
O demônio de hoje não é o mesmo de dois mil anos atrás. O conceito desse suposto ser das trevas, que coloca medo nos corações de bilhões de pessoas ao redor do mundo, foi mudando no decorrer da história, sendo utilizado pelas sociedades para explicar o que de ruim acontece e servindo como ferramenta para moldar culturas.
Quem explica isso é a historiadora Tupá Guerra, 38 anos, nascida em Rio Branco (AC) e radicada em Brasília. Doutora pela Universidade de Birmingham, ela é uma demonóloga.
— Uso esse termo porque, em primeiro lugar, ele é muito legal (risos). Em segundo, é muito mais fácil de explicar. Como demonóloga, pesquiso demônios na história e a crença em demônios — explica.
Então, não, Tupá não é adepta das artes místicas, não pratica rituais de exorcismo e sequer é uma pessoa religiosa. Ela se considera uma "historiadora pública", repassando seus conhecimentos no videocast Uma Tupá no Tempo, disponível em plataformas digitais como YouTube e Spotify.
Na entrevista a seguir, a especialista em história antiga e medieval explica como surgiu a ideia do demônio, como se transformou ao longo do tempo e de que forma influencia a sociedade até hoje.
Leia a entrevista com Tupá Guerra:
Já te perguntaram como se faz para exorcizar um demônio?
Várias vezes. As pessoas têm bastante essa ideia. Também perguntam se os colegas do mundo acadêmico se assustam com a minha área de atuação, sendo demonóloga. E não, não se assustam. No mundo acadêmico, inclusive, acham mais trivial do que fora.
As pessoas também me perguntam sobre pacto (com o demônio), normalmente porque estão desesperadas. É muito triste. Mas não é meu papel. Meu papel é entender como seres humanos se relacionam com esses temas.
Não sou uma pessoa religiosa. Quando perguntam como se livra do demônio, respondo: "Se você tem uma religião, deve procurar as pessoas da sua religião".

Afinal, o que são os demônios na tua visão de historiadora?
O demônio, como qualquer outro conceito, varia ao longo da história. O que o brasileiro médio hoje considera um demônio é completamente diferente do que um judeu há 2 mil anos considerava. Em história, nunca dá para fazer esse conceito geral.
Posso dizer que demônios, em boa parte das sociedades que têm esse conceito, tendem a ser criaturas, ou seja, não são seres humanos. E, muitas vezes, não são corpóreos, não têm exatamente um corpo físico.
São seres que fazem uma intermediação entre humanos e algo ruim, ou até mesmo algo bom. Se a gente for na Antiguidade, o termo daimon, que vem do grego, não necessariamente falava de algo ruim.
Claro que, para o cristianismo, tem mais ou menos 2 mil anos que a palavra demônio é associada com coisas ruins. Existe essa ideia de que são seres que trazem o mal. Mas o que é o mal? Todo mundo adora me falar que o mal é a ausência de bem. Mas o que é o bem? Tem coisas que parecem óbvias, mas também são pensadas no nosso tempo.
Quando perguntam como se livra do demônio, respondo: 'Se você tem uma religião, deve procurar as pessoas da sua religião'.
TUPÁ GUERRA
Historiadora e demonóloga
O demônio, então, nem sempre é do mal?
Demônios são uma das formas que as sociedades utilizaram para explicar o mal no mundo e as coisas horríveis que acontecem. A vida raramente é justa. Olhando em volta, no mundo, em qualquer momento da história, existe a lógica de que se você é bom, coisas boas acontecem, e se você é ruim, coisas más acontecem. Só que ela não funciona muito na prática.
De uma forma não religiosa, a gente vai procurar essa explicação e vai dizer são formas que seres humanos utilizaram para explicar esse mundo.
Todo mundo me pergunta se eu acredito em demônios e se eles existem. Não é meu papel acreditar, desacreditar ou falar da existência. Meu papel é entender se as pessoas acreditam. E as pessoas com certeza acreditam.
O que faz uma demonóloga? Por que escolheste ir por esse caminho?
Uso o termo demonóloga porque, em primeiro lugar, ele é um muito legal (risos). Em segundo, é muito mais fácil de explicar. Mas sou historiadora especialista em Antiguidade, que é a minha formação principal. Como demonóloga, pesquiso demônios e a crença em demônios.
Na faculdade de História, entrei em um grupo de pesquisa que trabalhava com história antiga, e a gente estava estudando judaísmo no período helenístico, sobre lendas e contos. Tinha a ideia de que a mulher pode ser um perigo para o homem na primeira noite deles.
Aí um colega falou: "Ah, tem isso na Bíblia. No livro de Tobias". Nunca tinha ouvido falar nisso. Fui fazer meu mestrado justamente estudando essa ideia de perigo que as mulheres representavam. No livro de Tobias, o perigo é um demônio.
Demônios são uma das formas que as sociedades utilizaram para explicar o mal e as coisas horríveis que acontecem.
TUPÁ GUERRA
Historiadora e demonóloga
Um professor da Filosofia que estava na minha qualificação de mestrado me disse: "Você sabia que existe bastante estudo de angeologia, que estuda anjos, mas muito pouca coisa sobre demônios?".
Aquilo ficou na minha cabeça. Recebi uma proposta para tentar uma bolsa de pesquisa e consegui. Fui convidada para ir para a Universidade de Birmingham (na Inglaterra) fazer doutorado. Me deram essa opção de estudar demônios, e eu achei incrível. Fui me apaixonando pelo tema.

Como houve essa transformação ao longo do tempo na ideia do que é o demônio? E como essa crença ainda segue guiando o comportamento de boa parte da população?
As crenças que a gente tem hoje no Brasil são uma combinação de crenças de mais de 2 mil anos atrás, do cristianismo, mas também com um substrato cultural. São várias culturas que se juntaram para ser o que é o cristianismo.
Toda essa grande mistura cria os textos que a gente chama de Bíblia hoje. Cada coisinha vai ter influência de um lugar. A gente tem, por exemplo, uma influência árabe e islâmica muito forte em Portugal, que se reflete na cultura brasileira.
Na hora de pensar o Brasil, temos que entender que tem uma influência muito forte dos povos indígenas e dos africanos que vieram para cá escravizados.
Não é meu papel acreditar, desacreditar ou falar da existência (de demônios). Meu papel é entender se as pessoas acreditam. E as pessoas com certeza acreditam.
TUPÁ GUERRA
Historiadora e demonóloga
A mistura de tudo isso vai fundamentar a nossa crença hoje. No Brasil, a ideia de fazer promessa, amarrar o Santo Antônio de cabeça para baixo, coisas assim, vêm dessas outras culturas. Você vai à Inglaterra e fala isso para alguém, e a pessoa vai ficar confusa: "Mas isso é cristianismo?".
Embora a Bíblia seja um livro fundamental para entender a nossa sociedade, não pode ser entendida como a única influência. Tem que ser entendida no meio de todas essas influências e culturas. E não existe apenas uma Bíblia. São várias versões, com diversas traduções.
Há também quem veja o demônio na religião do outro...
Exato. Tem uma mistura muito forte com o racismo. Muitas vezes, você vai ter igrejas utilizando imagens de cultos de tradição africana e dizendo: "Isso é demoníaco". Só que essa é uma visão racista de ver aqueles povos, porque eles nem sequer fazem parte desse mundo em termos de pensamento filosófico. Então, não faz sentido.
É aquela visão de que só existe o bom e o mau. E só é bom se está alinhado com você. Se não está alinhado, é necessariamente mau.
Como se construiu a imagem do demônio que temos hoje?
Nossa definição do que é o mal ou do que é o demônio vem dos filmes. As pessoas podem ficar agoniadas com isso: "Mas é o que diz a Bíblia". Sim, mas a Bíblia não descreve a aparência física do demônio. Isso vem do cinema. Para a gente, hoje em dia, cinema e literatura são muito importantes.
E o cinema não veio do nada. É uma consequência da tradição oral. Tudo isso está interligado na grande teia de referências.
Até mesmo a questão de Lúcifer ser um anjo rebelde só vai surgir partir dos anos 1600, no livro Paraíso Perdido, (poema épico) do John Milton (escritor inglês, 1608-1674). E é ali que se tem, pelas primeiras vezes, por escrito, alguém descrevendo: "Olha, o demônio, na verdade, é esse cara aqui, super rebelde, que gosta de fazer as coisas diferentes e que debate com Deus". Antes disso, não tinha tanto essa narrativa.
E isso vai se misturar com outras coisas. Uma única descrição física que se tem nos Manuscritos do Mar Morto, que não é muito física, é o chifre.
O que são os Manuscritos do Mar Morto? E qual é a relação deles com a Bíblia?
São literalmente manuscritos porque foram escritos à mão. E do Mar Morto porque foram encontrados na região do Mar Morto (que banha os territórios onde hoje estão Israel, Cisjordânia e Jordânia). São textos religiosos judaicos históricos encontrados nos anos 1950.
Eles estavam guardados há provavelmente uns 2 mil anos. É fantástico a gente ter acesso a esses textos escritos há tanto tempo. Eles nos trouxeram informações valiosíssimas para o estudo, especialmente do judaísmo e algumas coisas também para o cristianismo.
Esses textos são essencialmente o que os cristãos chamam hoje de Antigo Testamento. Você tem basicamente todos os livros, com exceção do livro de Ester. Mas eram textos que estavam muito destruídos quando foram encontrados, então o fato não ter um texto (o de Ester) não pode ser argumento para dizer que ele nunca esteve lá.
E existem outros textos que sabemos que eram importantes há 2 mil anos. Temos o livro de Enoque, o livro dos Jubileus. E várias cópias desses livros, o que significa que eles eram importantes para aquelas pessoas, porque copiaram várias vezes. São cerca de 15 mil fragmentos que formam cerca de 900 textos. São muitos pedacinhos.
Nossa definição do que é o mal ou do que é o demônio vem dos filmes.
TUPÁ GUERRA
Historiadora e demonóloga
Também havia coisas inéditas nos Manuscritos do Mar Morto?
Tinha muita coisa inédita. Por exemplo, comentários que chamam de pesher. A gente os desconhecia. Tem vários salmos. Tem os textos que trabalhei mais próximo no doutorado, todos inéditos. A gente só tem essa cópia deles. E três deles são coleções de salmos. Como são fragmentários, às vezes tenho só a metade do parágrafo, o que me deixa profundamente frustrada, mas faz parte da pesquisa.
Esses textos são muito importantes para a gente, não só para os cristãos, mas o fato de o cristianismo ser a religião dominante no Brasil acaba sendo importante para o país como um todo. Para outros países também.
Como você vê o crescimento do conservadorismo, inclusive religioso, que ocorre no Brasil?
Tanto na história do Brasil quanto na de outros lugares, é comum que em crises as pessoas se voltem mais para tradições, porque isso aparentemente dá um senso de segurança. A gente vê que, historicamente, as pessoas falam mais de demônio quando tem algum tipo de praga ou alguma coisa terrível acontecendo.
O fato de as pessoas se voltarem mais para o conservadorismo tem um pouco a ver com isso. Alguns pesquisadores vão dizer que isso é uma última tentativa de segurar coisas que não tem como serem seguradas, mudanças que não tem como deixarem de acontecer na sociedade. O fato é que a gente não sabe o que vai ser no futuro.
A religião é uma dessas coisas que parecem seguras e ordenadas. Ela é mais organizada, mais previsível, tem respostas que te acalmam. É claro que vamos ter pessoas espertas se utilizando desses medos e dessas angústias populares para manejar para os próprio interesses. Isso é muito perigoso, porque a religião e a política sempre estiveram entremeadas. Separar as duas é uma experiência relativamente nova na história. A gente ainda está aprendendo a lidar com isso.
Se você acredita que o mundo efetivamente está acabando, o que vai fazer para se proteger? Como vai agir? Os políticos se valem disso e se criam figuras messiânicas, que engrandecem quando a sociedade está confusa e busca se agarrar nas tradições.





