abertas diariamente, das 7h às 19h. Sem taxa
- Santuário: sob agendamento
Santuário do Caaró
A região onde fica o município de Caibaté, hoje com menos de 5 mil habitantes, fez parte do primeiro ciclo missioneiro, período entre 1626 até por volta de 1638. Não há ruínas, mas um local que atrai visitantes pela espiritualidade: o Santuário do Caaró.
Lá, como esclarece o professor de História Charlei Willers, indígenas mataram dois padres jesuítas: Roque Gonzales de Santa Cruz e Afonso Rodrigues — declarados santos em 1988, junto ao também jesuíta João de Castilho.
A revolta se deu poucos dias após a inauguração da redução, em 1628, principalmente pelas interferências dos padres nos costumes e no poder já estabelecidos.
O que aconteceu na sequência fez o local ser reconhecido como espaço de fé:
— Quando o padre Roque Gonzales foi morto e colocado dentro da capela, que era de madeira e palha, ela foi incendiada. No outro dia, quando os outros padres vieram para recolher os corpos deles (de Roque e de Afonso Rodrigues), o coração (de Roque) estava intacto.
Dizem que o coração falou para os índios: 'Matastes a quem vos amava'
CHARLEI WILLERS
Professor de História
A presença dos jesuítas, contudo, não era rejeitada por todos. Havia indígenas que nela buscavam garantia de defesa e de alimento com a criação de gado.
Além do santuário, Caaró tem hospedagem para retiro espiritual e uma fonte de água benta.
- Santuário: aberto todos os dias, das 8h às 11h30min e das 13h30min às 18h. Taxa (R$ 2 por pessoa) apenas para ônibus de excursão. Missas ocorrem aos domingos, às 10h. Parque e fonte de água benta ficam abertos o dia inteiro
Catedral de Santo Ângelo
Quem se dirige à Praça Pinheiro Machado, no centro de Santo Ângelo, encontra um pórtico com nomes dos 30 povos das Missões — que incluem as reduções jesuíticas da Argentina e do Paraguai.
Em um dos lados da praça, a Catedral Angelopolitana mostra uma beleza rosada por conta da coloração do arenito, pedra que foi utilizada na construção.
O prédio foi construído onde antes havia a igreja da redução de Santo Ângelo Custódio. Os vestígios desse passado hoje são visíveis, principalmente, em forma de alicerces a céu aberto.

Os visitantes podem conhecer também um museu sobre as Missões, inaugurado em 2024, ao lado da catedral, com artefatos pertencentes aos guarani e uma retomada da história missioneira. Outro museu, mais antigo, está fechado para reforma.
- Catedral: de domingo a sexta-feira, das 8h às 20h. Aos sábados, das 8h às 18h. Missas ocorrem todos os dias, exceto aos sábados, às 19h. Sem taxa
- Museu: de terça-feira a sábado, das 9h às 12h e das 14h às 17h30min. Nos domingos e feriados, das 14h às 18h. Sem taxa
- Roteiro rural: sob agendamento
Uma cultura diversa
Segundo a Associação dos Municípios das Missões (AMM), a região tem 27 municípios. Confira alguns destaques:
- Cerro Largo é o berço da colonização alemã nas Missões — a cidade tem, inclusive, a tradicional Oktoberfest
- Guarani das Missões une a bandeira brasileira à da Polônia. É conhecida como "capital polonesa dos gaúchos"
- Em Roque Gonzales, uma praia foi construída às margens do Rio Ijuí
- Em Porto Xavier, já na fronteira com a Argentina, a vista do Rio Uruguai é o que encanta
*Repórter viajou a convite da Associação Brasileira de Agências de Viagens do RS (Abav-RS) e da Associação dos Municípios das Missões (AMM).
