Entre grupos nas redes sociais, vídeos virais e opiniões inflamadas, um fenômeno digital tem ganhado força: a chamada "machosfera". O termo se refere a um conjunto de comunidades online formadas por homens nas quais são compartilhados principalmente discursos contra mulheres e pautas de igualdade de gênero.
O estudo "A machosfera é política: construções ideológicas e ataques a política de gênero", realizado por pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mapeou e analisou postagens de 85 grupos abertos do Telegram no Brasil, entre 2015 e 2025, e concluiu que a "machosfera" possui uma dimensão política.
Em entrevista ao Timeline, da Rádio Gaúcha, nesta terça-feira (21), a coordenadora da pesquisa, Julie Ricard, aponta que esses espaços digitais não funcionam apenas como locais de desabafo ou de compartilhamento de ideias isoladas, mas como ambientes que organizam valores e visões de mundo.
Neles, são formadas concepções sobre quem deve ter poder, quem deve ser combatido e quais pautas são consideradas legítimas.
A partir disso, essas comunidades produzem efeitos que extrapolam as redes sociais e impactam o debate público, bem como a percepção sobre políticas de igualdade e proteção de direitos.
— Os homens chegam para tentar defender o que entendem estar sob ataque, que são os seus próprios direitos. E por que eles sentem que estão perdendo? A gente entende isso em uma perspectiva de perda de privilégios. Foram décadas de avanço do feminismo e dos direitos das mulheres, de busca por mais igualdade, e isso acaba gerando frustração em quem sempre esteve em uma posição privilegiada.
O caráter político também se mostra na frequência em que figuras da conjuntura nacional são mencionadas. Só os nomes do presidente Lula e do ex‑presidente Jair Bolsonaro somam mais de 15 mil citações nos grupos analisados.
— A escolha por analisar os nomes do presidente Lula e do ex-presidente Jair Bolsonaro parte da literatura sobre polarização afetiva, que mostra como o Brasil vive, nos últimos anos, uma forte divisão política em torno dessas duas figuras. A ideia foi usar essas menções como um indicador, ainda que imperfeito, da presença da discussão política dentro desses grupos.
Ela destaca, contudo, que a simples citação não permite saber se os comentários são positivos ou negativos, nem quem está sendo defendido.

Outros discursos presentes
A pesquisa identificou ainda a recorrência de ataques a políticas públicas voltadas à proteção das mulheres, como a Lei Maria da Penha. De acordo com Julie, esses grupos afirmam que a legislação seria um instrumento jurídico contra os homens.
— Na visão deles, existe uma realidade de opressão, em que os avanços nos direitos das mulheres são interpretados como uma injustiça dirigida a eles. A Lei Maria da Penha aparece como um elemento central para cristalizar esse discurso — aponta.
Julie Ricard explica que, nesses espaços, circulam discursos que reforçam hierarquias de gênero. São visões bem marcadas sobre como homens e mulheres deveriam se comportar e sobre quem deve ter autoridade.
Embora a misoginia seja a temática central nos conteúdos analisados, frequentemente apareceram outras formas de preconceito, como racismo, LGBTfobia e classismo.
O estudo se concentrou em comunidades públicas do Telegram, mas Julie alerta que esses grupos representam apenas a "ponta do iceberg". A "machosfera" se manifesta em outras redes sociais, muitas vezes de forma menos visível, acrescenta.
— A gente está olhando para comunidades abertas. Ou seja, é a pontinha do iceberg. Não é mais um canto escondido da internet, é algo que já está numa plataforma mainstream, está em grupos públicos. Então, qualquer um pode acessar esse tipo de discurso e há discursos muito violentos nesses espaços, o que é preocupante — reflete.
Para Julie, o cenário envolve um problema complexo e exige várias frentes de ação. Ela defende que é necessário uma melhora na moderação das plataformas digitais, que hoje ainda é insuficiente.
Outro ponto que ela cita é o debate sobre a criminalização da misoginia. Mas, além disso, reforça que é preciso pensar em como acolher as frustrações desses homens, muitas vezes, ligadas a trabalho, renda, status e padrões de sucesso, sem permitir que elas se transformem em violência. O desafio é criar espaço para construir masculinidades mais positivas.



