
Dificilmente algum amante de futebol não fica com o coração dilacerado quando, após lavar a camisa de seu time, vê que detalhes como números, nome ou patrocínios começam a descolar. A peça fica feia e com aparência de velha. Observado a situação, o empresário José Osvaldo Marques da Silva, 64 anos, pensou em uma maneira de reverter esse drama.
Entusiasta das artes e "arquiteto autodidata", o leopoldense criou a Rei dos Patchs, empresa pioneira no trabalho de restauração de camisas de time, mas que também atua na personalização. O empreendimento fica na Avenida Protásio Alves, 3.664, no bairro Petrópolis, dentro da loja de materiais futebolísticos Memórias do Esporte.
Com um trabalho minucioso e detalhado, o empreendedor consegue trazer de volta ao seu esplendor mantos das mais diferentes épocas, recriando todos os detalhes da peça. É como se a roupa entrasse em uma máquina do tempo — claro, dentro das limitações da trajetória da peça, já que não há muito o que fazer com um tecido com rasgos e fios puxados.
Pedidos de vários países

O trabalho de Silva com as camisas começou em 2002, ano de Copa do Mundo, quando, dono de gráfica, decidiu oferecer personalização das peças, que vinham com números mas sem nomes. Entrou no mercado para preencher essa lacuna. Depois, deu um passo a mais e começou a consertar os números caídos. A fama se espalhou pela Capital — e pelo mundo, passando a receber pedidos de vários países.
— Importei um material dos Estados Unidos e comecei a fazer personalização na minha gráfica, que era no shopping Praia de Belas. Um dia, chegou um cliente que queria botar nome na camisa, vi que o número estava estragado e sugeri arrumar.
Depois do serviço, que foi difícil, Silva jurou que nunca mais faria restauração.
— Mas esse cliente indicou para um amigo, e esse amigo para outro, e acabei cedendo. Hoje, são 24 anos fazendo restauração — diverte-se.
Dedicação exclusiva
O negócio cresceu tanto que a gráfica, que era o carro-chefe do empresário, foi perdendo espaço e, em 2017, a Rei dos Patchs ganhou a dedicação exclusiva de Silva, que é o motor do negócio.
É ele quem faz todos os desenhos das letras e dos números para os restauros das camisas utilizando um software, replicando quase fielmente o original. E o mais interessante: faz isso a partir do Velho Continente.
Mudança para Portugal
Silva se mudou com a família para Portugal em 2024, em busca de qualidade de vida. Hoje, faz o mesmo trabalho de personalização e restauração de camisas de time no país europeu, diretamente da garagem de sua casa. E garante que está virando referência por lá, devido ao capricho com as peças.
Mesmo com um oceano de distância, cada uma das peças que chega à Rei dos Patchs de Porto Alegre passa por ele. Depois de a camisa ser limpa e escaneada na Capital, é Silva quem desenha cada número e letra do tamanho exato que precisa para o manto em questão. É um trabalho artesanal.
O empreendedor e artista dos mantos entendeu que não adiantava fazer os números e nomes das camisas do tamanho original, porque, na hora da primeira prensagem, quando a peça sai da loja, novinha, ela já sofre uma deformação — o que piora com o uso e as lavagens no decorrer do tempo. Por isso, é preciso adaptar cada trabalho.
Reconstituição fiel
O primeiro passo quando o manto chega à Rei dos Patchs é a remoção de todos os números ou letras caídas que serão trocados, bem como o excesso de cola. Depois, a peça é escaneada e redesenhada no computador, já em Portugal — em 24 anos de experiência, Silva tem uma coleção gigantesca de fontes, das mais diferentes épocas e estilos, com o modelo encontrado na internet, mas reajustado para o seu negócio pelo próprio empreendedor.
Cada número e letra, então, é ajustado para cobrir exatamente a marca que fica na camisa, onde estavam as estampas originais. Esse é o segredo que faz com que o Rei dos Patchs seja referência na área, deixando cada peça o mais perto possível da sua versão nova.
Trabalho minucioso
O material, um flex termo-colante, garante Silva, é o melhor que existe para este fim. Ele se recusa a aderir a produtos de qualidade inferior — mesmo que essa decisão encareça um pouco o processo. A impressora é uma a jato de tinta de grande formato, que já entrega as letras e os números cortados, prontos para ir para a camisa.
Eis que entra o trabalho de Kevin Alves Vargas, 29 anos, funcionário da Rei dos Patchs há mais de uma década e que faz a segunda, e bem delicada, parte do trabalho: a remoção dos números e letras estragados, com um produto específico para isso, vindo, logo em seguida, com a colocação das peças restauradas, milimetricamente posicionadas e, depois, prensadas.
— Vem muita gente com camisas em péssimo estado, com números e letras grudados um no outro. Limpar isso é muito difícil. É engraçado quando vem o parceiro de alguém ou a mãe, a avó que lavou a camiseta da pessoa e caiu os números e as letras. Chegam aqui desesperados para consertar. Restauramos e, na entrega, ficam muito felizes, porque fica igualzinho — conta Vargas, que consegue ajustar mais de 20 camisas por dia.
Amor pelo manto
O comerciante Giovani Carasai, conhecido como Gringo, 56, é cliente da Rei dos Patchs há mais de uma década. Morador de Caxias, é colecionador de camisas de time — tem mais de 500 peças — e, por isso, volta e meia recorre às restaurações oferecidas por Silva. Conta que já mandou mais de uma centena de peças para renovação.
— Trouxe da Serra uma camisa de 2017, do Luan, do Grêmio, e o pessoal deixou ela zero quilômetro. É quase como ver uma reforma de carro. É uma sensação muito boa. E é muito importante que exista esse tipo de serviço, principalmente para quem gosta do seu item perfeito — conta Carasai.
A história de cada camisa
Quando estava para se mudar para Portugal, há dois anos, Silva abriu a oportunidade para um sócio se juntar ao negócio, que personaliza e restaura mais de 500 peças por mês. Entra em cena Jair Cunha, 47, que já era do ramo, dono do Brechó Colorado. E a parceria deu certo, tendo em vista a paixão do mais novo membro da família Rei dos Patchs pelas camisas:
— A gente dá uma nova vida aos mantos. Para muita gente, é só um pedaço de pano, mas para quem ama as coisas do futebol não é somente isso. É a história daquela camisa que virou a da sorte, é uma lembrança de alguém que não está mais aqui. Já entregamos camisas restauradas e vimos as pessoas chorando, emocionadas. Isso é o mais legal desse trabalho. E, claro, ainda tem a questão da economia: olha os valores que estão as camisas de hoje. É mais em conta restaurar (risos).


