Os primeiros sinais não vieram em forma de palavras, mas de comportamentos. Medos diversos e desproporcionais, dificuldade para dormir, preocupação extrema com qualquer possibilidade de falha. Foi assim que a advogada e decoradora Ana Cristina Coutinho, 42 anos, percebeu que o filho Samuel, 12, estava ansioso.
— Além dos sintomas emocionais, ele manifestava a ansiedade fisicamente: roía as unhas, rangia os dentes para dormir e sentia dor de barriga em dias de prova. Cheguei a ter que buscá-lo na escola três vezes em uma semana, por estar passando mal. Isso me fez entender que algo não estava normal — relata.
A experiência da porto-alegrense ilustra uma realidade que vem crescendo no Brasil: a ansiedade em crianças e adolescentes.
Um levantamento do Ministério da Saúde mostra que, de 2014 a 2024, os atendimentos decorrentes de quadros de ansiedade no Sistema Único de Saúde (SUS) aumentaram quase 2.500% entre as crianças de 10 a 14 anos. Já na faixa etária de 15 a 19 anos, o avanço foi de mais de 3.300%.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE), divulgada no mês passado pelo IBGE, também apontam para um cenário alarmante. Entre os quase 120 mil adolescentes de 13 a 17 anos entrevistados pelo órgão, 42,9% responderam que se sentem "irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa".
O psiquiatra Thiago Pianca, do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), diz que esses sintomas são comuns a quadros de ansiedade. Segundo ele, o aumento na incidência desta condição em crianças e adolescentes é percebido diariamente no consultório.
— A ansiedade não é exclusiva dos adultos. Pelo contrário: estima-se que ao menos 10% dos jovens apresentarão um transtorno ansioso em algum momento da infância ou adolescência. Percebemos dois picos principais de incidência, que se manifestam entre os seis e os oito anos de idade e no início da adolescência — detalha o médico.
Quando a ansiedade é preocupante?

O psiquiatra explica que a ansiedade é um sentimento natural dos indivíduos, que pode até ser importante em alguns contextos, pois ajuda na preparação para os desafios. O problema começa quando ela deixa de se manifestar como um "frio na barriga" pontual e se torna um quadro generalizado, capaz de interferir no cotidiano.
— A linha de divisão está no prejuízo funcional — diz Pianca, explicando que a regra vale tanto para os adultos quanto para as crianças e os adolescentes, que precisam contar com o olhar atento dos responsáveis para conseguirem identificar que a ansiedade extrapolou o limite da normalidade.
— Deve-se observar se a criança ou adolescente deixou de realizar suas atividades ou mudou o seu jeito por estar angustiada, nervosa ou preocupada excessivamente. O alerta não está apenas na intensidade do que se sente, mas no impacto que isso provoca na rotina, no desempenho escolar, nas relações sociais, na qualidade do sono e no bem-estar geral — orienta o médico.
Doutora em Psicologia do Desenvolvimento e terapeuta cognitivo-comportamental, a psicóloga Carolina Lisboa enfatiza que, na infância e na adolescência, os sentimentos nem sempre serão verbalizados. Por isso é importante que os pais estejam atentos e que a escola, onde as crianças e os adolescentes passam boa tarde de seus dias, também atue na identificação da ansiedade:
— Algumas mudanças de comportamento costumam aparecer com mais clareza na escola, seja na dificuldade de concentração, na queda de rendimento ou na interação com os colegas. É fundamental que os pais mantenham contato com a escola, até mesmo porque alguns sinais aparecem somente em contextos específicos. Por exemplo: a criança pode ser tranquila em casa, mas extremamente ansiosa na escola, porque algo naquele ambiente a faz sentir assim.
Como identificar a ansiedade
Mas, afinal, quais são os sinais de alerta? O psiquiatra Thiago Pianca elenca indícios importantes a serem observados pelos responsáveis. São eles:
- Necessidade constante de controle e perfeccionismo extremo: a criança ou adolescente precisa sempre antecipar cenários, tem um medo muito grande de falhar e tende a tornar os problemas maiores do que eles realmente são.
- Dificuldade extrema de separação: a criança ou adolescente não aceita ficar longe dos pais nem mesmo por períodos curtos, demonstrando um sofrimento muito intenso e desproporcional quando precisa se afastar.
- Intercorrências no sono: a criança ou adolescente demora para adormecer, tem pesadelos frequentes, sente medo de dormir sozinha e não consegue descansar adequadamente.
- Timidez e retração excessiva: a criança ou adolescente evita interação social, tem medo de situações em que precisa falar em público e apresenta dificuldade para se inserir em círculos sociais.
- Sintomas físicos sem causa aparente: a criança ou adolescente sofre com dores de barriga, náuseas, tonturas, sudorese, tremores e dores de cabeça, entre outros sintomas que não têm uma causa clínica aparente e geralmente se manifestam antes de momentos de pressão, como provas e compromissos.
A psicóloga Carolina Lisboa chama atenção para a importância de os responsáveis estarem atentos, ainda, ao modo como a criança ou adolescente se relaciona com as tecnologias, especialmente as redes sociais e os jogos virtuais. Isso porque, segundo ela, a ansiedade pode estar atrelada a um quadro de dependência tecnológica.
— É característico do ser humano buscar escapismos para não se conectar com o desconforto emocional. Os adultos utilizam a bebida e o fumo, por exemplo; para as crianças e adolescentes, é comum que o celular ou o videogame seja esse elemento de escape — diz.
Conforme a psicóloga, essa relação problemática com as tecnologias pode desencadear, além de ansiedade, algo que tem sido chamado de "profundofobia".
— Alguns jovens fogem quando começamos a falar de emoções, conflitos e tópicos mais profundos, porque estão imersos na lógica rasa e imediatista das redes sociais — explica.
Outro sinal de alerta apontado pela psicóloga diz respeito à dinâmica familiar. É preciso que os pais, além de observar os filhos, prestem atenção no modo como estão se relacionando com eles, pois posturas autoritárias e cobranças exageradas podem deixar os pequenos ansiosos.
— Os filhos sentem quando estão decepcionando ou quando os pais estão depositando expectativas excessivas sobre eles. Muitos jovens tentam ser multitarefas, atender ao que os adultos esperam, e não conseguem lidar com as frustrações. É preciso que os pais tenham calma e escuta ativa — orienta Carolina.
Como agir ao identificar a ansiedade
Conforme Thiago Pianca, ao identificar sinais de alerta na criança ou adolescente, o primeiro passo é buscar orientação profissional de psicólogo ou psiquiatra para determinar a extensão do problema e o tratamento adequado. No SUS, as Unidades Básicas de Saúde são a porta de entrada para o atendimento especializado em saúde mental.
O psiquiatra esclarece que, assim como ocorre com os adultos, não necessariamente será preciso que a criança ou adolescente faça uso de alguma medicação. No entanto, se houver indicação clínica, os fármacos podem ser bons aliados.
— A regra geral é tentar primeiro a psicoterapia antes de iniciar um tratamento farmacológico. Para quadros de ansiedade na infância e adolescência, a terapia é ainda mais fundamental para a melhora — explica o médico.
— Porém, em casos mais graves ou específicos, como o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), a combinação de terapia e medicação pode ser indicada até mesmo preventivamente. Tudo depende do quadro, da avaliação médica e da vontade da família — exemplifica.
Carolina Lisboa observa que crianças e adolescentes podem ter algum tipo de resistência ao acompanhamento psicológico, cabendo aos pais inaugurar o diálogo sobre a importância e os benefícios que a terapia pode trazer. É interessante conversar sobre o que o jovem está vivenciando e guiá-lo ao entendimento de que existem alternativas para que consiga lidar melhor com o que está sentindo.

Esta conversa deve ser adequada à capacidade de compreensão de cada faixa etária — conforme orienta a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), que disponibiliza uma cartilha com dicas de como abordar a saúde mental com crianças e adolescentes. Outra estratégia sugerida pela psicóloga Carolina Lisboa é lembrar que o tratamento psicoterápico não precisa ser vitalício, mas não há nada de errado em fazê-lo pelo tempo que for necessário.
— Eu estimulo os meus pacientes a terem orgulho desse processo, assim como têm de outras atividades, pois é uma oportunidade de autoconhecimento que impactará toda a vida deles — diz.
Tratamento é possível e satisfatório
Com o tratamento adequado e a atuação conjunta da família e dos profissionais de saúde, é possível contornar quadros de ansiedade em crianças e adolescentes de maneira satisfatória, garante a psicóloga.
— Na maioria das vezes obtemos respostas rápidas e muito efetivas com a terapia cognitivo-comportamental — diz Carolina.
Foi assim com Samuel, filho da advogada e decoradora Ana Cristina Coutinho. Segundo ela, o menino iniciou o tratamento psicoterápico tão logo a família identificou que os sintomas ansiosos apresentados por ele haviam ultrapassado o limite da normalidade. E o resultado, segundo ela, tem sido bastante positivo.
— Ele fez terapia semanal com psicólogo por quase um ano; depois, passamos para atendimentos quinzenais — detalha.
— Falar sobre as suas questões com alguém fez com que ele se tornasse menos ansioso. Ele tinha muitas fobias específicas – de chuva, de elevador, de altura – e uma ansiedade relacionada ao desempenho: medo de não passar nas provas, medo de não ir bem no futebol. Parece que ele vivia em uma competição constante, e isso gerava angústia. Agora, já consegue lidar melhor — conta a mãe.
Ana Cristina lembra que, em um primeiro momento, não foi fácil aceitar que o filho estava vivenciando um problema de saúde mental. Contudo, ela celebra ter conseguido ajudá-lo a superar a ansiedade.
— Como mãe, a gente se cobra muito. Eu me perguntava o que tinha feito de errado, o que tinha deixado passar. Me senti arrasada no início, mas hoje vejo como foi importante ter procurado ajuda — afirma.


